CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A HISTÓRIA DA CULTURA
Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da História, Conjuntura e Perspectivas Brasileiras [1]
Luiz Sergio Coelho de Sampaio
Brasíla, 16 de junho de 1999.
ee-001003.00[1](30/07/1999)



5 - O BRASIL e a Modernidade

Desde Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, a problemática brasileira é posta em termos do dilema ser ou modernizar [47]. Entretanto, como uma nação que nasce com a Modernidade, fundada por Portugal, uma nação que chegou a liderar o processo europeu de modernização, pode ter o problema de se haver com a Modernidade?  

Não pode ser isto. Ainda que inconscientemente, o que se está sempre na verdade evitando ou ocultando é a questão de quem deva ser o sujeito da modernização (racionalização) que, entrementes, ali está posto de maneira  implícita. A Modernidade, para nós, tem que ser olhada não como a questão da opção por um paradigma, mas como a questão da sua ocultação ou dissimulação. Em suma, todo esse alarido sobre a modernização brasileira, como de resto todo o discurso (ideológico) sobre a Modernidade é, no fundo, um discurso acerca de qual opção de sujeito da ciência se intenciona deveras dissimular

A partir daí fica fácil perceber a essência do problema da incompatibilidade entre a formação social do Brasil, ou melhor, entre a formação cultural brasileira e a Modernidade. Este é verdadeiramente o nosso grande conflito interno. Mas acho que temos que aprofundar e entender melhor como se dá essa incompatibilidade e por quê persiste este dilema. Vamos tentar esclarecê-lo com a ajuda da figura 11. 

Figura11 - Problemática cultural brasileira

Sabemos todos que Descartes é quem inaugura (reflexivamente) a Modernidade. Por quê? Porque afirmou que o mundo objetivo era geometria, era ser-calculável, obedecendo à lógica do terceiro excluído, tendo como seu sujeito, o cogito, completamente transparente a si mesmo, sujeito de projeto, sujeito liberal; ou, se quisermos, o famigerado herói "fordiano" [48]. Todos os filmes americanos são a mesma coisa - uma caricatura, obviamente -: existe um sistema comunitário funcionando, aí ocorre o contingente, que pode ser a chegada da estrada de ferro, de um bando de assaltantes, de índios, de ETs de outra galáxia, de uma catástrofe natural ou artificial, de qualquer coisa que o faz degringolar. Então surge um sujeito isolado - as vezes até um punhado de indivíduos isolados, mas nunca a comunidade - e, depois de derrotar a adversidade, põe de novo o sistema em funcionamento. Quem viu, por exemplo, Dançando com Lobos poderia facilmente perceber isso: o sujeito se rebela contra a junta médica - não é um médico que vai cortar a perna do herói, é a junta médica que pretende fazê-lo -; contra o regimento, que tinha uma tática e ele executa outra por conta própria; contra o exército americano ao final; é uma história de seguidas insubordinações. E ganhou vários Oscars! E muita gente pensa ingenuamente que eles perdem tempo em Hollywood fazendo filmes só para nos enganar. Não! Eles fazem filme para reiterar o que são, para educar; depois também vendem para cá sem correrem o menor perigo de que os imitemos, porque nós não conseguimos ver o filme, ou seja, nós vemos outro filme, não uma lição de vida (cultural americana), mas como simples entretenimento. 

Desvelar e instalar o sujeito da ciência, o sujeito liberal, demorou  cerca de 500 anos. Tudo começa no ano 1000, ou 1100, ou 1250, com a própria Igreja tentando demonstrar para todo mundo que a ciência seria desnecessária. Para tanto, procedia à aristotelização de sua teologia, passando do radical  trinitarismo de Santo Agostinho (dialético I/D) para o tomismo (lógico-clássico D/²). Porém, a lógica do sistema é a lógica da morte, a lógica funerária; a única coisa que se enquadra bem nesta lógica - um retângulo com uma porção de retângulos dentro - é o cemitério. Logo, não se podia mesmo ter uma cultura viva que fosse estritamente científica.

O sistema não pode por si produzir outro sistema. Quando se faz um sistema de folha de pagamento, uma álgebra axiomatizada, um organograma, não dá para ele próprio gerar outra coisa, ainda que similar. É necessário para tanto um sujeito fordiano, sujeito intervalar entre dois sistemas. O que se pode sacralizar, portanto, não é o sistema vigente [49], mas a cultura da sistematicidade, o cientificismo.

A consolidação da Modernidade, não pela adoção do cientificismo, mas pela descoberta do sujeito que lhe seria  próprio, foi obra dos protestantes [50]. Embora Portugal e Espanha tivessem dado partida à Modernidade, à racionalização / burocratização do mundo, não se mantiveram na vanguarda porque não constituíram / consolidaram o sujeito que lhe seria apropriado, o sujeito liberal, sujeito de projeto. Ou melhor, o tinham por lá até bastante, mas o expulsaram! [51

O problema é pois quem deva ser o sujeito do sistema, ou seja, a ciência vai ser feita para quem, por quem e em proveito de quem? No paradigma anglo-saxão, todos os cientistas estão a serviço da reprodução dos sistemas; há também uma liberdade de fato, precisamente, aquela de um sujeito fordiano, para permitir que os  sistemas se reproduzam. 

Existiriam alternativas? O mais interessante é que esta questão se pôs logo no início da Modernidade. A cúpula da Igreja não queria discutir sujeito nenhum, porém, depois que o protestantismo colocou a sua solução, havia a necessidade de dar-lhe uma resposta. Então, a Igreja deixou emergir o jesuitismo latente, que formula uma contra-proposta (contra-reforma): no lugar do sujeito calvinista (I) colocar-se-ia um sujeito coletivo (I/D), obviamente representado por um sujeito simbólico absoluto (delegado do Absoluto). Assistindo-se a uma reunião em Brasília sobre, por exemplo, desenvolvimento tecnológico, veremos a turma que segue o paradigma americano propor que as verbas sejam dadas aos indivíduo que apresentem o melhor projeto; imediatamente, a turma à "esquerda" contra-ataca, propondo que as verbas sejam destinadas à criação de tecnologias que venham contribuir para resolver os graves problemas "sociais" [52]. É sempre a mesma coisa! Nós temos uma enorme dificuldade em aceitar aquele sujeito individualista, o sujeito liberal ou fordiano.

Resumindo, a proposta jesuítica é a de um sujeito coletivo que, exatamente por tal, precisa ser representado por um sujeito emblemáticoabsoluto: é a proposta  ciência e absolutismo. É incrível a carga que o Marquês de Pombal e os espanhóis fazem sobre a Ordem dos Jesuítas; pressionam um Papa, que acaba louco; pressionam o seguinte, que sobe no muro e passa três anos procrastinando a decisão; e os ibéricos mais ainda o apertam até que a Ordem é "dissolvida". Catarina da Rússia então os recebe na Polônia e chega a ameaçar o Papa: se insistisse em dissolver a Ordem em seus domínios, ela ordenaria "ortodoxar a Polônia". A Polônia ficou católico-romana exatamente porque o Papa recuou, isto é, ele fez de conta que acabou com a Ordem, entrementes, uma boa leva de seus integrantes continuou se refugiando na Rússia que, no caso, era uma parte da Polônia ocupada. Com que finalidade? Para ajudar numa reforma educacional, uma reforma "modernizadora" no sentido dos Tzares: ciência sim, mas com um sujeito coletivo representado pelo monarca absoluto. Em que escola Lenin poderia ter aprendido o que fazer?! A exata fórmula jesuítica!

É o maior absurdo dizer que a Igreja era contra a ciência, se os jesuítas, desde o fundador, Santo Inácio, foram se formar na Sorbonne; todo jesuíta é formado em alguma coisa de cunho acadêmico, inclusive científico. Quem leu o livro do Pietro Redondi, Galileu Herético [53] verifica claramente que o problema de Galileu não é com a Igreja e, sim, com os jesuítas, e nada tem a ver com a ciência propriamente dita. Ele foi acusado formalmente do não cumprimento de sua palavra e, no fundo - não é o que diz Redondi, mas do texto facilmente se o depreende - de querer aparecer, fazer sucesso, se tornar um mal exemplo, ser aquele que fazia ciência para ele próprio "faturar". E, para os jesuítas, até hoje, a ciência deveria ser feita coletivamente e em benefício da coletividade.

Ficou desde então este tipo de "alternativa". O que se está chamando hoje capitalismo confucionista ou capitalismo oriental é também disso uma variante; é ciência (D/²) com sujeito coletivo (I/D) representado pelo Imperador, no caso do Japão, pelo Secretário Geral do Partido Comunista Chinês, no Continente e pelo patriarca da "família alargada" na diáspora chinesa por todo o mundo. 

O que há aí de importante que precisa ser visto? A maioria das "pessoas de esquerda" no Brasil, acha isso bom e nós também, só que optar pelo sujeito coletivo e ao mesmo tempo fazê-lo determinante, e não tributário ou intervalar, é uma solução impossível. Tudo, por uma simples razão: a lógica clássica (D/²) pressupõe e subsume a dialética (I/D); a primeira é lógica de um pensar mais poderoso do que a última, pois, como mostramos no item 1, ela é produto já de um ciclo contra-dialético. Então, não se pode inverter a seta  que no capitalismo anglo-saxão ou paradigmático vai do sistema para o sujeito, que faz do último sujeito tributário do primeiro (Ver de novo figura 11). O capitalismo anglo-saxão não tem esse problema, pois o indivíduo do projeto (I) está a serviço do sistema; já estando pervertido, não vai perverter jamais [54]. Mas quando é proposta a solução à esquerda (D/² com I/D), sub-repticiamente também se propõe inverter a seta; pretende-se que a comunidade ou o ser-comunitário (I/D) vá se servir da ciência (D/²) em seu próprio benefício. Isto é a grande ilusão de todas as esquerdas. A seta que iria do sujeito coletivo para a ciência vai se inverter e se irá ter uma burocracia usando de uma ideologia para dominar a massa. Em última instância, é a lógica do sistema (D/²) que prevalece e o exemplo evidente é a URSS. Começou-se lá com a intenção de colocar a ciência a serviço do coletivo (NEP), mas sabe-se hoje no que isto, de fato, resultou. Basta lembrar a expressão socialismo científico: socialismo é o sujeito como ser coletivo (I/D) e científico é o mundo objetivo (D/²), a lógica clássica posta a serviço da dialética. Precisa-se explicar mais?! O Japão vai pelo mesmo caminho; ele só está resistindo um pouco mais à perversão em razão de sua grande homogeneidade cultural; eles aprenderam a bem usar a ciência e a técnica, mas estão agora acabando com o respeito aos velhos, o empresário samurai, a estabilidade do emprego etc. o que levará a sua própria dissolução cultural. Pelo mesmo raciocínio, quem está apostando na China como a grande nação capitalista do século XXI, irá se decepcionar.

Todos que se manifestam a favor do capitalismo dizem que, em essência,  ele se baseia na racionalização do mundo (D/²) ou então no sujeito schumpeteriano (I) - o que, de certa forma, é repetir Descartes. A Modernidade na verdade se baseia em ambos: ele é a afirmação das lógicas da diagonal masculina (I e D/²). As outras duas lógicas, (I/D e D), constituem o avesso da Modernidade, sendo, portanto, os possíveis lugares de sua crítica, isto, porque são elas justamente as lógicas que a Modernidade está recalcando/desnaturando. O que faz ela da dialética (I/D), ou seja, da História? A faz história calculada. Entremos numa empresa qualquer: a primeira coisa que se irá constatar é a obsessiva pré-ocupação com o cálculo da taxa de retorno do capital. Maior evidência não existe! Não é isso que toda empresa faz? Sozinha, entretanto, a posição dialética (I/D) não é o lugar de uma solução; é apenas o lugar para uma crítica. Assim, Marx é importante para criticar o capitalismo (melhor diríamos, a Modernidade), mas não para propor um sistema alternativo, baseado num sujeito coletivo (I/D). Com o esfacelamento da URSS, isto está hoje mais do que comprovado.  

Existe, entretanto, uma outra alternativa que é a do sujeito romântico, sujeito inconsciente, sujeito telúrico, sujeito poético,  povo, ou, bem perto de nós,  sujeito libidinal.  (Retornar à figura 11)

A Alemanha tem uma elite - bem diferente da nossa, é óbvio - que sabe bem o que é cultura e sua importância. Foi precisamente por isso que ela respondeu por antecipação ao consumismo [55]. O fascismo é uma alternativa, melhor dito, uma pseudo alternativa para a Modernidade, com o sujeito romântico (D) no lugar do sujeito liberal (I). Foi precisamente por isto que o fascismo apareceu tardiamente (como força social) em relação ao socialismo, vale dizer, justo quando o capitalismo começava a deixar de ser produtivista para tornar-se essencialmente consumista. Lá começou-se a sentir, antes do que em qualquer outro lugar, o capitalismo e o seu novo motor, o marketing, como  um agressor da cultura. Para Heidegger, o inimigo da Alemanha (dizia Europa) não era apenas a URSS (sujeito I/D), mas igualmente os EUA (sujeito I), velhos rivais do logos heraclítico (D) [56]. Vê-se agora uma simetria temporal perfeita: o marxismo é uma resposta retardada ao cálculo da História, ou seja, à acumulação pré-calculada do capital; e o fascismo é uma resposta antecipada ao consumismo, ou capitalismo de marketing. Por isso, o comunismo não tem mais futuro, mas o mesmo não se pode ainda  seguramente afirmar do fascismo!

Entrementes, porque também inverte a direção da determinação ciência/sujeito, vigente no paradigma anglo-saxão, perverte, e como já se viu, bem depressa.

Nós temos uma formação ibérica forte, mas no aspecto educacional sempre houve a preponderância do íbero-jesuítico. A tendência da "elite" brasileira - a generalização aqui é sem dúvida um exagero - é comunitário/absolutista (I/D). O indivíduo aqui tem mesmo vergonha de ter lucro. Ele pode ficar rico, mas sempre com a consciência culpada, porque tem lá sua cabeça jesuítica. Se fraqueja com a idade, entretanto, não faz uma grande doação benemerente a uma universidade ou instituição filantrópica, como nos EUA, mas simplesmente muda (se fantasia, melhor se diria, na circunstância) para sujeito ostensivamente libidinal (D)! E o povão [57], principalmente onde pesa mais a cultura africana, puxa para o lado do sujeito libidinal (uma forma arcaica de D: pré-D). Ou seja, trabalhar racional e disciplinadamente, sim, mas para então poder gozar mais. Trabalhar duro a semana inteira, para na sexta à noite poder tomar sossegadamente sua cerveja com os amigos ou mesmo fazê-lo o ano inteiro, para poder desfilar condignamente no Carnaval. 

Por que não se consegue modernizar o Brasil? Porque a elite puxa para o sujeito coletivo/absolutista (I/D) e o povão puxa para o sujeito libidinal (D, mais precisamente, pré-D), e ninguém quer saber do projeto (I). Daí, a dificuldade de modernizar o Brasil. Não há quem não o queira, mas ninguém quer se botar no devido lugar (I). O único jeito de o fazer é acabar com a elite, dizem de um lado. De outro lado, se diz que com esse povinho não dá. Não se aproveita nada - é o que o Roberto Campos nos ensina. Há um seu artigo, incrível, no qual afirma que o índio é preguiçoso, o negro só quer saber de magia e o português é patrimonialista; com isso, vale dizer, com toda nossa herança histórico-cultural, não dá para fazer nada, no juízo (ou ausência de juízo) dele. O atual Governo está mais ou menos seguindo esta dupla receita: põe a classe média para vender cachorro quente e assim pela concorrência matar de fome a baiana do acarajé, e, vende a economia brasileira em bloco para empresários monopolistas estrangeiros.

Entrementes, o Brasil está sendo construído, embora nós não queiramos ver (por isso se diz que o Brasil cresce à noite, sem ninguém ver ou atrapalhar). 

Boa parte de nossa "elite" política, empresarial e até intelectual está traindo a causa brasileira, investindo no fim da História, no pensamento único, para quê? Para ocultar nossa grande alternativa que está na síntese por vir. Há, pelo menos, ainda, um nível de desenvolvimento cultural que seria o de uma cultura qüinqüitária, na qual exatamente deveríamos apostar. Ademais, para nós não há saída à esquerda e não há saída à direita; e também não adianta insistir em entrar para a Modernidade. Só há uma coisa para a qual nós temos vocação: é a síntese lógico-qüinqüitária, porque temos, mais do que quaisquer outros, todos os componentes de base para tanto. 

Em suma, o Brasil não é um bom candidato ao luxo, ele o é deveras à originalidade. Eu não digo que o Brasil está pronto, como acreditava Darcy Ribeiro; ele está quase. Construir uma cultura é tarefa para 500 anos ou mais, e nós já estamos bem próximos de alcançá-los! Apesar da cegueira das nossas "elites" políticas, militares, empresariais, eclesiásticas e intelectuais, nós haveremos de chegar lá.



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