CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A HISTÓRIA DA CULTURA
Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da História, Conjuntura e Perspectivas Brasileiras [1]
Luiz Sergio Coelho de Sampaio
Brasíla, 16 de junho de 1999.
ee-001003.00[1](30/07/1999)



2 - UM ESBOÇO DA HISTÓRIA DA CULTURA 

Em Noções de antropo-logia [20] caracterizamos o homem como o ente dotado de um poder hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. Os animais cordados operariam no nível lógico dialético (I/D), mas a razão humana iria mais além, operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I), da diferença (D), dialética (I/D) e clássica, formal ou da dupla diferença (D/²). Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/²) governa, entre muitas outras coisas próprias aos homens, o discurso articulado em sua plena acepção [21].

Perguntamo-nos naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização - válida para todos os homens em todos os tempos e lugares - com a tese da historicidade das culturas (a nosso ver, atestada de muitos modos, entre eles, pela idade, pela variabilidade no tempo do seu vigor criativo e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? 

Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo a história da cultura como um processo de autodesvelamento do próprio ser do homem. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D), mas, algo ainda mais complexo, de natureza hiperdialética (I/D/²). Aliás, por uma questão de coerência com o que vimos até aqui, como poderia ser diferente?

Toda cultura teria, assim, um essencial e particular comprometimento lógico [22], comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [23]. Esta última seria a expressão simbólica, coletivamente objetivada, da lógica por ela assumida e sacralizada, e que lhe confere, inclusive, as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. 

Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I, da diferença  D, dialética I/D, clássica ou formal D/²  e a própria I/D/²), seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que teriam ocorrido significativos avanços, mas não ainda um passo de natureza propriamente lógica na direção daquele desvelamento. Elas serão genericamente denominadas etapas ecológicas [24], distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I), depois, uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D), ambas naturalmente referidas à Natureza. (Ver figura 4)

Resumidamente e focalizando uma área restrita, compreendendo apenas o Ocidente e o Oriente Próximo, teríamos a seguinte seqüência histórica de culturas nodais: 

Figura 4 - Esboço de uma História das Culturas Nodais

    pré-I, cultura tribal, dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico;
    pré-D, cultura sedentária de base agrária, começando no período mesolítico e alcançando o  apogeu com os grandes impérios da antigüidade; 
    I, cultura judaica, primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral;
    D, cultura prometéica grega, já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos); 
    I/D, cultura medieval cristã (patrística), por todos os títulos, uma manifesta síntese das culturas anteriores [25]; 
    D/²,  cultura moderna de base científica, que hoje domina o Mundo; e, ainda por vir,
    I/D/², cultura hiperdialética qüinqüitária, não castradora, porque, pela primeira vez, uma cultura à medida exata do homem.

É importante notar a perfeita homologia entre as figuras 1 e 4, descontado nesta última o "detalhe" das culturas "ecológicas",  que vem demonstrar que por trás de ambas opera um mesmo arcabouço lógico. Por isso, a aparentemente desmedida simplificação da tese uma cultura, uma lógica pôde até aqui tão bem sustentar-se.



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