CRÍTICA DA MODERNIDADE

Luiz Sergio Coelho de Sampaio
 
ee-001004.00[1](07/08/1999)



O mito, a religião, a arte, a linguagem e até a ciência são hoje vistos como diversas variações de um tema comum - e tarefa da filosofia é tornar esse tema audível e compreensível.
Ernst Cassirer. Ensaio sobre o Homem.

O crítico da cultura fala como representasse uma natureza intacta, ou um estágio histórico superior, mas, na realidade, pertence àquilo sobre o qual imagina alçar-se.
T.W. Adorno. Crítica cultural e sociedade.


1 - Introdução

Há os que se alimentam só das sobras e migalhas, achando que com este prudente distanciamento das baixelas, talheres e cristais conservam suas mãos limpas. Criticam; é como legitimam. Não valem mais do que estas cinco linhas. Nem serão aqui contados. 

Agora, podemos identificar  três  posições críticas em relação à Modernidade. Começamos com a crítica que aí está, em essência, apenas para ocupar lugar. Seu semblante feroz parece assustar o poder que por sua vez simula que ao vê-la treme de medo e ambos, imprecando um contra o outro, mas tacitamente justos e acertados, conseguem destarte afastar quaisquer terceiros e por aí o perigo de uma veraz subversão. Contestam o poder porque o querem o mais perfeito, não na soma de suas virtudes, mas no encobrimento de sua mortal fragilidade. É o que denominamos ideologia, à esquerda e à direita do paradigma anglo-saxão moderno, de prontidão para suportá-lo pegando de cada lado pelo sovaco, assim que mostre o menor sinal de esmorecimento.

Em segundo lugar, há quem deveras critique o poder imperante porque já é capaz de reconhecer e apontar para o que lhe é o mais próprio - ora a ciência (ou a técnica) como expressão terminal de uma insidiosa metafísica, ora o uso sócio-espetacular dos meios de reprodução e comunicação. Procede à critica da Modernidade, deve-se reconhecer, mas não conseguindo vislumbrar o que a possa suceder, só se dispõe mesmo a voltar atrás, à Grécia e seus poetas trágicos, desconsiderando que estes já eram lá censurados por exorbitar nos fingimentos. 

Haveria ainda uma última posição crítica, a de quem espia da quinta margem do rio a história da cultura passando ao encontro de si mesma, para mais além da Modernidade. A rigor, trata-se da única posição subversiva, na medida em que se dispõe à crítica da Modernidade, tomando-a não como um modo de produção, mas, pelo que realmente é:  uma cultura tipo, nodal, cujo vigor se sustenta na ciência desejosa (do uno/trino) e no seu preciso complemento - o sujeito liberal sujeitado. Somente desta posição é que se estará deveras enfrentando essa nossa velha preguiça de pensar o novo e, naturalmente, correndo os riscos inerentes à procura, com fé e engajamento, da autenticidade onto-lógica.

Em suma, seriam três as posições que se pretendem críticas da Modernidade que aqui examinaremos: as ideologias, as que ultrapassam as ideologias, mas ficam aquém da crítica radical à cultura e, para completar, esta última.

2 - A suspeita impotência das ideologias 

Partimos de uma antropologia filosófica que concebe o homem, indivíduo ou coletividade, como um ser lógico-qüinqüitário [1], isto é, capaz de operar um pensamento hiperdialético (I/D/D=I/D/²)[2] síntese do pensar da identidade (I), da diferença (D), dialético, unidade dos dois anteriores (I/D) e formal, clássico, do terceiro excluído ou da dupla diferença (D/D=D/²). 

De modo conseqüente, a história da cultura é então concebida como processo hiperdialético de auto-desvelamento do ser próprio do homem [3]. Este já teria passado por duas etapas ditas ecológicas [4], a primeira, representada pelas sociedades tribais de caçadores / coletores do paleolítico, cuja tônica é a identificação com a Natureza (em termos lógicos, dizemos cultura da pré-identidade ou pré-I), a segunda, pelos impérios de base agrícola da antigüidade, que se coloca, pelo trabalho,  como o outro da Natureza (da pré-diferença ou pré-D). Seguiram-se as etapas propriamente lógicas: cultura judaica (da identidade ou I), cultura greco-romana (da diferença ou D), cultura cristã trinitária (dialética ou I/D) e, já na atualidade, cultura moderna ou científico / tecnológica (formal, da dupla diferença ou D/D=D/²). 

Estaria hoje a humanidade, em sua frente de avanço, vivendo a cultura científico/tecnológica, governada pela lógica formal ou da dupla diferença (D/D= D/²). Esta se encontraria agora em sua fase civilizatória, na qual a verticalidade criadora, em decorrência do próprio êxito, vai sendo aos poucos substituída pela horizontalidade imperial, numa estreita homologia ao que a civilização romana foi para a cultura grega. Em termos econômicos (obviamente redutores), que é o que hoje mais se quer ver, isto significa a passagem do capitalismo nacional de produção ao capitalismo globalizado de consumo, paralelo, mas descolado, a um inconseqüente capitalismo financeiro internacional. 

A simples caracterização da Modernidade como cultura governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/²) é o bastante, como veremos, para permitir o mapeamento de todas as alternativas críticas ideológicas, aliás, todas elas já historicamente exercidas e, de certo modo, esgotadas em suas promessas. 

Para nós, o que está por trás de todas as disputas ideológicas do mundo moderno, em especial nos últimos cento e cinqüenta anos, dissimulada, é a questão do sujeito da ciência. Quem deva ser o seu sujeito, isto é, quem deve  desenvolvê-la, financiá-la,  proporcionar-lhe a imprescindível orientação e dela colher o melhor  proveito? 

Insistimos no aspecto dissimulado das ideologias porque elas deixam sempre intocadas, ao abrigo de qualquer suspeita, a ciência e a técnica.  Ora, deixar de lado justamente aquilo que constitui a essência mesma do dinamismo da Modernidade - a ciência - e aquilo que mais abertamente expõe sua fragilidade congênita - a técnica exorbitante -, não pode ter outra função senão a de bloquear os caminhos que podem levar, de fato, à subversão da Modernidade. Atente-se que a fragilidade não é da técnica enquanto tal, mas de seu modo fingido, da promessa enganadora nela implícita de levar o homem à perfeição (biológica) ou à  vida eterna [5]. Na verdade, uma promessa que não tem outro propósito senão o de tornar dispensável o advento do homem pleno lógico-qüinqüitário.

Mas o subterfúgio não pára aí, podendo voltar sobre si próprio como dissimulação da própria dissimulação. Para ilustrar isto de maneira  exemplar, podemos tomar algo bem familiar a nós brasileiros - o  Positivismo. Que pode isto significar se todos as correntes ideológicas são, tal como ele, acriticamente a favor da ciência e da técnica? O rótulo Positivismo, já de origem, trazia, velada, uma discussão sobre a adaptação da racionalidade moderna (capitalista) ao âmbito da latinidade, no nosso caso particular, de uma latinidade aquecida pelo trópico. Isto eqüivalia a uma discussão acerca do sujeito da razão científica (D/²), de como proceder a substituição ali do indivíduo liberal anglo-saxão (I) por um presumido espirito comunitário (I/D) da latinidade [6].

O leitor pode estar satisfeito, mas os dissimuladores não, pois chegam a se fantasiar de sociais-democratas para melhor impor sua prática neo-liberal, que também não é neo, mas sim vétero-liberal! Bem, não têm limites. 

Dentre as "opções" ideológicas, distinguiríamos inicialmente o paradigma anglo-saxão, aquele  que se decide pelo sujeito liberal I, cinematográfico sujeito john fordiano, incansável empresário schumpeteriano, que de fato transcende os sistemas, mas apenas para colocar um sistema novo intacto no lugar de outro já gasto ou ultrapassado pelos acontecimentos. É ele o sujeito que assegura com sua viva determinação ou iniciativa a continuidade da cultura da morte. (Ver figura 1, parte superior)

Figura 1 - As ideologias

O poder hierárquico da lógica da dupla diferença funcionaliza o que seria próprio e específico às lógicas subordinadas: a política torna-se ciência política; a psicologia da consciência torna-se psicologia adaptativa do eu; a arte vira técnica de marketing (ou, em estado de degradação voluntária, instalações).

Nos extremos, temos de um lado a "opção" de  esquerda - jesuítica, comunista, socialista de verdade, revolucionária - que propõe a substituição do sujeito liberal I pelo sujeito coletivo (politicamente articulado) I/D, concomitantemente invertendo o sentido de sua relação de subordinação com respeito à ciência. (Ver figura 1, à esquerda) A designação socialismo (I/D) científico (D/²) não lhe poderia ser mais apropriada. De modo quase simétrico, temos a "opção" de direita - fascista, nazista, tradicionalista -, que vai propor também a substituição do sujeito I, porém, agora, pelo sujeito romântico, telúrico, o "povo" ou, na sua versão mais primitiva, pelo sujeito libidinal, igualmente invertendo o sentido da relação subordinativa vis-à-vis a ciência.  (Ver figura 1, à direita) Alertaríamos que a designação nacional (D)  socialista (I/D) - nazista - é de algum modo enganosa, na medida em que sua oposição à  "opção" de esquerda não acontece  entre o nacional (D) e o científico (D/²) , mas precisamente entre o nacional particular (D) e o comunitário universal (I/D). Sua designação mais própria seria nacional (D) científico (D/²) contrastando com socialismo (I/D) científico (D/²). Há, ademais, uma razão profunda para esta equivocação: é que com freqüência uma formação ideológica de direita se apresenta não como uma troca de sujeito, mas como se fora uma simples particularização de um sujeito já dado, especificamente, pelo deslocamento do social universal (ou internacional) em favor do mesmo social, porém agora restrito ou particularizado (o nacional). E mais,  indefectivelmente acompanhada de propostas de modernização científico-tecnológica da produção e do sistema educacional.

Esta observação é importante na medida em que o aludido fenômeno aparece reiteradamente na história luso-brasileira. Assim foi gerado em Portugal o pombalismo (expulsão do jesuitismo internacional, instalação do Colégio dos Nobres) e salazarismo, e no Brasil, o getulismo (consolidação do mercado interno, criação das grandes empresas públicas, as leis trabalhistas, organização do ensino básico) e o Movimento de 64 (aniquilamento das ideologias "exóticas" internacionais, profissionalização na educação básica, implantação da Cadeira de Moral e Civismo em âmbito nacional vendendo a imagem do Brasil Grande)  e talvez muitos outros.

Haveria ainda uma quarta  possibilidade que seria a recusa de qualquer  sujeito - é a posição das "cúrias", que não se interessam por quaisquer sujeitos, mesmo que  fossem elas próprias; basta-lhes a lógica im-pessoal de um hiper-estático poder burocrático,  D/².

Como já tivemos oportunidade de mostrar [7] as duas "opções" extremas, esquerda e direita, se iludem com a possibilidade de promoverem a inversão da relação de subordinação entre a ciência e seu sujeito. Ver figura 2. 

Figura 2 - Sujeitos e inversões ideológicas

Na opção jesuítica ou comunista, trata-se de direcionar a ciência e a técnica para a solução dos grandes e urgentes problemas (ditos) sociais - alimentação, educação, saúde, habitação etc. Na opção nazi-fascista, trata-se da pretensão de colocar a ciência e a técnica ao serviço da preservação dos valores e da integridade do "espírito do povo" (D). 

Em ambos os casos chega-se a uma impossibilidade, pois, mais dia menos dia, qualquer destas "opções" vai se inverter, e uma burocracia de estado assumir um poder totalitário em seu exclusivo proveito.

Assim necessariamente acontece porque a lógica D/² - que governa a ciência -, subsume as lógicas I, D e  I/D - governando seus pretendidos e pretensiosos sujeitos -, e não ao contrário. Por isso, as inversões propostas sempre revertem, o que acarreta a perversão dos "projetos políticos" que se dizem fundamentados naquelas "opções", como a história do Século XX bem o demonstrou. No paradigma anglo-saxão o sentido da subordinação aparece tal como logicamente deve ser: por definição, o sujeito liberal se afigura um sujeito realmente transcendente ao sistema (I), porém, a ele sujeitado, na medida em que só lhe é permitido operar de modo intervalar entre sistemas (D/²) que se superpõem e se sucedem. Esta é uma configuração essencialmente perversa, que por isso mesmo, jamais perverte [8].

A similitude da "opção" de direita com a problemática grega que examinamos, fica aqui mais do que evidente. Não há pois nada de estranho quanto à afinidade entre o sintomático  helenismo desmedido dos filósofos e poetas alemães, em especial, dos românticos e seus derivados, e a força que na Alemanha assumiu o fascismo, assunto a que voltaremos mais detalhadamente no próximo item. 

Uma conseqüência também evidente da posição de direita é a supremacia atribuída à estética D (ou à poesia, ou à música dramática) sobre a política I/D, um sintoma anotado com grande acuidade por Walter Benjamin:

Eis a estetização da política, como a prática do fascismo. O comunismo responde com a politização da arte. [9]

Na "opção" de esquerda acontece precisamente o contrário: a prevalência do político sobre a arte, como se depreende da teatralidade do barroco jesuítico, da "pedagogia" grandiloqüente do realismo socialista e assemelhados.

A propósito, tendo-se em conta a essencial indiferença das diferenças ideológicas, não nos pode causar grande surpresa o troca-troca ideológico das "elites" do Brasil,  acabando todas reunidas em torno do pensamento único, acordes em nada pensar para realmente mudar, decidindo sistematicamente contra os mais elementares interesses da maioria do povo brasileiro. Depois de fazerem das eleições um só balcão de negócios, chegam ao ponto de controlar cuidadosamente a "compra" de votos no legislativo para assegurar uma cota parte de votos-contra, simulando que tudo aí acontece  democraticamente. 

Justamente estribados nesta compreensão geral é que negamos qualquer valor realmente subversivo à ação exclusivamente político-ideológica. A insistência numa tomada de posição exclusiva de tal natureza nesta altura da História, já não é mais um equívoco (que já antes era grave); é hoje, na verdade, alta traição aos interesses da humanidade, conluio com o que há de pior na Modernidade. 

Não há saída nem à esquerda nem à direita, apenas (logicamente) para frente e para o alto. Para não compactuar com o que aí está, é necessário proceder a uma crítica radical, de estofo lógico-filosófico, da Modernidade para compreender de onde ainda dimana o seu vigor, que é real, o que nela representa a ciência e em particular a física. Paralelamente, será preciso denunciar, para mais agravar sua constitutiva fragilidade, a dissimulação que é presentemente a técnica, em especial a biotecnologia, indefectivelmente presente em todos os diários, revistas e principalmente nos jornais e especiais das TVs [10]. Só assim poderemos começar a nos mobilizar para a verdadeira subversão da Modernidade, para o apressamento da chegada da nova cultura hiperdialética qüinqüitária, que bem sabemos agora o porquê, é, afinal, o passo decisivo para o  encontro do homem consigo mesmo.



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