Descrever e analisar o caráter
específico que o espaço e o tempo assumem na experiência
humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia
antropológica.
Ernst Cassirer
L'âme humaine et l'histoire humaine sont dans
une large mesure déterminées par la lutte entre l'espace
et le temps.
Paul Tillich
Antes de qualquer outra
coisa gostaríamos de agradecer ao Magnífico Reitor da UnB,
Dr. Lauro Morhy, o convite para participarmos do evento Anúncio
do PROGRAMA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO FUTURO.
A série de eventos, Ainda, a Invenção do Brasil,
que ora está sendo anunciada como atividade central do Laboratório
de Estudos de Futuro para o próximo biênio, na nossa opinião,
é de excepcional oportunidade e de uma grande importância,
pois, às vésperas do ano 2000, não estamos ainda bem
certos do que comemorar: se um, sem dúvida, arrojado descobrimento
europeu ou se o início das tribulações e das penas
de gentes que já aqui haviam e outras chegadas de outras partes
que estão fazendo emergir, espero que para muito breve, uma nova
cultura sob o sol dos trópicos. Não é preciso enfatizar
o quanto nos sentimos honrados por estar aqui presentes e o melhor que
podemos fazer para nos aproximarmos da altura do convite, é evitar
as trivialidades, os déjà-pensées, a exibição
de títulos (porque mesmo não os temos), a referência
erudita, entretanto, gratuita e outras velharias para enfrentar, sim, esta
nossa velha preguiça de pensar o novo, que, de algum modo, negamos
e coetaneamente já somos.
1 - A HISTÓRIA
COMO PROCESSO HIPERDIALÉTICO QÜINQÜITÁRIO
Não existe a menor possibilidade de nos lançarmos aos estudos
do futuro sem a prévia assunção de uma concepção,
de uma filosofia ou, dito com maior precisão, de uma lógica
da História. Nestas circunstâncias, proceder à explicitação
de tal pressuposto é, além de um entre muitos expedientes
para uma boa comunicação, também um imperativo de
mínima ética. De que lugar[2],
estaremos nós aqui falando do futuro? É o que tentaremos
precisar neste item introdutório.
A noção de História estaria originalmente associada
à lógica transcendental ou da identidade (I) [3],
que é o modo específico de se poder pensar a temporalidade,
a liberdade e a própria consciência. Esta é a primeira
dentre as concepções de história, história
judaica, solidária à verdade do Deus único, que iremos
denominar com o neologismo unária. Ela é a História
que se interessa primordialmente pelos extremos, origem e destino, momentos
de criação e consumação dos tempos (escatologia);
os "acontecimentos" intermédios, para ela, são mera conseqüência
de incidentais descumprimentos pelos homens dos mandamentos divinos e do
justo castigo que lhes é por isso infligido. O que esta concepção
reclama de nós não pode ser outra coisa senão a fé
inabalável de que Jó nos dá o melhor dos exemplos.
(Ver figura 1)
Figura
1 - Concepções da História
Depois de Hegel, a noção de História ficou radicalmente
associada à lógica dialética, síntese das lógicas
da identidade e da diferença, a que damos, por isso, a denominação
de concepção trinitária. A verdade da dialética,
como enfatizava Lukács [4],
é a totalidade, de sorte que a verdadeira história só
pode ser aquela da totalidade lógico-dialética em busca de
si mesmo. Assim, concluiu coerentemente Hegel, a História
seria o próprio processo de auto-desvelamento do espírito
absoluto [5].
Além da versão original hegeliana, especulativa (melhor dito
do que idealista), esta história pode assumir também feições
materialista, como em Marx/Engels.
Ao internar a diferença, a dialética cria um modo imanente
de dinamismo, fazendo do conflito ou das contradições internas
o seu verdadeiro motor, o que torna esta história especialmente
apta para explicar as mil peripécias do devir. Em compensação,
ela apresenta uma deficiência intrínseca que a incapacita
para a compreensão de origem e destino – daí, o paraíso,
o juízo final, o comunismo primitivo, a revolução,
a sociedade sem classes e outras miragens para obnubilar a referida deficiência
lógica. Ela é uma história que solicita, sobretudo,
o nosso engajamento. Note-se, entrementes, que a dialética, desvinculada
do diálogo com outros modos de pensar, pode facilmente degenerar
em
lógica da oportunidade e nosso engajamento em mero oportunismo.
A noção de História é freqüentemente estendida
para abarcar concepções lógico-diferenciais que em
essência a negam, e isto, a nosso ver, se constitui num evidente
contra-senso. Como fazer compatíveis a temporalidade lógico-identitária
e a espacialidade lógico-diferencial? Apelando à velha
dialética? Mas esta está, como vimos, aqui também
envolvida para poder dar a necessária volta por cima. Concordemos
em adiar por momentos uma resposta.
Considerada sua essência lógico-diferencial, estas paradoxais
concepções históricas só podem se apresentar
de duas maneiras, conforme sua opção lógica subjacente.
De um lado, está a "história das mentalidades" que, com bem
maior propriedade, deveríamos chamar arqueologia das mentalidades
ou da cultura. É um pensamento que abre mão do diacrônico
em favor do sincrônico, preocupando-se com as estruturas ou estratos
profundos (em boa parte inconscientes) que constituem a alma de um agrupamento
humano ou de uma época. Sua postura é fundamentalmente hermenêutica:
trata-se, sobretudo, da busca da explicitação de um sentido
coletivo, contextual. Teríamos como exemplos a escola francesa da
"história das mentalidades" [6],
o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss [7]
e, de confessa inspiração nietzscheana, a genealogia de Foucault
[8]. É
uma concepção, em geral, marcada por uma visão trágica
do homem e da sociedade, onde impera o eterno retorno do mesmo,
governado por uma lógica da repetição. O homem não
viveria propriamente uma história, mas o desdobramento epocal das
mil máscaras do trágico se mostrando e se apagando num des-propositado
jogo de forças. O que nos é dado, na circunstância,
é a alegre (trágica) aceitação do jogo
[9], da condição
a que fomos atirados não se sabe por que deuses tão francamente
anti-einsteinianos.
De outro lado temos a "história" embalada como produto científico,
de inspiração organicista, que procura isolar "unidades históricas"
relativamente estáveis (em geral civilizações) para
daí inferir padrões de regularidade. Identificam e medem
fatores determinantes de seu surgimento, de sua continuidade, de seu apogeu
e de sua queda; os exemplos clássicos seriam Spengler [10]
e Toynbee [11].
Hoje, desta, prolifera uma variante que poderíamos chamar
"história científica e bem remunerada", desenvolvida com
o fim estratégico de permitir a mais tranqüila reprodução
dos poderes; pretendem-se um cálculo a médio prazo do ser
temporal, o que é já o suficiente para revelar seu caráter
cínico;
afinal, para ela, História não há mesmo mais. Aos
poderes, solicitam mais verbas, aos desgraçados, que suicidem-se
[12].
Estas duas concepções se distinguem, como dissemos,
por seu parti pris lógico, uma vinculando-se à lógica
da diferença, outra à lógica clássica esta
última precisando ser compreendida pelo que verdadeiramente
é: uma lógica da dupla diferença.
Não podemos aqui evitar uma breve digressão lógica,
pois se trata de uma questão vital, embora seja o maior dos escândalos
que não faça parte da cultura comum do cidadão
[13]. Quando
procedemos a uma diferenciação qualquer B, não nos
é garantido o princípio do terceiro excluído, característica
inalienável da lógica clássica, ou seja, que Não(NãoB)
se iguale a B. Isto é simplesmente impossível porque NãoB,
diferentemente de B, é um indefinido, cuja negação
não pode jamais vir a se constituir em algo melhor definido do que
o próprio NãoB, para deste modo poder se igualar a
B. (Ver figura 2).
Para garantirmos a validade do aludido princípio, precisaremos tomar
por referência uma primeira discriminação, B, e abandonar
NãoB; fazer de conta que B é uma totalidade e aí então,
nele, proceder a uma segunda diferenciação A. Agora, sim,
porque NãoA é tão bem definido quanto A, é
que podemos ter de fato Não(NãoA) = A, como requer o princípio
do terceiro excluído.
Figura 2 - Lógica
da diferença versus lógica da dupla diferença
Melhor a denominaríamos, por isto, lógica da dupla diferença,
em contraposição à lógica da simples diferença.
O caráter trágico da lógica da simples diferença
(D), vem de que ela é o pensar da separação (relativamente
ao Um / Ilimitado), muito bem simbolizada por Prometeu. A lógica
clássica ou da dupla diferença (D/D=D/²) deriva
de um artifício, de um faz de conta, ou seja, que uma primeira diferença
pode produzir uma veraz totalidade; esta mera convenção promovida
ao estatuto de verdade absoluta (exclusivismo da lógica clássica),
transforma-a em lógica cínica. Muito simples, e no
entanto, é tão só esta artimanha que permite o obsessivo
cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos promovido pela
Modernidade.
O contra-senso da inclusão de concepções logico-diferenciais
(espaciais e não, como deveria ser, propriamente temporais) da História
em um mesmo quadro referencial tem agora sua grande compensação.
Desenha-se um referencial perfeitamente homólogo à estrutura
das lógicas de base [14],
em que estão presentes as lógicas da identidade (concepção
judaica ou unária I), da diferença (concepção
trágica D), dialética (concepção hegeliana/marxista
ou trinitária I/D) e clássica, formal, do terceiro excluído
ou, ainda mais precisamente, lógica da dupla da diferença
(concepção cínica D/D=D/²).
Agora nos é dado facilmente perceber o óbvio: que, seja seguindo
o vai e vem das concepções da histórias em geral (I,
D, I/D, D/D), seja seguindo diretamente a linhagem das lógicas da
temporalidade (I e I/D), chegamos sempre ao mesmo destino - à existência
de um quinto lugar, onde poderá situar-se uma nova concepção
da história, coerentemente na linhagem das lógicas identitárias,
só que desta feita, de nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário
(I/D/D=I/D/²).
Esta pode ser compreendida de diferentes modos, entre eles, como uma síntese
da concepção dialética hegeliana (I/D) com a hermenêutica
das mentalidades (D), resultando, agora sim, numa síntese maior,
lógico qüinqüitária - (I/D)/(D)= I/D/D=I/D/²
-, tal como está destacado na figura 1.
Ela pode também ser entendida como uma dialética da dialética,
síntese das concepções genuinamente temporais da história,
transcendental e dialética trinitária. Não é
só: também pode ser compreendida de per si, à maneira
de Hegel frente a sua dialética, como lógica do processo
de auto-desvelamento do homem, tido agora não como um espírito-lógico-trinitário
(I/D), mas como um bem mais complexo ser-lógico-qüinqüitário
(I/D/D=I/D/²). Haveria ainda muito mais que o leitor poderá
por si descobrir.
Somos agora forçados a uma nova e breve digressão para
salientarmos alguns dos principais traços que diferenciam a lógica
hiperdialética (qüinqüitária, I/D/²) da já
bem conhecida lógica dialética (trinitária, I/D) [15].
Preliminarmente apresentamos na figura 3 a dialética em dois ciclos
subsequentes para fazê-la mais facilmente comparável à
lógica qüinqüitária.
Fica aqui evidente a maior complexidade da hiperdialética na medida
em que nesta, ao primeiro ciclo dialético, segue-se não outro
ciclo da mesma natureza, mas sim um ciclo contra-dialético, que
vai dar ensejo à síntese lógica clássica ou
da dupla diferença. Só depois, o processo segue
em direção a uma síntese maior, cuja complexidade
vai inclusive requerer uma terceira dimensão representativa [16].
Torna-se mais do que evidente que apenas desta perspectiva lógico-qüinqüitária
é que se poderá proceder à crítica radical
da Modernidade [17].
De todas as lógicas mundanas [18]
tão só a hiperdialética qüinqüitária
subsume a lógica clássica, lógica da dupla-diferença,
que sabemos garantidora, em última instância, dos procedimentos
de cálculo do mundo que caracterizam essencialmente a Modernidade.
É a concepção lógico-qüinqüitária
da história que necessária e coerentemente precisaremos assumir
para poder efetivamente pensar a História da Cultura em toda sua
amplitude, em especial, aquilo que esteja a emergir para além da
Modernidade. Um lugar por demais alto, sabemos bem, tanto para o olhar,
quanto aos riscos a serem assumidos; um lugar de ar rarefeito, certamente,
mas mesmo assim, lugar onde se pode enfim respirar um pouco
de esperança.
Figura 3 - Dialética
trinitária versus hiperdialética qüinqüitária
Por também subsumir as concepções judaica e hegeliana
da história, ela suscita e nos solicita tanto pela fé quanto
para o engajamento.
Segundo nos informa Marcio Goldman [19],
a maioria dos antropólogos - e cita Frazer, Morgan, Tylor e Lévi-Strauss
- enxergou sua ciência desde sempre em crise, na medida em
que, nem bem constituída, já contemplava ela a desaparição
de seus mais caros objetos. Citamos isto para que não alimentemos
qualquer ilusão com respeito a quão estranho irá aparecer
ao saber antropológico estabelecido, mormente aqui em Pindorama,
a assunção de um ponto de vista antropo-lógico que,
de certo modo, se põe na contramão, alerta ainda à
espera de seu objeto, pouco mais do que nomeado - a cultura nova lógico-qüinqüitária!
Devemos convir que deve soar ainda bastante estranha esta nossa pretensão
de antropofagiar a ciência em nome e proveito da esperança!

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