2 - UM ESBOÇO DA HISTÓRIA DA CULTURA
Em Noções de antropo-logia [20]
caracterizamos o homem como o ente dotado de um poder hiperdialético
ou lógico-qüinqüitário. Os animais cordados operariam
no nível lógico dialético (I/D), mas a razão
humana iria mais além, operando uma complexa lógica hiperdialética
síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I),
da diferença (D), dialética (I/D) e clássica, formal
ou da dupla diferença (D/²). Isto deixa de ser uma excepcional
novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária
(I/D/²) governa, entre muitas outras coisas próprias aos homens,
o discurso articulado em sua plena acepção [21].
Perguntamo-nos naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização
- válida para todos os homens em todos os tempos e lugares - com
a tese da historicidade das culturas (a nosso ver, atestada de muitos modos,
entre eles, pela idade, pela variabilidade no tempo do seu vigor criativo
e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre
as outras)?
Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo a história
da cultura como um processo de autodesvelamento do próprio ser do
homem. Atente-se que este não seria um processo dialético
no sentido hegeliano-marxista (I/D), mas, algo ainda mais complexo, de
natureza hiperdialética (I/D/²). Aliás, por uma questão
de coerência com o que vimos até aqui, como poderia ser diferente?
Toda cultura teria, assim, um essencial e particular comprometimento lógico
[22], comprometimento
que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios
dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [23].
Esta última seria a expressão simbólica, coletivamente
objetivada, da lógica por ela assumida e sacralizada, e que lhe
confere, inclusive, as condições de um efetivo exercício
estabilizador da ordem social. Os tipos culturais que inauguram
cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós
denominados culturas nodais.
Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas
pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade
I, da diferença D, dialética I/D, clássica ou
formal D/² e a própria I/D/²), seria preciso considerar
também etapas históricas precedentes em que teriam ocorrido
significativos avanços, mas não ainda um passo de natureza
propriamente lógica na direção daquele desvelamento.
Elas serão genericamente denominadas etapas ecológicas [24],
distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade
(cultura da pré-identidade ou pré-I), depois, uma outra em
que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença
ou pré-D), ambas naturalmente referidas à Natureza. (Ver
figura 4)
Resumidamente e focalizando uma área restrita, compreendendo apenas
o Ocidente e o Oriente Próximo, teríamos a seguinte seqüência
histórica de culturas nodais:
Figura 4 - Esboço
de uma História das Culturas Nodais
pré-I,
cultura tribal, dos bandos primitivos de caçadores/coletores do
paleolítico;
pré-D,
cultura sedentária de base agrária, começando no período
mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios
da antigüidade;
I,
cultura judaica, primeira cultura que desvela e alcança a objetivação
simbólica do ser lógico em geral;
D,
cultura prometéica grega, já capaz de se perguntar pelo ser
e pela sua própria lógica (logos);
I/D,
cultura medieval cristã (patrística), por todos os títulos,
uma manifesta síntese das culturas anteriores [25];
D/²,
cultura moderna de base científica, que hoje domina o Mundo; e, ainda por vir,
I/D/²,
cultura hiperdialética qüinqüitária, não
castradora, porque, pela primeira vez, uma cultura à medida exata
do homem.
É importante notar a perfeita homologia entre as figuras 1 e 4,
descontado nesta última o "detalhe" das culturas "ecológicas",
que vem demonstrar que por trás de ambas opera um mesmo arcabouço
lógico. Por isso, a aparentemente desmedida simplificação
da tese uma cultura, uma lógica pôde até
aqui tão bem sustentar-se.

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