LÓGICA DAS CONSTANTES UNIVERSAIS

Luiz Sergio Coelho de Sampaio
Junho, 1997.
ee-001002.00[1](15/07/1999)



Such proposals have two common factors (...): they aim to show Einstein was wrong in some way and they are totally committed to the deduction of the numerical values of constants of Nature from some sequence of mysterous combinatorical juggling that occasionally incorporates considerations as abstruse as the dimensions of Great Pyramid or the interpretation of the Jewish cabbala.

John D. Barrow [1]


1 - Preliminares

Desde Galileu, portanto muito antes do advento da mecânica quântica, o operacionalismo doutrinário já exercia o seu domínio fazendo, entre outras coisas, com que a medida deixasse de ser algo metafísico (melhor diríamos, extra-físico) e viesse a se integrar à essência da cientificidade moderna. Aliás, a nosso ver, seria isto, bem mais do que o empirismo e o discurso axiomatizado já praticados e estimados pelos  gregos, o que melhor caracterizaria o ser moderno no âmbito daquela cientificidade.

A mecânica quântica veio, sim, "operacionalizar o operacionalismo" através da introdução de axiomas que formalizavam de maneira explícita a mensuração e suas conseqüências perturbadoras. A integração teórica da medida tem como corolário imediato a impossibilidade da existência de leis exatas neste domínio: todas as leis científicas seriam doravante inexorável e intrinsecamente aproximativas e/ou probabilísticas; logo, indigna dos deuses!

Os enormes êxitos da mecânica quântica, tanto de predição (a maior aproximação até hoje obtida entre o calculado e o medido), como  integrativos (em toda a história da física foi a teoria que, de um só golpe, veio explicar o maior número de fenômenos e ainda sugerir a existência muitos outros), concomitantes à vitória da interpretação de Copenhague contra aqueles que insistiam em contestar a completude da teoria quântica - que tinham entre seus epígonos até o próprio Einstein -, só fizeram ainda mais reforçar o império operacionalista (o paralelo, com alguma antecipação, ao desfecho da Segunda Guerra Mundial seguido do desmoronamento do socialismo real e a conseqüente entrada em cena do pensamento único não é de modo nenhum fortuito).

Tudo isto pode parecer hoje uma verdade assentada e definitiva, e o operacionalismo (do mesmo modo que o neo-colonialismo-social-democrata) uma exigência incontornável a tudo que pretenda o estatuto da respeitabilidade científica. Seria de justiça lembrar algumas exceções notáveis como Newton, Dirac e mais particularmente Einstein [2] que, embora não conseguisse apresentar argumentos inteiramente sólidos para sustentar sua birra contra o empirismo operacionalista, jamais abandonou sua profunda intuição de que seu métier tangenciava o sagrado, buscava desvelar as equações que governavam a obra de um Deus sério e exato que não se permitia, por isso mesmo, ares de descontração atirando dados a esmo.

Tudo se tinha assim por decidido, não fora a própria essência da Física que, como já demonstramos em trabalhos anteriores, só é moderna no semblante e pela escrita, mas antiga e nostálgica em sua objetividade recôndita. Assim como a filosofia representava para os gregos a busca do ser um, que fora lógica e definitivamente perdido pelo próprio advento daquela cultura, a física é o saber desejante, logo já impossível, do ser uno/trino, próprio à cultura cristão patrística, recalcado pelo advento mesmo da modernidade com sua lógica (do terceiro excluído ou da dupla diferença), seus protocolos, seus indefectíveis instrumentos e procedimentos de medida. Ver Princípio antrópico [3] e também Apontamentos para uma história da física moderna  [4].

Nestas circunstâncias, o aludido operacionalismo, e com ele o "aproximacionismo" e/ou indeterminismo em estado puro, seria apenas a cena de uma outra cena, uma máscara, uma espetacularidade propositadamente auto-enganadora. Precisamente por isso é que, malgrado a doutrina operacionalista dominantente, podemos, carecemos e continuamos a discutir - ainda que nas margens, dobras e desvãos do mundo, a revelia do terror acadêmico -, o estatuto lógico das leis físicas (como igualmente das leis "inexoráveis" do capitalismo financeiro globalizante).

Discutir este estatuto é não só discutir sua forma funcional formalizada (proporcional a ..., inversamente proporcional ao quadrado de ..., decaindo exponencialmente com ..., etc.), como também a essência dos parâmetros numéricos que ali comparecem (as constantes físicas).  Dentre os últimos, um pequeno grupo se destaca e recebe o estatuto de universalidade - as constantes físicas fundamentais. Segundo Planck, pai de uma das mais importantes constantes universais - a constante h de Planck -, estas se constituiriam em pedras angulares da física teórica [5]. Para John Borrow, autor de Theory of everythings, as constantes universais teriam um papel crucial no progresso do nosso entendimento do mundo físico:

Each really major advance in physical science goes hand in hand with a revision or extension of our understanding of some constant of Nature.[6]

O nosso principal propósito no presente trabalho será o de justificar o critério de seleção das constantes universais ou fundamentais, proceder ao seu inventário e esclarecer acerca de sua essência, melhor diríamos, do seu estatuto lógico.



Subir     Próxima (Capítulo 2)


 
Editora Eletrônica
Sinergia Sistemas e Processos Empresariais Ltda.