5 - O BRASIL e a Modernidade
Desde Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda,
a problemática brasileira é posta em termos do dilema ser
ou modernizar [47].
Entretanto, como uma nação que nasce com a Modernidade, fundada
por Portugal, uma nação que chegou a liderar o processo europeu
de modernização, pode ter o problema de se haver com a Modernidade?
Não pode ser isto. Ainda que inconscientemente, o que se está
sempre na verdade evitando ou ocultando é a questão de quem
deva ser o sujeito da modernização (racionalização)
que, entrementes, ali está posto de maneira implícita.
A Modernidade, para nós, tem que ser olhada não como a questão
da opção por um paradigma, mas como a questão da sua
ocultação ou dissimulação. Em suma, todo esse
alarido sobre a modernização brasileira, como de resto todo
o discurso (ideológico) sobre a Modernidade é, no fundo,
um discurso acerca de qual opção de sujeito da ciência
se intenciona deveras dissimular.
A partir daí fica fácil perceber a essência do problema
da incompatibilidade entre a formação social do Brasil, ou
melhor, entre a formação cultural brasileira e a Modernidade.
Este é verdadeiramente o nosso grande conflito interno. Mas acho
que temos que aprofundar e entender melhor como se dá essa incompatibilidade
e por quê persiste este dilema. Vamos tentar esclarecê-lo com
a ajuda da figura 11.
Figura11 - Problemática cultural brasileira
Sabemos todos que Descartes é quem inaugura (reflexivamente) a Modernidade.
Por quê? Porque afirmou que o mundo objetivo era geometria, era ser-calculável,
obedecendo à lógica do terceiro excluído, tendo como
seu sujeito, o cogito, completamente transparente a si mesmo, sujeito
de projeto, sujeito liberal; ou, se quisermos, o famigerado herói
"fordiano"
[48]. Todos
os filmes americanos são a mesma coisa - uma caricatura, obviamente
-: existe um sistema comunitário funcionando, aí ocorre o
contingente, que pode ser a chegada da estrada de ferro, de um bando de
assaltantes, de índios, de ETs de outra galáxia, de uma catástrofe
natural ou artificial, de qualquer coisa que o faz degringolar. Então
surge um sujeito isolado - as vezes até um punhado de indivíduos
isolados, mas nunca a comunidade - e, depois de derrotar a adversidade,
põe de novo o sistema em funcionamento. Quem viu, por exemplo, Dançando
com Lobos poderia facilmente perceber isso: o sujeito se rebela contra
a junta médica - não é um médico que
vai cortar a perna do herói, é a junta médica que
pretende fazê-lo -; contra o regimento, que tinha uma tática
e ele executa outra por conta própria; contra o exército
americano ao final; é uma história de seguidas insubordinações.
E ganhou vários Oscars! E muita gente pensa ingenuamente
que eles perdem tempo em Hollywood fazendo filmes só para
nos enganar. Não! Eles fazem filme para reiterar o que são,
para educar; depois também vendem para cá sem correrem o
menor perigo de que os imitemos, porque nós não conseguimos
ver o filme, ou seja, nós vemos outro filme, não uma lição
de vida (cultural americana), mas como simples entretenimento.
Desvelar e instalar o sujeito da ciência, o sujeito liberal, demorou
cerca de 500 anos. Tudo começa no ano 1000, ou 1100, ou 1250, com
a própria Igreja tentando demonstrar para todo mundo que a ciência
seria desnecessária. Para tanto, procedia à aristotelização
de sua teologia, passando do radical trinitarismo de Santo Agostinho
(dialético I/D) para o tomismo (lógico-clássico D/²).
Porém, a lógica do sistema é a lógica da morte,
a lógica funerária; a única coisa que se enquadra
bem nesta lógica - um retângulo com uma porção
de retângulos dentro - é o cemitério. Logo, não
se podia mesmo ter uma cultura viva que fosse estritamente científica.
O sistema não pode por si produzir outro sistema. Quando se faz
um sistema de folha de pagamento, uma álgebra axiomatizada, um organograma,
não dá para ele próprio gerar outra coisa, ainda que
similar. É necessário para tanto um sujeito fordiano,
sujeito intervalar entre dois sistemas. O que se pode sacralizar, portanto,
não é o sistema vigente [49],
mas a cultura da sistematicidade, o cientificismo.
A consolidação da Modernidade, não pela adoção
do cientificismo, mas pela descoberta do sujeito que lhe seria próprio,
foi obra dos protestantes [50].
Embora Portugal e Espanha tivessem dado partida à Modernidade, à
racionalização / burocratização do mundo, não
se mantiveram na vanguarda porque não constituíram / consolidaram
o sujeito que lhe seria apropriado, o sujeito liberal, sujeito de projeto.
Ou melhor, o tinham por lá até bastante, mas o expulsaram!
[51]
O problema é pois quem deva ser o sujeito do sistema, ou seja, a
ciência vai ser feita para quem, por quem e em proveito de quem?
No paradigma anglo-saxão, todos os cientistas estão a serviço
da reprodução dos sistemas; há também uma liberdade
de fato, precisamente, aquela de um sujeito fordiano, para permitir
que os sistemas se reproduzam.
Existiriam alternativas? O mais interessante é que esta questão
se pôs logo no início da Modernidade. A cúpula da Igreja
não queria discutir sujeito nenhum, porém, depois que o protestantismo
colocou a sua solução, havia a necessidade de dar-lhe uma
resposta. Então, a Igreja deixou emergir o jesuitismo latente, que
formula uma contra-proposta (contra-reforma): no lugar do sujeito calvinista
(I) colocar-se-ia um sujeito coletivo (I/D), obviamente representado por
um sujeito simbólico absoluto (delegado do Absoluto). Assistindo-se
a uma reunião em Brasília sobre, por exemplo, desenvolvimento
tecnológico, veremos a turma que segue o paradigma americano propor
que as verbas sejam dadas aos indivíduo que apresentem o melhor
projeto; imediatamente, a turma à "esquerda" contra-ataca, propondo
que as verbas sejam destinadas à criação de tecnologias
que venham contribuir para resolver os graves problemas "sociais" [52].
É sempre a mesma coisa! Nós temos uma enorme dificuldade
em aceitar aquele sujeito individualista, o sujeito liberal ou fordiano.
Resumindo, a proposta jesuítica é a de um sujeito coletivo
que, exatamente por tal, precisa ser representado por um sujeito emblemáticoabsoluto:
é a proposta ciência e absolutismo. É
incrível a carga que o Marquês de Pombal e os espanhóis
fazem sobre a Ordem dos Jesuítas; pressionam um Papa, que acaba
louco; pressionam o seguinte, que sobe no muro e passa três anos
procrastinando a decisão; e os ibéricos mais ainda o apertam
até que a Ordem é "dissolvida". Catarina da Rússia
então os recebe na Polônia e chega a ameaçar o Papa:
se insistisse em dissolver a Ordem em seus domínios, ela ordenaria
"ortodoxar a Polônia". A Polônia ficou católico-romana
exatamente porque o Papa recuou, isto é, ele fez de conta que acabou
com a Ordem, entrementes, uma boa leva de seus integrantes continuou se
refugiando na Rússia que, no caso, era uma parte da Polônia
ocupada. Com que finalidade? Para ajudar numa reforma educacional, uma
reforma "modernizadora" no sentido dos Tzares: ciência sim, mas com
um sujeito coletivo representado pelo monarca absoluto. Em que escola Lenin
poderia ter aprendido o que fazer?! A exata fórmula jesuítica!
É o maior absurdo dizer que a Igreja era contra a ciência,
se os jesuítas, desde o fundador, Santo Inácio, foram se
formar na Sorbonne; todo jesuíta é formado em alguma coisa
de cunho acadêmico, inclusive científico. Quem leu o livro
do Pietro Redondi, Galileu Herético [53]
verifica claramente que o problema de Galileu não é com a
Igreja e, sim, com os jesuítas, e nada tem a ver com a ciência
propriamente dita. Ele foi acusado formalmente do não cumprimento
de sua palavra e, no fundo - não é o que diz Redondi, mas
do texto facilmente se o depreende - de querer aparecer, fazer sucesso,
se tornar um mal exemplo, ser aquele que fazia ciência para ele próprio
"faturar". E, para os jesuítas, até hoje, a ciência
deveria ser feita coletivamente e em benefício da coletividade.
Ficou desde então este tipo de "alternativa". O que se está
chamando hoje capitalismo confucionista ou capitalismo oriental é
também disso uma variante; é ciência (D/²) com
sujeito coletivo (I/D) representado pelo Imperador, no caso do Japão,
pelo Secretário Geral do Partido Comunista Chinês, no Continente
e pelo patriarca da "família alargada" na diáspora chinesa
por todo o mundo.
O que há aí de importante que precisa ser visto? A maioria
das "pessoas de esquerda" no Brasil, acha isso bom e nós também,
só que optar pelo sujeito coletivo e ao mesmo tempo fazê-lo
determinante, e não tributário ou intervalar, é uma
solução impossível. Tudo, por uma simples razão:
a lógica clássica (D/²) pressupõe e subsume a
dialética (I/D); a primeira é lógica de um pensar
mais poderoso do que a última, pois, como mostramos no item 1, ela
é produto já de um ciclo contra-dialético. Então,
não se pode inverter a seta que no capitalismo anglo-saxão
ou paradigmático vai do sistema para o sujeito, que faz do último
sujeito tributário do primeiro (Ver de novo figura
11). O capitalismo anglo-saxão não tem esse problema,
pois o indivíduo do projeto (I) está a serviço do
sistema; já estando pervertido, não vai perverter jamais
[54]. Mas quando
é proposta a solução à esquerda (D/² com
I/D), sub-repticiamente também se propõe inverter a seta;
pretende-se que a comunidade ou o ser-comunitário (I/D) vá
se servir da ciência (D/²) em seu próprio benefício.
Isto é a grande ilusão de todas as esquerdas. A seta que
iria do sujeito coletivo para a ciência vai se inverter e se irá
ter uma burocracia usando de uma ideologia para dominar a massa. Em última
instância, é a lógica do sistema (D/²) que prevalece
e o exemplo evidente é a URSS. Começou-se lá com a
intenção de colocar a ciência a serviço do coletivo
(NEP), mas sabe-se hoje no que isto, de fato, resultou. Basta lembrar a
expressão socialismo científico: socialismo é
o sujeito como ser coletivo (I/D) e científico é o mundo
objetivo (D/²), a lógica clássica posta a serviço
da dialética. Precisa-se explicar mais?! O Japão vai pelo
mesmo caminho; ele só está resistindo um pouco mais à
perversão em razão de sua grande homogeneidade cultural;
eles aprenderam a bem usar a ciência e a técnica, mas estão
agora acabando com o respeito aos velhos, o empresário samurai,
a estabilidade do emprego etc. o que levará a sua própria
dissolução cultural. Pelo mesmo raciocínio, quem está
apostando na China como a grande nação capitalista do século
XXI, irá se decepcionar.
Todos que se manifestam a favor do capitalismo dizem que, em essência,
ele se baseia na racionalização do mundo (D/²) ou então
no sujeito schumpeteriano (I) - o que, de certa forma, é
repetir Descartes. A Modernidade na verdade se baseia em ambos: ele é
a afirmação das lógicas da diagonal masculina (I e
D/²). As outras duas lógicas, (I/D e D), constituem o avesso
da Modernidade, sendo, portanto, os possíveis lugares de sua crítica,
isto, porque são elas justamente as lógicas que a Modernidade
está recalcando/desnaturando. O que faz ela da dialética
(I/D), ou seja, da História? A faz história calculada. Entremos
numa empresa qualquer: a primeira coisa que se irá constatar é
a obsessiva pré-ocupação com o cálculo da taxa
de retorno do capital. Maior evidência não existe! Não
é isso que toda empresa faz? Sozinha, entretanto, a posição
dialética (I/D) não é o lugar de uma solução;
é apenas o lugar para uma crítica. Assim, Marx é importante
para criticar o capitalismo (melhor diríamos, a Modernidade), mas
não para propor um sistema alternativo, baseado num sujeito coletivo
(I/D). Com o esfacelamento da URSS, isto está hoje mais do que comprovado.
Existe, entretanto, uma outra alternativa que é a do sujeito romântico,
sujeito inconsciente, sujeito telúrico, sujeito poético,
povo, ou, bem perto de nós, sujeito libidinal. (Retornar
à figura 11)
A Alemanha tem uma elite - bem diferente da nossa, é óbvio
- que sabe bem o que é cultura e sua importância. Foi precisamente
por isso que ela respondeu por antecipação ao consumismo
[55]. O fascismo
é uma alternativa, melhor dito, uma pseudo alternativa para a Modernidade,
com o sujeito romântico (D) no lugar do sujeito liberal
(I). Foi precisamente por isto que o fascismo apareceu tardiamente (como
força social) em relação ao socialismo, vale dizer,
justo quando o capitalismo começava a deixar de ser produtivista
para tornar-se essencialmente consumista. Lá começou-se
a sentir, antes do que em qualquer outro lugar, o capitalismo e o seu novo
motor, o marketing, como um agressor da cultura. Para Heidegger,
o inimigo da Alemanha (dizia Europa) não era apenas a URSS (sujeito
I/D), mas igualmente os EUA (sujeito I), velhos rivais do logos
heraclítico (D) [56].
Vê-se agora uma simetria temporal perfeita: o marxismo é
uma resposta retardada ao cálculo da História,
ou seja, à acumulação pré-calculada do capital;
e o fascismo é uma resposta antecipada ao consumismo,
ou capitalismo de marketing. Por isso, o comunismo não
tem mais futuro, mas o mesmo não se pode ainda seguramente
afirmar do fascismo!
Entrementes, porque também inverte a direção da determinação
ciência/sujeito, vigente no paradigma anglo-saxão, perverte,
e como já se viu, bem depressa.
Nós temos uma formação ibérica forte, mas no
aspecto educacional sempre houve a preponderância do íbero-jesuítico.
A tendência da "elite" brasileira - a generalização
aqui é sem dúvida um exagero - é comunitário/absolutista
(I/D). O indivíduo aqui tem mesmo vergonha de ter lucro. Ele pode
ficar rico, mas sempre com a consciência culpada, porque tem lá
sua cabeça jesuítica. Se fraqueja com a idade, entretanto,
não faz uma grande doação benemerente a uma universidade
ou instituição filantrópica, como nos EUA, mas simplesmente
muda (se fantasia, melhor se diria, na circunstância) para sujeito
ostensivamente libidinal (D)! E o povão [57],
principalmente onde pesa mais a cultura africana, puxa para o lado do sujeito
libidinal (uma forma arcaica de D: pré-D). Ou seja, trabalhar racional
e disciplinadamente, sim, mas para então poder gozar mais. Trabalhar
duro a semana inteira, para na sexta à noite poder tomar sossegadamente
sua cerveja com os amigos ou mesmo fazê-lo o ano inteiro, para poder
desfilar condignamente no Carnaval.
Por que não se consegue modernizar o Brasil? Porque a elite puxa
para o sujeito coletivo/absolutista (I/D) e o povão puxa para o
sujeito libidinal (D, mais precisamente, pré-D), e ninguém
quer saber do projeto (I). Daí, a dificuldade de modernizar o Brasil.
Não há quem não o queira, mas ninguém quer
se botar no devido lugar (I). O único jeito de o fazer é
acabar com a elite, dizem de um lado. De outro lado, se diz que com esse
povinho não dá. Não se aproveita nada - é o
que o Roberto Campos nos ensina. Há um seu artigo, incrível,
no qual afirma que o índio é preguiçoso, o
negro só quer saber de magia e o português é
patrimonialista; com isso, vale dizer, com toda nossa herança
histórico-cultural, não dá para fazer nada, no juízo
(ou ausência de juízo) dele. O atual Governo está mais
ou menos seguindo esta dupla receita: põe a classe média
para vender cachorro quente e assim pela concorrência matar de fome
a baiana do acarajé, e, vende a economia brasileira em bloco para
empresários monopolistas estrangeiros.
Entrementes, o Brasil está sendo construído, embora nós
não queiramos ver (por isso se diz que o Brasil cresce à
noite, sem ninguém ver ou atrapalhar).
Boa parte de nossa "elite" política, empresarial e até intelectual
está traindo a causa brasileira, investindo no fim da História,
no pensamento único, para quê? Para ocultar nossa grande alternativa
que está na síntese por vir. Há, pelo menos, ainda,
um nível de desenvolvimento cultural que seria o de uma cultura
qüinqüitária, na qual exatamente deveríamos apostar.
Ademais, para nós não há saída à esquerda
e não há saída à direita; e também não
adianta insistir em entrar para a Modernidade. Só há uma
coisa para a qual nós temos vocação: é a síntese
lógico-qüinqüitária, porque temos, mais do que
quaisquer outros, todos os componentes de base para tanto.
Em suma, o Brasil não é um bom candidato ao luxo,
ele o é deveras à originalidade. Eu não digo
que o Brasil está pronto, como acreditava Darcy Ribeiro; ele está
quase. Construir uma cultura é tarefa para 500 anos ou mais, e nós
já estamos bem próximos de alcançá-los! Apesar
da cegueira das nossas "elites" políticas, militares, empresariais,
eclesiásticas e intelectuais, nós haveremos de chegar lá.

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