CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A HISTÓRIA DA CULTURA
Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da História, Conjuntura e Perspectivas Brasileiras [1]
Luiz Sergio Coelho de Sampaio
Brasíla, 16 de junho de 1999.
ee-001003.00[1](30/07/1999)



3 - DESEJO, FINGIMENTO E SUPERAÇÃO 

Nossa tese central daqui por diante, entretanto, não será mais uma cultura, uma lógica, porém algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura, três lógicas [26]. Esta mudança (de 1 para 3), como se verá, tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas.

Cada cultura tem sua lógica de referência -  que era nossa tese anterior - ficando, agora, associada a mais outras duas: a primeira, correspondente à cultura que a antecedeu - que determina o seu ser "desejante", fonte de seu vigor criativo -; a segunda, correspondente à cultura que a irá suceder - que determina o que ela, numa artimanha defensiva, intentará simular ser, vale dizer, fingir que não mais é o que é, mas, sim, o seu próprio futuro que teria resolvido madrugar.

Tentemos melhor esclarecer. A adjudicação de uma lógica a uma cultura, já foi assinalado, precisou ser feita mantido o postulado da igualdade de todos os homens, o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda, e da qual não discordamos). Em outras palavras, em que pese seu parti pris lógico, toda cultura de algum modo dá testemunho de outras lógicas. São vínculos ora claros e assumidos, ora clandestinos, com cada uma das demais lógicas mundanas, inclusive com aquela que a todas estas subsume. 

Para convencer-nos, bastaria lembrar a profusão de manifestações arquetípicas que se pode recolher nas culturas históricas:  

    lógica da identidade I - o número 1, o ponto, o círculo, o ar e a águia, o azul, a cobra que se devora pela própria cauda; 
    lógica da diferença D -  o número  2, o segmento de reta, a água e a serpente em hélice ou distendida, o branco, os gêmeos, figuras especulares em geral; 
    lógica dialética I/D - o número 3, o fogo e o leão, o vermelho, triângulos, triângulos de círculos ou nó borromeano; 
    lógica formal D/D ou D/² - o número 4, a terra e o touro, o negro, os quadriláteros em geral e as cruzes; 
    lógica hiperdialética I/D/D ou I/D/² - o número 5, o homem e a quinta-essência,  a estrela socialista, os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1, as pirâmides de base quadrada,  mandalas [27] de toda sorte.

Dentro desse quadro geral, seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica, que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? E por quê?

Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas (Ver figura 5): 

      a) de um lado, com a lógica da cultura que lhe antecedeu - lógica que teve que ser superada (ou recalcada), para que ela pudesse advir em seu lugar, mas que de algum modo permanece subsumida, e que por vezes "retorna" ou se  re-volta como num sonho -; 
      b) de outro lado, com a lógica da cultura que lhe sucederá, seu permanente pesadelo - de onde, por suposto, procede a  real ameaça à sua dominação de época. 

Figura 5 - Desejo, fingimento e superação 

Do ponto de vista lógico, toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico/emocional dos indivíduos. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e duradouramente exercida, não se pode simplesmente apagá-la; o que se pode, na verdade, é de algum modo silenciá-la, recalcá-la ou, o que é ainda mais sutil,  forçá-la a abandonar o já pensado por outro por pensar. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. Identificamos aí o poderoso "motor" oculto das grandes realizações humanas, ou seja, o desejo da cultura [28]. Isto nos faz compreender, afinal, como as culturas, através de um processo  de  reiteradas substituições, sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes, instituições, conhecimentos, técnicas e múltiplas artes. 

Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. Desde sempre, de modo mais ou menos claro, sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou marginalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente a sua. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita, que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural ou, pelo menos, que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que  fascinantes poderes? (Ver ainda figura 5

Toda cultura teria pois uma disposição desejante, que é seu verdadeiro motor imanente, tanto de suas excelsas realizações, como de seus piores feitos, mas que ao final é o que a empurra para a frente, para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. Toda cultura, mais intensamente quanto mais chegada à maturidade, simula ou finge ser o que ainda virá, que, convenhamos, é o melhor  que poderia mesmo  fazer para tentar embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. 

Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação, (pela violência, até preventivamente mandando executar os recém nascidos, pelas ideologias, inclusive aquelas à esquerda e à direita,  e tantos mais) e que a dissimulação aqui aludida é apenas um dentre eles. No entanto, na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura, é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal, pois já começam a se delinear em seu horizonte, ameaçadores, os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. 

O golpe fatal sobre qualquer cultura, todas o pressentem, só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior a sua, e que de maneira inexorável irá confrontá-la, como não poderia mesmo deixar de ser, precisamente em seu fingimento. E quando isto acontecer, também não se pode ter dúvidas, será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado.  

A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (por isso podem parecer retrógradas) com uma corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (por isso podem parecer delirantes).

A probabilidade de subversão de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço, do esgotamento de seu vigor criativo, enfim, do desvanecimento do seu próprio desejo. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura, o fruto esperado, tanto quanto terá sido negado, que estava já em gestação nas suas próprias dobras, margens e desvãos [29].

Tomemos  alguns exemplos. O primeiro, seria o das culturas dos grandes impérios de base agrícola, da Antigüidade (pré-D), a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. A agricultura tomada como base da subsistência, acompanhada de investimentos na organização da produção, na formação de  estoques e na sua distribuição, como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo - o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. Significam, em essência, a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa, metaforicamente, a liberdade pelo cativeiro. 

Tempo perdido, perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem, por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. Como bem observa Mircea Eliade,

A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura, quer a cerealicultura (Tais mitos são mais raros, e por vezes radicalmente reinterpretados, nas culturas evoluídas. (negritos nossos) [30].

Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial, as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis  prometéicos. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: 

O mito, nas culturas de base agrícola (pré-D), é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I), que, em essência, é desejo de reconhecimento na ordem do tempo, requerendo assim o "diálogo" com antepassados e pósteros. Para tanto e muito mais, inventa-se a escrita possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro.

Neste tipo de cultura, entretanto, o sentido permanece ainda afeito ao traço, o simbólico refém da espacialidade que, malgrado, o constituiu; por isso não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. Ali vige o simbólico, mas sentido apenas como índex ou como análogo, ainda como um entre os múltiplos atributos dos entes.

É então pela idolatria sistematizada que esta cultura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. A todas as coisas, vivas ou inanimadas, é atribuído um sentido, uma intencionalidade atuante ainda que oculta, que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes, ora metafóricas, ora metonímicas (análogas aos processos primários inconscientes de condensação e deslocamento). Eis aí a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. (Ver figura 6)

Tudo isto, como assinalamos, para fazer frente à grande ameaça do conceito, que irá permitir a expressão do lógico enquanto tal. Como se fora numa pintura de Chagall, percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis, verdes  e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular, por nada subornável, absoluto transcendente, dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade, da religião do Deus único, em definitivo saída da Natureza para o mundo da Lógica ou da pré-Idéia, inseparável do pré-domínio do simbólico pleno ou convencional.

Figura 6 - Cultura imperial de base agrícola (pré-D)

Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro, religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir, a fio de espada, à noite, o círculo de seus adoradores - três mil ou mais outros vinte tantos mil, não importa -,  que estiveram reunidos de dia, à volta do bezerro de ouro. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu, cuja gigantesca e emblemática figura, sabemos todos, é  Moisés.

Um segundo exemplo seria o da cultura grega comprometida com a  lógica do outro ou da diferença (D) que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). O personagem símbolo aqui é Prometeu, que roubando o fogo divino, assume a posição do outro dos deuses, posição que vai lhe custar o mais alto preço. E se vê condenado a não mais retroceder, porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser que é doravante ser outro (dos deuses). Daí, constituírem os gregos a cultura trágica por excelência. 

A relação especular "sincrônica" (entre homens e deuses, um de costas  para outro, diria Hölderlin, que se pode considerar como o fundamento lógico do trágico), não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a "especularidade diacrônica" entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo, daquilo que foi e agora é falta), em especial, porque é desta última, e não da outra,  que se alimentará o vigor criativo dos gregos.

Para compreendê-lo em toda sua significação, precisamos ter na devida conta que a  filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). Nesta, grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. Reparando bem, veremos que a pátria do ser como tal, do um-todo ou do Deus único, por falta do distanciamento, não produz filósofos e perguntas, mas, ao invés, uma profusão de profetas e suas duras admoestações aos homens pela sua infidelidade à Promessa (que não é produto de roubo, mas, Graça!). A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. 

A arte grega, particularmente a poesia trágica, é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e, além, pretensa extensão da natureza - do que esta deveria, mas não chegara a realizar -, o que encobre/revela, de modo incontestável, a dissimulação que ela realmente é. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego, malabarismo para uma sobrevivência impossível - fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. 

Figura 7 - Cultura prometéica grega (D)

É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial, grega no caso, simular sua própria auto-superação como arte. Para deixar isto ainda mais transparente, vale aqui apelar à sensibilidade do poeta - Hölderlin -:

Leur volonté fut certes d'instituer
Un empire de l'art mais là
Le natif par eux
Fut renié et, lamentablement,
La Grèce, beauté suprême, sombra [31]

Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte, ou seja, por excesso de fingimento, à imitação da própria imitação, com a agravante de terem sido alertados em tempo por um dos seus maiores - Platão.

A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão micrométrica, desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém  da diferença (D), para que fosse ele buscado além, como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). Apenas veríamos em Platão menos um traidor [32] do que um clarividente, alguém que não faltou aos seus, alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia - que então exorbitava - e a filosofia, como bem registra A República [33]. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos, não por serem imitadores, mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro, a verdade da parte pela da totalidade, o que, sabemos, viria a ser a prerrogativa própria da idéia (ou do conceito) [34]. Hölderlin, já lembrado, chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual, como se vê, um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. Enfaticamente ele observa:

Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico, mais individual. Por isso, sendo também mais universal e o mais universal...(negritos nossos) [35]

Perceber tudo isso não é assim tão difícil, desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. Eugen Fink no que respeita a pretensão do belo ao vero, afirma que:

Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai, Platon n'oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. Il interprète plutôt le beau comme chemin et échelon vers le vrai, comme préfigure du vrai qui ne s'ouvre qu'à la seule pensée pure. [36

Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos, Fink nos proporciona um comentário de grande precisão:  

C'est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie, elle rejette seulement la prétension d'une poésie qui revendiquerait une vérité propre, originelle, subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie.... Dans un pressentiment obscur, par conséquent sans savoir réelllement, la poésie imite le vrai savoir. La poésie est essenciellemente mimétique. Cependent elle est imitatio, mimésis, de la philosophie seulement aussi longtemps qu'elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. ... la poésie devient alors, imitation d'une imitation. (negritos nossos) [37]

Muito importante é observar que para Platão, o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental, mas era algo essencial à própria afirmação da filosofia (bem entendido, como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito):

Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique; on lui arracha son prétendu masque divin; la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. Le poète de l'épopée homérique et de la tragédie attique fut l'auteur des jeux, des spectacles contre qui la pensée métaphysique{isto é, dialética da idéia} dirigea une violente attaque. (negritos e colchete nossos)[38]

A nosso juízo, a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos, no conflito da idéia com o excessivo poético que, dissimulado, vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária), que, como visto, esboça seus primeiros traços em Platão, passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega mais do que 600 anos após à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia, onde se  fixa  em definitivo o símbolo da Trindade. 

Como último exemplo vamos tomar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores que dominou o período paleolítico, e que por ser lógica e historicamente primeira, apresenta algumas interessantes peculiaridades. 

Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica, vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma "lógica" anterior à "lógica", isto é, a pré-I? Como poderia se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias, de onde poderá surgir o movimento de sua superação?  

O agrupamento humano identificado como pré-identitário, recordemos, possui a capacidade lógico-qüinqüitária (I/D/D= =I/D/²) que caracteriza todo os seres humanos, no entanto, ignorando simbólica e objetivamente que a tem. Diferencia-se da cultura de base agrícola (Pré-D) porque esta se põe como outra da natureza, enquanto que ela mantém-se em posição de completa  identificação com a mesma.

Já pertence, pois, ao mundo da cultura, porém, para sobreviver, vê-se compelida a assumir o estado de animalidade "pura" de onde proveio, no caso, viver da caça a outros animais.  Georges Bataille, em Théorie de la religion [39], nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o alimentar-se de e ser alimento por outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência, na sua própria expressão, como a água na água.  A condição de caçador o identifica com a caça, que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. Em outras palavras, diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (pré-I), mas, para sobreviver, vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (anterior a pré-I). (Ver figura 8)

Figura 8 - Fingimento e superação da cultura tribal

Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela  pulsão de morte, ou seja, compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. Apenas deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico, mas da renúncia a um ganho lógico - ganho da animalidade (I/D) para humanidade (I/D/²); pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. Com isso, concluímos que as culturas tribais, no que tange ao seu modo desejante, em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas, nem assim constituem uma verdadeira exceção. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico, o fato é que já se pode lá assegurar a vigência de algum tipo de xamanismo. Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pela lógica da identidade de todos os entes, animais e homens, mortos ou vivos, inclusive também os deuses. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais, conforme nos informa ainda, Eliade: 

O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de "possuir", isto é, de penetrar nos corpos dos humanos, e também de "ser possuído" pela alma de um morto ou de um animal, ou ainda por um espírito ou por um deus. [40]

O fingimento nas culturas tribais, isto é, ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D, seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente!) criada pelos xamãs para a conservação de seus poderes, postergando o advento da cultura de base agrícola. Para tanto, precisariam  simular a passagem da caça no tempo para a "caça no espaço", da caça aleatória para a caça assegurada. Isto posto, fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior, quando já se desenhava para eles o espectro da agricultura. (Ver figura 9) 

Toda esta artimanha representativa, no entanto,  irá por água abaixo, por força de um movimento de subversão cultural, que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza), não mais como o que se perdeu, mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho, especificamente, pelo trabalho agrícola. Visa-se o outro agora como meio, e mesmo em se tratando de um semelhante, não mais se o devora e sim o escraviza. 

O autor da proeza está historicamente perdido, contudo, entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da de base agrícolas (Pré-D). Reconhecemos aí o heroi prometéico, bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos, trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da  sociedade de base agrícola.  

Figura 9 - Caçada de veados Castellón, Espanha 



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