CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A HISTÓRIA DA CULTURA
Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da História, Conjuntura e Perspectivas Brasileiras [1]
Luiz Sergio Coelho de Sampaio
Brasíla, 16 de junho de 1999.
ee-001003.00[1](30/07/1999)



Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica.
Ernst Cassirer

L'âme humaine et l'histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l'espace et le temps.
Paul Tillich


Antes de qualquer outra coisa gostaríamos de agradecer ao Magnífico Reitor da UnB, Dr. Lauro Morhy, o convite para participarmos do evento Anúncio do PROGRAMA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO FUTURO. 

A série de eventos, Ainda, a Invenção do Brasil, que ora está sendo anunciada como atividade central do Laboratório de Estudos de Futuro para o próximo biênio, na nossa opinião, é de excepcional oportunidade e de uma grande importância, pois, às vésperas do ano 2000, não estamos ainda bem certos do que comemorar: se um, sem dúvida, arrojado descobrimento europeu ou se o início das tribulações e das penas de gentes que já aqui haviam e outras chegadas de outras partes que estão fazendo emergir, espero que para muito breve, uma nova cultura sob o sol dos trópicos. Não é preciso enfatizar o quanto nos sentimos honrados por estar aqui presentes e o melhor que podemos fazer para nos aproximarmos da altura do convite, é evitar as trivialidades, os déjà-pensées, a exibição de títulos (porque mesmo não os temos), a referência erudita, entretanto, gratuita e outras velharias para enfrentar, sim, esta nossa velha preguiça de pensar o novo, que, de algum modo, negamos e coetaneamente já somos.

1 - A HISTÓRIA COMO PROCESSO HIPERDIALÉTICO QÜINQÜITÁRIO 

Não existe a menor possibilidade de nos lançarmos aos estudos do futuro sem a prévia assunção de uma concepção, de uma filosofia ou, dito com maior precisão, de uma lógica da História. Nestas circunstâncias, proceder à explicitação de tal pressuposto é, além de um entre muitos expedientes para uma boa comunicação, também um imperativo de mínima ética. De que lugar[2],  estaremos nós aqui falando do futuro? É o que tentaremos precisar neste item introdutório.

A noção de História estaria originalmente associada à lógica transcendental ou da identidade (I) [3], que é o modo específico de se poder pensar a temporalidade, a liberdade e a própria consciência. Esta é a primeira dentre as concepções de história, história judaica, solidária à verdade do Deus único, que iremos denominar com o neologismo unária. Ela é a História que se interessa primordialmente pelos extremos, origem e destino, momentos de criação e consumação dos tempos (escatologia); os "acontecimentos" intermédios, para ela, são mera conseqüência de incidentais descumprimentos pelos homens dos mandamentos divinos e do justo castigo que lhes é por isso infligido. O que esta concepção reclama de nós não pode ser outra coisa senão a fé inabalável de que Jó nos dá o melhor dos exemplos. (Ver figura 1) 

Figura 1 - Concepções da História

Depois de Hegel, a noção de História ficou radicalmente associada à lógica dialética, síntese das lógicas da identidade e da diferença, a que damos, por isso,  a denominação de concepção trinitária. A verdade da dialética, como enfatizava Lukács [4], é a totalidade, de sorte que a verdadeira história só pode ser aquela da totalidade lógico-dialética em busca de si mesmo. Assim,  concluiu coerentemente Hegel, a História seria o próprio processo de auto-desvelamento do espírito absoluto [5]. Além da versão original hegeliana, especulativa (melhor dito do que idealista), esta história pode assumir também feições materialista, como em Marx/Engels.

Ao internar a diferença, a dialética cria um modo imanente de dinamismo, fazendo do conflito ou das contradições internas o seu verdadeiro motor, o que  torna esta história especialmente apta para explicar as mil peripécias do devir. Em compensação, ela apresenta uma deficiência intrínseca que a incapacita para a compreensão de origem e destino – daí, o paraíso, o juízo final, o comunismo primitivo, a revolução, a sociedade sem classes e outras miragens para obnubilar a referida deficiência lógica. Ela é uma história que solicita, sobretudo, o nosso engajamento. Note-se, entrementes, que a dialética, desvinculada do diálogo com outros modos de pensar, pode facilmente degenerar em lógica da oportunidade e nosso engajamento em mero oportunismo. 

A noção de História é freqüentemente estendida para abarcar concepções lógico-diferenciais que em  essência a negam, e isto, a nosso ver, se constitui num evidente contra-senso. Como fazer compatíveis a temporalidade lógico-identitária e a espacialidade lógico-diferencial? Apelando à velha dialética? Mas esta está, como vimos, aqui também envolvida para poder dar a necessária volta por cima. Concordemos em adiar por momentos uma resposta.

Considerada sua essência lógico-diferencial, estas paradoxais concepções históricas só podem se  apresentar de duas maneiras, conforme sua opção lógica subjacente. De um lado, está a "história das mentalidades" que, com bem maior propriedade, deveríamos chamar arqueologia das mentalidades ou da cultura. É um pensamento que abre mão do diacrônico em favor do sincrônico, preocupando-se com as estruturas ou estratos profundos (em boa parte inconscientes) que constituem a alma de um agrupamento humano ou de uma época. Sua postura é fundamentalmente hermenêutica: trata-se, sobretudo, da busca da explicitação de um sentido coletivo, contextual. Teríamos como exemplos a escola francesa da "história das mentalidades" [6], o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss [7] e, de confessa inspiração nietzscheana, a genealogia de Foucault [8]. É uma concepção, em geral, marcada por uma visão trágica do homem e da sociedade, onde impera o eterno retorno do mesmo, governado por uma lógica da repetição. O homem não viveria propriamente uma história, mas o desdobramento epocal das mil máscaras do trágico se mostrando e se apagando num des-propositado jogo de forças. O que nos é dado, na circunstância,  é a alegre (trágica) aceitação do jogo [9], da condição a que fomos atirados não se sabe por que deuses tão francamente anti-einsteinianos. 

De outro lado temos a "história" embalada como  produto científico, de inspiração organicista, que procura isolar "unidades históricas" relativamente estáveis (em geral civilizações) para daí inferir padrões de regularidade. Identificam e medem fatores determinantes de seu surgimento, de sua continuidade, de seu apogeu  e de sua queda; os exemplos clássicos seriam Spengler  [10] e Toynbee [11]. Hoje, desta, prolifera  uma variante que poderíamos chamar "história científica e bem remunerada", desenvolvida com o fim  estratégico de permitir a mais tranqüila reprodução dos poderes; pretendem-se um cálculo a médio prazo do ser temporal, o que é já o suficiente para revelar seu caráter cínico; afinal, para ela, História não há mesmo mais. Aos poderes, solicitam mais verbas, aos desgraçados, que suicidem-se [12].

Estas duas concepções se distinguem, como dissemos,  por seu parti pris lógico, uma vinculando-se à lógica da diferença, outra à lógica clássica esta última  precisando ser  compreendida pelo que verdadeiramente é: uma lógica da dupla diferença. 

Não podemos aqui evitar uma breve digressão lógica, pois se trata de uma questão vital, embora seja o maior dos escândalos que não faça  parte da cultura comum do cidadão [13]. Quando procedemos a uma diferenciação qualquer B, não nos é garantido o princípio do terceiro excluído, característica inalienável da lógica clássica, ou seja, que Não(NãoB) se iguale a B. Isto é simplesmente impossível porque NãoB, diferentemente de B, é um indefinido, cuja negação não pode jamais vir a se constituir em algo melhor definido do que o próprio NãoB, para deste modo  poder se igualar a B. (Ver figura 2). 

Para garantirmos a validade do aludido princípio, precisaremos tomar por referência uma primeira discriminação, B, e abandonar NãoB; fazer de conta que B é uma totalidade e aí então, nele, proceder a uma segunda diferenciação A. Agora, sim, porque NãoA é tão bem definido quanto A, é que podemos ter de fato Não(NãoA) = A, como requer o princípio do terceiro excluído. 

Figura 2 - Lógica da diferença versus lógica da dupla diferença

Melhor a denominaríamos, por isto, lógica da dupla diferença, em contraposição à lógica da simples diferença.  

O caráter trágico da lógica da simples diferença (D), vem de que ela é o pensar da separação (relativamente ao Um / Ilimitado), muito bem simbolizada por Prometeu. A lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/²) deriva  de um artifício, de um faz de conta, ou seja, que uma primeira diferença pode produzir uma veraz totalidade; esta mera convenção promovida ao estatuto de verdade absoluta (exclusivismo da lógica clássica), transforma-a em lógica cínica. Muito simples, e no entanto, é tão só esta artimanha que permite o obsessivo cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos promovido pela Modernidade. 

O contra-senso da inclusão de concepções logico-diferenciais (espaciais e não, como deveria ser, propriamente temporais) da História em um mesmo quadro referencial tem agora sua grande compensação. Desenha-se um referencial perfeitamente homólogo à estrutura das lógicas de base [14], em que estão presentes as lógicas da identidade (concepção judaica ou unária I), da diferença (concepção trágica D), dialética (concepção hegeliana/marxista ou trinitária I/D) e clássica, formal, do terceiro excluído ou, ainda mais precisamente, lógica da dupla da diferença (concepção cínica D/D=D/²). 

Agora nos é dado facilmente perceber o óbvio: que, seja seguindo o vai e vem das concepções da histórias em geral (I, D, I/D, D/D), seja seguindo diretamente a linhagem das lógicas da temporalidade (I e I/D), chegamos sempre ao mesmo destino - à existência de um quinto lugar, onde poderá situar-se uma nova concepção da história, coerentemente na linhagem das lógicas identitárias, só que desta feita, de nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/²). 

Esta pode ser compreendida de diferentes modos, entre eles, como uma síntese da concepção dialética hegeliana (I/D) com a hermenêutica das mentalidades (D), resultando, agora sim, numa síntese maior, lógico qüinqüitária - (I/D)/(D)= I/D/D=I/D/² -,  tal como está destacado na figura 1. Ela pode também ser entendida como uma dialética da dialética, síntese das concepções genuinamente temporais da história, transcendental e dialética trinitária. Não é só: também pode ser compreendida de per si, à maneira de Hegel frente a sua dialética, como lógica do processo de auto-desvelamento do homem, tido agora não como um espírito-lógico-trinitário (I/D), mas como um bem mais complexo ser-lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/²). Haveria ainda muito mais que o leitor poderá por si descobrir. 

Somos agora  forçados a uma nova e breve digressão para salientarmos alguns dos principais traços que diferenciam a lógica hiperdialética (qüinqüitária, I/D/²) da já bem conhecida lógica dialética (trinitária, I/D) [15]. 
      Preliminarmente apresentamos na figura 3 a dialética em dois ciclos subsequentes para fazê-la mais facilmente comparável à lógica qüinqüitária.

Fica aqui evidente a maior complexidade da hiperdialética na medida em que nesta, ao primeiro ciclo dialético, segue-se não outro ciclo da mesma natureza, mas sim um ciclo contra-dialético, que vai dar ensejo à síntese lógica clássica ou da dupla diferença. Só  depois,  o processo segue em direção a uma síntese maior, cuja complexidade vai inclusive requerer uma terceira dimensão representativa [16]. Torna-se mais do que evidente que apenas desta  perspectiva lógico-qüinqüitária é que se poderá proceder à crítica radical da Modernidade [17].  

De todas as lógicas mundanas [18] tão só a hiperdialética qüinqüitária subsume a lógica clássica, lógica da dupla-diferença, que sabemos garantidora, em última instância, dos procedimentos de cálculo do mundo que caracterizam essencialmente a Modernidade.  

É a concepção lógico-qüinqüitária da história que necessária e coerentemente precisaremos assumir para poder efetivamente pensar a História da Cultura em toda sua amplitude, em especial, aquilo que esteja a emergir para além da Modernidade. Um lugar por demais alto, sabemos bem, tanto para o olhar, quanto aos riscos a serem assumidos; um lugar de ar rarefeito, certamente, mas mesmo assim, lugar onde se pode  enfim  respirar um pouco de esperança. 

Figura 3 - Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária

Por também subsumir as concepções judaica e hegeliana da história, ela suscita e nos solicita tanto pela fé quanto para o engajamento.

Segundo nos informa Marcio Goldman [19], a maioria dos antropólogos - e cita Frazer, Morgan, Tylor e Lévi-Strauss - enxergou  sua ciência desde sempre em crise, na medida em que, nem bem constituída, já contemplava ela a desaparição de seus mais caros objetos. Citamos isto para que não alimentemos qualquer ilusão com respeito a quão estranho irá aparecer ao saber antropológico estabelecido, mormente aqui em Pindorama, a assunção de um ponto de vista antropo-lógico que, de certo modo, se põe na contramão, alerta ainda à espera de seu objeto, pouco mais do que nomeado - a cultura nova lógico-qüinqüitária! Devemos convir que deve soar ainda bastante estranha esta nossa pretensão de antropofagiar a ciência em nome e proveito da esperança!



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