3 - DESEJO, FINGIMENTO E SUPERAÇÃO
Nossa tese central daqui por diante, entretanto, não será
mais uma cultura, uma lógica, porém algo bem
mais arriscado e complexo: uma cultura, três lógicas
[26]. Esta
mudança (de 1 para 3), como se verá, tem o sentido profundo
de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para
o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas.
Cada cultura tem sua lógica de referência - que era
nossa tese anterior - ficando, agora, associada a mais outras duas: a primeira,
correspondente à cultura que a antecedeu - que determina o seu ser
"desejante",
fonte de seu vigor criativo -; a segunda, correspondente à cultura
que a irá suceder - que determina o que ela, numa artimanha defensiva,
intentará simular ser, vale dizer, fingir que não mais é
o que é, mas, sim, o seu próprio futuro que teria resolvido
madrugar.
Tentemos melhor esclarecer. A adjudicação de uma lógica
a uma cultura, já foi assinalado, precisou ser feita mantido o postulado
da igualdade de todos os homens, o que implicava no reconhecimento de uma
certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas
e relativistas da moda, e da qual não discordamos). Em outras palavras,
em que pese seu parti pris lógico, toda cultura de algum
modo dá testemunho de outras lógicas. São vínculos
ora claros e assumidos, ora clandestinos, com cada uma das demais lógicas
mundanas, inclusive com aquela que a todas estas subsume.
Para convencer-nos, bastaria lembrar a profusão de manifestações
arquetípicas que se pode recolher nas culturas históricas:
lógica
da identidade I - o número 1, o ponto, o círculo, o ar
e a águia, o azul, a cobra que se devora pela própria cauda;
lógica
da diferença D - o número 2, o segmento de
reta, a água e a serpente em hélice ou distendida, o branco,
os gêmeos, figuras especulares em geral;
lógica
dialética I/D - o número 3, o fogo e o leão, o
vermelho, triângulos, triângulos de círculos ou nó
borromeano;
lógica
formal D/D ou D/² - o número 4, a terra e o touro, o negro,
os quadriláteros em geral e as cruzes;
lógica
hiperdialética I/D/D ou I/D/² - o número 5, o homem
e a quinta-essência, a estrela socialista, os dedos da mão
grupados em 2 mais 2 mais 1, as pirâmides de base quadrada,
mandalas [27]
de toda sorte.
Dentro desse quadro geral, seria de bom alvitre que se indagasse: para
uma cultura comprometida com determinada lógica, que relações
com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes?
E por quê?
Responderíamos que justo aquelas relações que ela
mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas (Ver figura
5):
a) de um lado, com a lógica da cultura que lhe antecedeu - lógica
que teve que ser superada (ou recalcada), para que ela pudesse advir em
seu lugar, mas que de algum modo permanece subsumida, e que por vezes "retorna"
ou se re-volta como num sonho -;
b) de outro lado, com a lógica da cultura que lhe sucederá,
seu permanente pesadelo - de onde, por suposto, procede a real ameaça
à sua dominação de época.
Figura
5 - Desejo, fingimento e superação
Do ponto de vista lógico, toda cultura ao se afirmar estará
automaticamente subsumindo aquela que a precede. O que acontece aqui guarda
grande semelhança com o que a psicanálise já observou
no processo de estruturação lógico/emocional dos indivíduos.
Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida
e duradouramente exercida, não se pode simplesmente apagá-la;
o que se pode, na verdade, é de algum modo silenciá-la, recalcá-la
ou, o que é ainda mais sutil, forçá-la a abandonar
o já pensado por outro por pensar. Cria-se assim um vazio ou uma
falta cujo impossível preenchimento será daí por diante
insistentemente perseguido. Identificamos aí o poderoso "motor"
oculto das grandes realizações humanas, ou seja, o desejo
da cultura [28].
Isto nos faz compreender, afinal, como as culturas, através de um
processo de reiteradas substituições, sublimam-se
na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes,
instituições, conhecimentos, técnicas e múltiplas
artes.
Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade
constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural.
Desde sempre, de modo mais ou menos claro, sente qual deve ser o seu inexorável
destino: acabar superada ou marginalizada pela cultura associada à
lógica imediatamente subsequente a sua. Para conjurar tal tipo de
ameaça congênita, que poderia haver de melhor senão
simular ou fingir que de algum modo já se tornou aquele novo ser
cultural ou, pelo menos, que já soube incorporar os seus ameaçadores
ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura
5)
Toda cultura teria pois uma disposição desejante,
que é seu verdadeiro motor imanente, tanto de suas excelsas realizações,
como de seus piores feitos, mas que ao final é o que a empurra para
a frente, para a consumação do seu destino e de sua própria
superação histórica. Toda cultura, mais intensamente
quanto mais chegada à maturidade, simula ou finge
ser o que ainda virá, que, convenhamos, é o melhor
que poderia mesmo fazer para tentar embaraçar o curso do processo
hiperdialético da História.
Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos
de auto-justificação, (pela violência, até preventivamente
mandando executar os recém nascidos, pelas ideologias, inclusive
aquelas à esquerda e à direita, e tantos mais) e que
a dissimulação aqui aludida é apenas um dentre eles.
No entanto, na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura, é
o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal, pois já
começam a se delinear em seu horizonte, ameaçadores, os contornos
da nova cultura que virá sucedê-la.
O golpe fatal sobre qualquer cultura, todas o pressentem, só poderá
vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente
superior a sua, e que de maneira inexorável irá confrontá-la,
como não poderia mesmo deixar de ser, precisamente em seu fingimento.
E quando isto acontecer, também não se pode ter dúvidas,
será ela acusada justamente de usurpação de
um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado.
A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil
para os seus protagonistas na medida em que as forças reais da subversão
estarão necessariamente ali operando a difícil combinação
de um ideário fundamentalista (por isso podem parecer retrógradas)
com uma corajosa determinação de instrumentalizar o que até
então era tido como valor supremo (por isso podem parecer delirantes).
A probabilidade de subversão de uma cultura cresce naturalmente
na proporção do seu cansaço, do esgotamento de seu
vigor criativo, enfim, do desvanecimento do seu próprio desejo.
Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por
uma nova cultura, o fruto esperado, tanto quanto terá sido negado,
que estava já em gestação nas suas próprias
dobras, margens e desvãos [29].
Tomemos alguns exemplos. O primeiro, seria o das culturas dos
grandes impérios de base agrícola, da Antigüidade
(pré-D), a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais.
A agricultura tomada como base da subsistência, acompanhada de investimentos
na organização da produção, na formação
de estoques e na sua distribuição, como também
na previsão e regularização das águas vão
constituir a razão e suporte do sedentarismo - o vínculo
permanente da população a um determinado espaço geográfico.
Significam, em essência, a definitiva troca da temporalidade itinerante
pela espacialidade fixa, metaforicamente, a liberdade pelo cativeiro.
Tempo perdido, perdidas também as marcas de uma origem que não
pode ser mais recuperada. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem,
por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária.
Como bem observa Mircea Eliade,
A maioria dos
mitos
de origem foi recolhida entre populações primitivas que
praticam quer a vegetocultura, quer a cerealicultura (Tais
mitos são mais raros, e por vezes radicalmente reinterpretados,
nas culturas evoluídas. (negritos nossos)
[30].
Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial, as culturas de base
agrícola terão sua fundação atribuída
a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos.
Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes
que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura:
O mito, nas culturas de base agrícola (pré-D), é a
expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I), que,
em essência, é desejo de reconhecimento na ordem do tempo,
requerendo assim o "diálogo" com antepassados e pósteros.
Para tanto e muito mais, inventa-se a escrita possibilitando trazer pedaços
do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea
presença gravada no futuro.
Neste tipo de cultura, entretanto, o sentido permanece ainda afeito ao
traço, o simbólico refém da espacialidade que, malgrado,
o constituiu; por isso não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade
do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos
conceitos. Ali vige o simbólico, mas sentido apenas como índex
ou como análogo, ainda como um entre os múltiplos atributos
dos entes.
É então pela idolatria sistematizada que esta cultura irá
fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não
têm. A todas as coisas, vivas ou inanimadas, é atribuído
um sentido, uma intencionalidade atuante ainda que oculta, que poderá
ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes,
ora metafóricas, ora metonímicas (análogas aos processos
primários inconscientes de condensação e deslocamento).
Eis aí a essência da magia idolátrica: simulação
de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. (Ver figura 6)
Tudo isto, como assinalamos, para fazer frente à grande ameaça
do conceito, que irá permitir a expressão do lógico
enquanto tal. Como se fora numa pintura de Chagall, percebem já
pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis, verdes
e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais
adular, por nada subornável, absoluto transcendente, dotado da terrível
autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é
(ou será). A superação desta cultura se dará
pelo advento da cultura lógica da identidade, da religião
do Deus único, em definitivo saída da Natureza para o mundo
da Lógica ou da pré-Idéia, inseparável do pré-domínio
do simbólico pleno ou convencional.
Figura 6 - Cultura imperial
de base agrícola (pré-D)
Não é por acaso que aí comparece a primeira religião
do livro, religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes
da magia sacerdotal e suprimir, a fio de espada, à noite, o círculo
de seus adoradores - três mil ou mais outros vinte tantos mil, não
importa -, que estiveram reunidos de dia, à volta do bezerro
de ouro. Este é o sentido profundo da revolução cultural
perpetrada pelo povo judeu, cuja gigantesca e emblemática figura,
sabemos todos, é Moisés.
Um segundo exemplo seria o da cultura grega comprometida com a
lógica do outro ou da diferença (D) que vem em sucessão
e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade
(I). O personagem símbolo aqui é Prometeu, que roubando o
fogo divino, assume a posição do outro dos deuses, posição
que vai lhe custar o mais alto preço. E se vê condenado a
não mais retroceder, porque isto significaria a renúncia
ao seu próprio ser que é doravante ser outro (dos deuses).
Daí, constituírem os gregos a cultura trágica por
excelência.
A relação especular "sincrônica" (entre homens e deuses,
um de costas para outro, diria Hölderlin, que se pode considerar
como o fundamento lógico do trágico), não é
de modo algum mais essencial aos gregos do que a "especularidade diacrônica"
entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar
por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo, daquilo que foi e agora é
falta), em especial, porque é desta última, e não
da outra, que se alimentará o vigor criativo dos gregos.
Para compreendê-lo em toda sua significação, precisamos
ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa
do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser
(Aristóteles). Nesta, grega é mais propriamente o perguntar
do que o ser. Reparando bem, veremos que a pátria do ser como tal,
do um-todo ou do Deus único, por falta do distanciamento, não
produz filósofos e perguntas, mas, ao invés, uma profusão
de profetas e suas duras admoestações aos homens pela sua
infidelidade à Promessa (que não é produto de roubo,
mas, Graça!). A filosofia teria sido assim a busca inconsciente
desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial
D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo.
A arte grega, particularmente a poesia trágica, é ao mesmo
tempo imitação (mimesis) e, além, pretensa
extensão da natureza - do que esta deveria, mas não chegara
a realizar -, o que encobre/revela, de modo incontestável, a dissimulação
que ela realmente é. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo
do ser grego, malabarismo para uma sobrevivência impossível
- fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria
posteridade.
Figura 7 - Cultura prometéica grega (D)
É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial,
grega no caso, simular sua própria auto-superação
como arte. Para deixar isto ainda mais transparente, vale aqui apelar à
sensibilidade do poeta - Hölderlin -:
Leur volonté
fut certes d'instituer
Un empire de l'art mais
là
Le natif par eux
Fut renié et,
lamentablement,
La Grèce, beauté
suprême, sombra [31]
Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte, ou seja, por
excesso de fingimento, à imitação da própria
imitação, com a agravante de terem sido alertados em tempo
por um dos seus maiores - Platão.
A observação de Heidegger de que Platão representa
o fim da filosofia grega é de uma precisão micrométrica,
desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém
da diferença (D), para que fosse ele buscado além, como idéia
ou conceito dialético-trinitário (I/D). Apenas veríamos
em Platão menos um traidor [32]
do que um clarividente, alguém que não faltou aos seus, alertando-os
do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia - que então
exorbitava - e a filosofia, como bem registra A República
[33]. Ali dizia
de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos,
não por serem imitadores, mas por sua pretensão de fazer
passar o belo pelo verdadeiro, a verdade da parte pela da totalidade, o
que, sabemos, viria a ser a prerrogativa própria da idéia
(ou do conceito) [34].
Hölderlin, já lembrado, chega a tomar a tragédia grega
como o correlato de uma intuição intelectual, como
se vê, um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa
universalidade. Enfaticamente ele observa:
Esse tom fundamental
é menos vivo do que o lírico, mais individual. Por isso,
sendo também mais universal e o mais universal...(negritos
nossos) [35]
Perceber tudo isso não é assim tão difícil,
desde que possamos nós também escapar à sedução
exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos
naquela quadra da história grega. Eugen Fink no que respeita a pretensão
do belo ao vero, afirma que:
Au mythe des
poètes prétendant que le beau est vrai, Platon n'oppose pas
simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique.
Il interprète plutôt le beau comme chemin et échelon
vers le vrai, comme préfigure du vrai qui ne s'ouvre qu'à
la seule pensée pure. [36]
Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas
trágicos, Fink nos proporciona um comentário de grande precisão:
C'est là
le sens de la critique platonicienne de la poésie. Cette critique
ne rejette pas absolument la poésie, elle rejette seulement la
prétension d'une poésie qui revendiquerait une vérité
propre, originelle, subsistant en dehors ou même au-dessus de la
philosophie.... Dans un pressentiment obscur, par conséquent
sans savoir réelllement, la poésie imite le vrai savoir.
La poésie est essenciellemente mimétique. Cependent elle
est imitatio, mimésis, de la philosophie seulement aussi longtemps
qu'elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. ...
la
poésie devient alors, imitation d'une imitation.
(negritos nossos) [37]
Muito importante é observar que para Platão, o conflito com
a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental,
mas era algo essencial à própria afirmação
da filosofia (bem entendido, como ele e não Heidegger a concebia:
dialética da idéia ou do conceito):
Il lui fallut
quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre
tragique; on lui arracha son prétendu masque divin; la riguer
du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. Le poète
de l'épopée homérique et de la tragédie attique
fut l'auteur des jeux, des spectacles contre qui la pensée métaphysique{isto
é, dialética da idéia} dirigea une violente attaque.
(negritos e colchete nossos)[38]
A nosso juízo, a cultura dialético-trinitária (I/D)
se anuncia justamente nesta confrontação de Platão
com os trágicos, no conflito da idéia com o excessivo poético
que, dissimulado, vinha usurpar o lugar de uma futura emergência.
O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a
história da edificação da cultura cristã (patrística
ou fundamentalista trinitária), que, como visto, esboça seus
primeiros traços em Platão, passa necessariamente pelo evento
Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega mais do que 600 anos
após à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio
de Nicéia, onde se fixa em definitivo o símbolo
da Trindade.
Como último exemplo vamos tomar o caso da cultura nômade tribal
de caçadores/coletores que dominou o período paleolítico,
e que por ser lógica e historicamente primeira, apresenta algumas
interessantes peculiaridades.
Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica,
vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia
ter a noção de uma "lógica" anterior à "lógica",
isto é, a pré-I? Como poderia se estruturar o desejo numa
cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias,
de onde poderá surgir o movimento de sua superação?
O agrupamento humano identificado como pré-identitário, recordemos,
possui a capacidade lógico-qüinqüitária (I/D/D=
=I/D/²) que caracteriza todo os seres humanos, no entanto, ignorando
simbólica e objetivamente que a tem. Diferencia-se da cultura de
base agrícola (Pré-D) porque esta se põe como outra
da natureza, enquanto que ela mantém-se em posição
de completa identificação com a mesma.
Já pertence, pois, ao mundo da cultura, porém, para sobreviver,
vê-se compelida a assumir o estado de animalidade "pura" de onde
proveio, no caso, viver da caça a outros animais. Georges
Bataille, em Théorie de la religion [39],
nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de
ser no mundo que o alimentar-se de e ser alimento por outros animais acarreta:
o ente vive a absoluta imanência, na sua própria expressão,
como
a água na água. A condição de caçador
o identifica com a caça, que ao fim de contas representa sua própria
animalidade ancestral. Em outras palavras, diríamos que no estágio
da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto
lógico (pré-I), mas, para sobreviver, vê-se obrigado
a voltar-se para um modo de vida meramente animal (anterior a pré-I).
(Ver figura 8)
Figura
8 - Fingimento e superação da cultura tribal
Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição
e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão
de morte, ou seja, compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico
de onde se originou. Apenas deveríamos aqui precisar: não
se trata de uma volta ao inorgânico, mas da renúncia a um
ganho lógico - ganho da animalidade (I/D) para humanidade (I/D/²);
pulsão de morte de um diferencial lógico por força
do imperativo de sobrevivência. Com isso, concluímos que as
culturas tribais, no que tange ao seu modo desejante, em que pese sua peculiar
posição na hierarquia das lógicas, nem assim constituem
uma verdadeira exceção. Embora ainda não se tenha
um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico, o fato
é que já se pode lá assegurar a vigência de
algum tipo de xamanismo. Sabe-se também que este é um universo
religioso dominado pela lógica da identidade de todos os entes,
animais e homens, mortos ou vivos, inclusive também os deuses. Isto
fica evidente em suas práticas cerimoniais, conforme nos informa
ainda, Eliade:
O êxtase
xamânico implica além disso a possibilidade de "possuir",
isto é, de penetrar nos corpos dos humanos, e também de "ser
possuído" pela alma de um morto ou de um animal, ou ainda por um
espírito ou por um deus. [40]
O fingimento nas culturas tribais, isto é, ser de nível lógico
Pré-I e tentar se passar por Pré-D, seria fundamentalmente
uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente!) criada
pelos xamãs para a conservação de seus poderes, postergando
o advento da cultura de base agrícola. Para tanto, precisariam
simular a passagem da caça no tempo para a "caça no espaço",
da caça aleatória para a caça assegurada. Isto posto,
fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas
nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior,
quando já se desenhava para eles o espectro da agricultura. (Ver
figura 9)
Toda esta artimanha representativa, no entanto, irá por água
abaixo, por força de um movimento de subversão cultural,
que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza),
não mais como o que se perdeu, mas como o que se tem para conquistar
pelo trabalho, especificamente, pelo trabalho agrícola. Visa-se
o outro agora como meio, e mesmo em se tratando de um semelhante, não
mais se o devora e sim o escraviza.
O autor da proeza está historicamente perdido, contudo, entronizado
nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante
da de base agrícolas (Pré-D). Reconhecemos aí o heroi prometéico,
bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais:
como já vimos, trata-se do personagem que sobe aos céus e
lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento
da sociedade de base agrícola.
Figura 9 - Caçada de veados Castellón, Espanha

|