O mito, a religião, a arte, a linguagem
e até a ciência são hoje vistos como diversas variações
de um tema comum - e tarefa da filosofia é tornar esse tema audível
e compreensível.
Ernst Cassirer. Ensaio
sobre o Homem.
O crítico da cultura fala como representasse uma natureza intacta, ou um estágio histórico superior, mas, na realidade, pertence àquilo sobre o qual imagina alçar-se.
T.W. Adorno. Crítica cultural e sociedade.
1 - Introdução
Há os que se alimentam só das sobras e migalhas, achando
que com este prudente distanciamento das baixelas, talheres e cristais
conservam suas mãos limpas. Criticam; é como legitimam. Não
valem mais do que estas cinco linhas. Nem serão aqui contados.
Agora, podemos identificar três posições
críticas em relação à Modernidade. Começamos
com a crítica que aí está, em essência, apenas
para ocupar lugar. Seu semblante feroz parece assustar o poder que por
sua vez simula que ao vê-la treme de medo e ambos, imprecando um
contra o outro, mas tacitamente justos e acertados, conseguem destarte
afastar quaisquer terceiros e por aí o perigo de uma veraz subversão.
Contestam o poder porque o querem o mais perfeito, não na soma de
suas virtudes, mas no encobrimento de sua mortal fragilidade. É
o que denominamos ideologia, à esquerda e à direita do paradigma
anglo-saxão moderno, de prontidão para suportá-lo
pegando de cada lado pelo sovaco, assim que mostre o menor sinal de esmorecimento.
Em segundo lugar, há quem deveras critique o poder imperante porque
já é capaz de reconhecer e apontar para o que lhe é
o mais próprio - ora a ciência (ou a técnica) como
expressão terminal de uma insidiosa metafísica, ora o uso
sócio-espetacular dos meios de reprodução e comunicação.
Procede à critica da Modernidade, deve-se reconhecer, mas não
conseguindo vislumbrar o que a possa suceder, só se dispõe
mesmo a voltar atrás, à Grécia e seus poetas trágicos,
desconsiderando que estes já eram lá censurados por exorbitar
nos fingimentos.
Haveria ainda uma última posição crítica, a
de quem espia da quinta margem do rio a história da cultura passando
ao encontro de si mesma, para mais além da Modernidade. A rigor,
trata-se da única posição subversiva, na medida em
que se dispõe à crítica da Modernidade, tomando-a
não como um modo de produção, mas, pelo que realmente
é: uma cultura tipo, nodal, cujo vigor se sustenta na ciência
desejosa (do uno/trino) e no seu preciso complemento - o sujeito liberal
sujeitado. Somente desta posição é que se estará
deveras enfrentando essa nossa velha preguiça de pensar o novo e,
naturalmente, correndo os riscos inerentes à procura, com fé
e engajamento, da autenticidade onto-lógica.
Em suma, seriam três as posições que se pretendem críticas
da Modernidade que aqui examinaremos: as ideologias, as que ultrapassam
as ideologias, mas ficam aquém da crítica radical à
cultura e, para completar, esta última.
2 - A suspeita
impotência das ideologias
Partimos de uma antropologia filosófica que concebe o homem, indivíduo
ou coletividade, como um ser lógico-qüinqüitário
[1], isto é,
capaz de operar um pensamento hiperdialético (I/D/D=I/D/²)[2]
síntese do pensar da identidade (I), da diferença (D), dialético,
unidade dos dois anteriores (I/D) e formal, clássico, do terceiro
excluído ou da dupla diferença (D/D=D/²).
De modo conseqüente, a história da cultura é então
concebida como processo hiperdialético de auto-desvelamento do ser
próprio do homem [3].
Este já teria passado por duas etapas ditas ecológicas [4],
a primeira, representada pelas sociedades tribais de caçadores /
coletores do paleolítico, cuja tônica é a identificação
com a Natureza (em termos lógicos, dizemos cultura da pré-identidade
ou pré-I), a segunda, pelos impérios de base agrícola
da antigüidade, que se coloca, pelo trabalho, como o outro da
Natureza (da pré-diferença ou pré-D). Seguiram-se
as etapas propriamente lógicas: cultura judaica (da identidade ou
I), cultura greco-romana (da diferença ou D), cultura cristã
trinitária (dialética ou I/D) e, já na atualidade,
cultura moderna ou científico / tecnológica (formal, da dupla
diferença ou D/D=D/²).
Estaria hoje a humanidade, em sua frente de avanço, vivendo a cultura
científico/tecnológica, governada pela lógica formal
ou da dupla diferença (D/D= D/²). Esta se encontraria agora
em sua fase civilizatória, na qual a verticalidade criadora, em
decorrência do próprio êxito, vai sendo aos poucos substituída
pela horizontalidade imperial, numa estreita homologia ao que a civilização
romana foi para a cultura grega. Em termos econômicos (obviamente
redutores), que é o que hoje mais se quer ver, isto significa a
passagem do capitalismo nacional de produção ao capitalismo
globalizado de consumo, paralelo, mas descolado, a um inconseqüente
capitalismo financeiro internacional.
A simples caracterização da Modernidade como cultura governada
pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/²)
é o bastante, como veremos, para permitir o mapeamento de todas
as alternativas críticas ideológicas, aliás, todas
elas já historicamente exercidas e, de certo modo, esgotadas em
suas promessas.
Para nós, o que está por trás de todas as disputas
ideológicas do mundo moderno, em especial nos últimos cento
e cinqüenta anos, dissimulada, é a questão do sujeito
da ciência. Quem deva ser o seu sujeito, isto é, quem
deve desenvolvê-la, financiá-la, proporcionar-lhe
a imprescindível orientação e dela colher o melhor
proveito?
Insistimos no aspecto dissimulado das ideologias porque elas deixam sempre
intocadas, ao abrigo de qualquer suspeita, a ciência e a técnica.
Ora, deixar de lado justamente aquilo que constitui a essência mesma
do dinamismo da Modernidade - a ciência - e aquilo que mais abertamente
expõe sua fragilidade congênita - a técnica exorbitante
-, não pode ter outra função senão a de bloquear
os caminhos que podem levar, de fato, à subversão da Modernidade.
Atente-se que a fragilidade não é da técnica enquanto
tal, mas de seu modo fingido, da promessa enganadora nela implícita
de levar o homem à perfeição (biológica) ou
à vida eterna [5].
Na verdade, uma promessa que não tem outro propósito senão
o de tornar dispensável o advento do homem pleno lógico-qüinqüitário.
Mas o subterfúgio não pára aí, podendo voltar
sobre si próprio como dissimulação da própria
dissimulação. Para ilustrar isto de maneira exemplar,
podemos tomar algo bem familiar a nós brasileiros - o Positivismo.
Que pode isto significar se todos as correntes ideológicas são,
tal como ele, acriticamente a favor da ciência e da técnica?
O rótulo Positivismo, já de origem, trazia, velada, uma discussão
sobre a adaptação da racionalidade moderna (capitalista)
ao âmbito da latinidade, no nosso caso particular, de uma latinidade
aquecida pelo trópico. Isto eqüivalia a uma discussão
acerca do sujeito da razão científica (D/²), de como
proceder a substituição ali do indivíduo liberal anglo-saxão
(I) por um presumido espirito comunitário (I/D) da latinidade [6].
O leitor pode estar satisfeito, mas os dissimuladores não, pois
chegam a se fantasiar de sociais-democratas para melhor impor sua prática
neo-liberal, que também não é neo, mas sim vétero-liberal!
Bem, não têm limites.
Dentre as "opções" ideológicas, distinguiríamos
inicialmente o paradigma anglo-saxão, aquele que se decide
pelo sujeito liberal I, cinematográfico sujeito john fordiano,
incansável empresário schumpeteriano, que de fato transcende
os sistemas, mas apenas para colocar um sistema novo intacto no lugar de
outro já gasto ou ultrapassado pelos acontecimentos. É ele
o sujeito que assegura com sua viva determinação ou iniciativa
a continuidade da cultura da morte. (Ver figura 1, parte superior)
Figura 1 - As ideologias
O poder hierárquico da lógica da dupla diferença funcionaliza
o que seria próprio e específico às lógicas
subordinadas: a política torna-se ciência política;
a psicologia da consciência torna-se psicologia adaptativa do eu;
a arte vira técnica de marketing (ou, em estado de degradação
voluntária, instalações).
Nos extremos, temos de um lado a "opção" de esquerda
- jesuítica, comunista, socialista de verdade, revolucionária
- que propõe a substituição do sujeito liberal I pelo
sujeito coletivo (politicamente articulado) I/D, concomitantemente invertendo
o sentido de sua relação de subordinação com
respeito à ciência. (Ver figura 1, à
esquerda) A designação socialismo (I/D) científico
(D/²) não lhe poderia ser mais apropriada. De modo quase simétrico,
temos a "opção" de direita - fascista, nazista, tradicionalista
-, que vai propor também a substituição do sujeito
I, porém, agora, pelo sujeito romântico, telúrico,
o "povo" ou, na sua versão mais primitiva, pelo sujeito libidinal,
igualmente invertendo o sentido da relação subordinativa
vis-à-vis a ciência. (Ver figura 1,
à direita) Alertaríamos que a designação nacional
(D) socialista (I/D) - nazista - é de algum modo enganosa,
na medida em que sua oposição à "opção"
de esquerda não acontece entre o nacional (D) e o científico
(D/²) , mas precisamente entre o nacional particular (D) e o comunitário
universal (I/D). Sua designação mais própria seria
nacional
(D) científico (D/²) contrastando com
socialismo
(I/D) científico (D/²). Há, ademais, uma razão
profunda para esta equivocação: é que com freqüência
uma formação ideológica de direita se apresenta não
como uma troca de sujeito, mas como se fora uma simples particularização
de um sujeito já dado, especificamente, pelo deslocamento do social
universal (ou internacional) em favor do mesmo social, porém agora
restrito ou particularizado (o nacional). E mais, indefectivelmente
acompanhada de propostas de modernização científico-tecnológica
da produção e do sistema educacional.
Esta observação é importante na medida em que o aludido
fenômeno aparece reiteradamente na história luso-brasileira.
Assim foi gerado em Portugal o pombalismo (expulsão do jesuitismo
internacional, instalação do Colégio dos Nobres) e
salazarismo,
e no Brasil, o getulismo (consolidação do mercado
interno, criação das grandes empresas públicas, as
leis trabalhistas, organização do ensino básico) e
o Movimento de 64 (aniquilamento das ideologias "exóticas"
internacionais, profissionalização na educação
básica, implantação da Cadeira de Moral e Civismo
em âmbito nacional vendendo a imagem do Brasil Grande) e talvez
muitos outros.
Haveria ainda uma quarta possibilidade que seria a recusa de qualquer
sujeito - é a posição das "cúrias", que não
se interessam por quaisquer sujeitos, mesmo que fossem elas próprias;
basta-lhes a lógica im-pessoal de um hiper-estático poder
burocrático, D/².
Como já tivemos oportunidade de mostrar [7]
as duas "opções" extremas, esquerda e direita, se iludem
com a possibilidade de promoverem a inversão da relação
de subordinação entre a ciência e seu sujeito. Ver
figura 2.
Figura 2 - Sujeitos e inversões ideológicas
Na opção jesuítica ou comunista, trata-se de direcionar
a ciência e a técnica para a solução dos grandes
e urgentes problemas (ditos) sociais - alimentação, educação,
saúde, habitação etc. Na opção nazi-fascista,
trata-se da pretensão de colocar a ciência e a técnica
ao serviço da preservação dos valores e da integridade
do "espírito do povo" (D).
Em ambos os casos chega-se a uma impossibilidade, pois, mais dia menos
dia, qualquer destas "opções" vai se inverter, e uma burocracia
de estado assumir um poder totalitário em seu exclusivo proveito.
Assim necessariamente acontece porque a lógica D/² - que governa
a ciência -, subsume as lógicas I, D e I/D - governando
seus pretendidos e pretensiosos sujeitos -, e não ao contrário.
Por isso, as inversões propostas sempre revertem, o que acarreta
a perversão dos "projetos políticos" que se dizem fundamentados
naquelas "opções", como a história do Século
XX bem o demonstrou. No paradigma anglo-saxão o sentido da subordinação
aparece tal como logicamente deve ser: por definição, o sujeito
liberal se afigura um sujeito realmente transcendente ao sistema (I), porém,
a ele sujeitado, na medida em que só lhe é permitido operar
de modo intervalar entre sistemas (D/²) que se superpõem e
se sucedem. Esta é uma configuração essencialmente
perversa, que por isso mesmo, jamais perverte [8].
A similitude da "opção" de direita com a problemática
grega que examinamos, fica aqui mais do que evidente. Não há
pois nada de estranho quanto à afinidade entre o sintomático
helenismo desmedido dos filósofos e poetas alemães, em especial,
dos românticos e seus derivados, e a força que na Alemanha
assumiu o fascismo, assunto a que voltaremos mais detalhadamente no próximo
item.
Uma conseqüência
também evidente da posição de direita é a supremacia
atribuída à estética D (ou à poesia, ou à
música dramática) sobre a política I/D, um sintoma
anotado com grande acuidade por Walter Benjamin:
Eis a estetização
da política, como a prática do fascismo. O comunismo responde
com a politização da arte. [9]
Na "opção" de esquerda acontece precisamente o contrário:
a prevalência do político sobre a arte, como se depreende
da teatralidade do barroco jesuítico, da "pedagogia" grandiloqüente
do realismo socialista e assemelhados.
A propósito, tendo-se em conta a essencial indiferença das
diferenças ideológicas, não nos pode causar grande
surpresa o troca-troca ideológico das "elites" do Brasil,
acabando todas reunidas em torno do pensamento único, acordes em
nada pensar para realmente mudar, decidindo sistematicamente contra os
mais elementares interesses da maioria do povo brasileiro. Depois de fazerem
das eleições um só balcão de negócios,
chegam ao ponto de controlar cuidadosamente a "compra" de votos no legislativo
para assegurar uma cota parte de votos-contra, simulando que tudo
aí acontece democraticamente.
Justamente estribados nesta compreensão geral é que negamos
qualquer valor realmente subversivo à ação exclusivamente
político-ideológica. A insistência numa tomada de posição
exclusiva de tal natureza nesta altura da História, já não
é mais um equívoco (que já antes era grave); é
hoje, na verdade, alta traição aos interesses da humanidade,
conluio com o que há de pior na Modernidade.
Não
há saída nem à esquerda nem à direita,
apenas (logicamente) para frente e para o alto. Para não compactuar
com o que aí está, é necessário proceder a
uma crítica radical, de estofo lógico-filosófico,
da Modernidade para compreender de onde ainda dimana o seu vigor, que é
real, o que nela representa a ciência e em particular a física.
Paralelamente, será preciso denunciar, para mais agravar sua constitutiva
fragilidade, a dissimulação que é presentemente a
técnica, em especial a biotecnologia, indefectivelmente presente
em todos os diários, revistas e principalmente nos jornais e especiais
das TVs [10].
Só assim poderemos começar a nos mobilizar para a verdadeira
subversão da Modernidade, para o apressamento da chegada da nova
cultura hiperdialética qüinqüitária, que bem sabemos
agora o porquê, é, afinal, o passo decisivo para o encontro
do homem consigo mesmo.

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