2 - A questão do justo critério de seleção
Um grande número
de importantes constantes comparece nas equações físicas
- constantes gravitacional, de estrutura fina, de Hubble, carga do elétron,
número de Avogrado, velocidade da luz no vácuo, permeabilidade
elétrica do vácuo, etc. -, porém há um acordo
tácito que dentre elas apenas umas poucas devem ser consideradas
como fundamentais. De modo geral, há muito pouca variação
acerca de qual deva ser este elenco. As duas grandes questões que
aqui se levantam seriam, pois: primeiro, qual o critério por trás
deste acordo tácito; segundo, quantas e quais, em definitivo, as
constantes que deveriam ser consideradas como realmente fundamentais.
No que diz respeito
ao critério de inclusão, embora nem sempre isto seja posto
de modo explícito e taxativo, é a vinculação
da constante às grandes teorias físicas - a constante gravitacional
(G) com a teoria gravitacional de Newton e com a relatividade geral; a
velocidade da luz no vácuo (c), com o eletromagnetismo, com a relatividade
restrita e com a eletro-dinâmica quântica (QED); a constante
de Planck (h) com a mecânica quântica e, uma vez mais, com
a QED; a constante de Boltzmann (k) com a teoria cinética dos gazes
e com a mecânica estatística em geral; a constante de Hubble
(H) com a teoria cosmológica do Big Bang; a constante de
estrutura fina ( )
com o eletromagnetismo enquanto responsável pela coesão intra-atômica;
e assim por diante.
Gilles Cohen-Tannoudgi -
talvez o único físico que se preocupou em escrever um livro
especificamente dedicado às constantes universais - defende enfaticamente
que as constantes universais representam, na verdade,
limiares epistemológicos:
Tout au long de l'ouvrage,
je me suis efforcé de montrer que les constantes universelles traduisent
des limitations de principe que s'imposent à l'homme dans son rapport
cognitif avec la nature, des limitations qu'il ne serait pas raisonable
de ne pas admettre.[7]
Tendo implícita a
vinculação às grandes teorias e bem explícita,
como se viu, a essência limitante cognitiva,
Cohen-Tannoudji [8]
estabelece que as constantes universais fundamentais seriam quatro: a velocidade
da luz (c), a constante de Planck (h), a constante gravitacional (G), constante
de Boltzmann (k), ele mesmo reconhecendo que a inclusão desta última
não seria de reconhecimento unânime.
Podemos, em princípio,
colocar sérias questões, não só acerca da essência
proposta para as constantes, mas também com respeito à coerência
da escolha. Eis as principais:
a) Caso a essência
das constantes seja a de um limiar cognitivo, por que seriam elas
quatro? Por que não cinco, como os nossos sentidos? Ou muito mais,
quantas são as grandezas físicas? Ademais, como se justificaria
por aí o seu peculiar conjunto de fórmulas dimensionais?
b) Por que não
está presente nenhuma constante vinculada à mecânica
newtoniana, que afinal é a mãe de todas as teorias físicas
modernas; isto se torna ainda mais grave quando vemos incluída uma
constante vinculada a mecânica estatística (constante de Boltzmann)
que é uma teoria completamente tributária daquela mecânica?
c) Se as forças
da natureza são quatro, por que apenas a gravitação
(G) se faz ali representar? Ou as outras três constantes representariam,
ainda que de maneira encoberta, as outras três forças?
d) As constantes, por
essência, entrariam nas respectivas teorias como valores limitativos
(h/4 , como momento angular
mínimo de um fermion; c, como o velocidade máxima de transporte
de energia ou massa); por que isto não é igualmente válido
para G, embora possa ser argüído em favor da inclusão
de k (sabendo-se que kT mede um valor mínimo, energia por
partícula por grau de liberdade)?
A nosso juízo, as
constantes fundamentais se constituiriam, sim, em valores limiares, porém,
de estofo onto-lógicos e não epistemológico, como
quer expressamente Cohen-Tannoudji. Apenas subsidiariamente, cremos,
é que elas seriam limitantes cognitivos. Com esta mudança
de essência, ver-se-á adiante, teremos como justificar sem
ambigüidades um número determinado de constantes fundamentais,
bem como suas peculiares fórmulas dimensionais. As constantes universais
estariam de fato amarradas a teorias fundamentais, desde que pudéssemos
mostrar: primeiro, que as teorias se caracterizam justamente pela aceitação
da correlata limitação; segundo, que existe uma razão
para o desconhecimento até hoje do limiar referente à constante
gravitacional; por último, que existe também uma razão
para a não inclusão de uma constante vinculada à mecânica
newtoniana.
É preciso ter
cuidado para não concluir apressadamente que uma determinada escolha
de constantes fundamentais é incoerente por não encontrarmos
as correspondentes teorias a que se vinculariam. A incoerência pode
estar alhures, na própria visão que temos do conjunto histórico
das teorias físicas. Esta hipótese, aliás, é
bastante plausível, conforme mostramos em Apontamentos para uma
história da física moderna [9].

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