3 - Um critério radical
de seleção; algumas exclusões e argumentos para tanto
Nossa hipótese básica
seria, pois, que as constantes universais fundamentais são
valores de compromisso, portanto, valores limites que impõe a interdependência
das dimensões logicamente determinadas do ser físico - tempo
(I), espaço (D) e matéria (I/D). I representa a lógica
da identidade, transcendental ou da temporalidade, D, a lógica da
diferença ou da res extensa e I/D, a dialética, lógica
do uno-trino, lógica síntese das anteriores [10].
Como são apenas três estas dimensões, três também
serão as constantes universais fundamentais.
A mecânica newtoniana,
sabemos, foi a teoria que fixou o quadro das dimensões fundamentais,
deixando-os, entretanto, como três absolutos: tempo absoluto,
espaço absoluto e materialidade absoluta. Com esta simples observação,
fica plenamente justificado porque não lhe pode corresponder qualquer
constante. A história da física a partir de então,
isto é, na modernidade, é aquela do processo de des-absolutização
destas dimensões pela invenção de "mecânicas"
restritas, estabelecendo compromissos parciais, inicialmente duas a duas,
entre aquelas dimensões buscando, ao cabo, o seu comprometimento
conjunto (o uno-trino) [11]. De fato, as constantes
universais marcam cada uma destas "mecânicas": c, a relatividade
restrita, comprometendo tempo e espaço; h, a mecânica
quântica, comprometendo tempo (ou freqüência, o que é
o mesmo) e matéria;
G, a gravitação newtoniana
e a relatividade geral - que deveriam, mas não o fazem -, estabelecendo
um comprometimento entre espaço e matéria. É precisamente
este comprometimento que pode dar conta do aparentemente injustificado
naipe das suas fórmulas dimensionais.
O par c e h
caracteriza, precisamente, a eletro-dinâmica quântica, que
estabelece uma primeira articulação tempo-espaço-matéria,
porém o comprometimento ainda é aí "linear", e não
plenamente estrutural, "triangular", como precisaria ser; por isso ainda
ansiamos por uma teoria unificada (UT) ou teoria de todas-as-coisas (TE).
O fato de que G não se constituir em valor limite [12]
seria justamente o grande obstáculo à unificação
da física. Deste modo, tomar como paradigma para a construção
de uma teoria unificada a relatividade geral, e não a mecânica
quântica ou a eletro-dinâmica quântica é, a nosso
ver, o grande erro estratégico que hoje embarga o progresso da física
teórica.
Este critério, é
verdade, exclui muitas outras constantes; acreditamos que valeria a pena
comentar pelo menos três delas: a constante de estrutura fina
( ), o número
mágico (Nm)
e a constante de Boltzmann (k). Caso, de modo coerente com os princípios
que regem nossos sistemas de medidas, utilizássemos unidades de
energia para a medição da temperatura, a constante de Boltzmann
seria um número puro e, assim, as três constantes aqui arroladas,
teriam em comum, constituirem-se em números adimensionais.
A maioria dos físicos
e filósofos da física acredita que o número de constantes
possa de fato ser reduzidas a medida que caminha o processo de unificação
da física, porém, um pequeno número se tornará
irredutível, fazendo parte das condições estruturais
a
priori do universo. Entretanto, alguns poucos - cremos que por convicção
ateista ou megalomaníacas -, alimentam esperanças de que,
a medida que o processo reducionista avance, as constantes possam
ser endogenamente determinadas. Obviamente, na circunstância, as
constantes passariam a ser números puros ou adimensionais, como
o são os acima selecionados.
Espíritos especulativos
de alto coturno acreditaram que esta hora já havia chegado. O mais
arrojado de todos foi Arthur Eddington, que tentou "deduzir" o valor
da constante de estrutura fina (1/
= 2 cqe²/h,
qe sendo a carga do
elétron em u.e.m.) a partir das dimensões do espaço-tempo
[13]. O valor de 1/
foi de início empiricamente estimado em 136, depois em 137, porém,
hoje, já com pelo menos sete algarismos significativos - 136,0359
-, fica por terra todo o esforço feito por Eddington de determiná-lo
apenas a partir das dimensões do mundo.
Embora não a tenhamos
citado, a carga elétrica (qe)
também deve ser excluída do seleto conjunto das constantes
fundamentais porque, justamente através de 1/ ,
ela mantém uma relação constante com duas das constantes
já arroladas - qe²
= ? . h/2 c
-, o que, de certo modo, mostra que o empenho de Eddington não
era errado, mas talvez apenas prematuro.
É ainda ele mesmo
que repara na coincidência de alguns grandes números, alguns
relacionando, como seria de se esperar, grandezas micro e macro-físicas:
a relação raio do Universo/raio clássico do elétron;
a relação das forças eletromagnética e força
gravitacional entre dois elétrons (c² qe²/Gme²);
a raiz quadrada do número de barions no Universo, todos, na ordem
de 1039 a 1040.
Dirac - o principal formulador da QED -, entusiasmado com a coincidência,
desenvolve um modelo cosmológico em que algumas constantes universais
chegavam a variar com o tempo, inclusive G, de sorte a manter constantes
aqueles grandes números (Nm)
[14]. Na realidade, a coincidência existe, mas
ninguém acredita que Eddington e Dirac tenham trazido alguma luz
para esclarecê-la, não havendo, portanto, uma boa razão
para a inclusão de Nm
no rol das constantes fundamentais. Não é preciso dizer que
a grande maioria dos físicos olha com extrema desconfiança
este tipo de especulação.
Quanto à constante
de Boltzmann, cremos que ela deve ser liminarmente excluída porque
a mecânica estatística é completamente tributária
da mecânica newtoniana. Conseqüentemente, a questão de
sua inclusão ou não resume-se à questão aqui
já superada de que se possa ter uma constante vinculada a esta última
teoria.

|