3 - Para além das
ideologias
Podemos agora nos aventurar para além do âmbito das ideologias,
onde verdadeiramente começa o processo de crise e superação
da Modernidade.
Recapitulando, consideramos as ideologias como um fenômeno social
típico do mundo moderno, cuja característica central é
a desconsideração da ciência como questão (aqui
não se discriminando ciência e técnica); em contrapartida,
assumem, como sua questão maior, qual deva ser o sujeito da ciência
e o sentido de sua relação de subordinação
a ela.
Ora, a compreensão do processo de crise e superação
da Modernidade requer exatamente o contrário: que concentremos nosso
esforço crítico sobre a ciência e a técnica,
questionando-as, buscando uma avaliação objetiva das condições
de continuidade do vigor criativo da ciência, tentando decifrar os
mecanismos ilusionistas associados à técnica.
Na figura 3 tentamos pôr em evidência a relação
conceitual conflituosa entre, de um lado, o enfoque ideológico,
reacionário, sincrônico, representado por um plano solidário
à própria Modernidade e, de outro lado, o enfoque crítico,
diacrônico, lógico-filosófico da problemática
cultural, representado por uma linha que traspassa a Modernidade.
Figura 3 - Plano sincrônico
ideológico versus linha diacrônica do processo cultural
Localmente (isto é, visto de dentro da própria Modernidade)
existiria ali uma certa ambigüidade processual - ao mesmo tempo para
trás (ciência) e para frente (técnica exorbitante)
-, mas que vista de um pouco mais longe se nos afigura como inexoravelmente
ascensional. Pouco importam os percalços temporários - como
é o caso na atualidade do chamado processo de globalização
-, o homem jamais abandonará a busca da autenticidade, não
irá faltar de modo algum ao encontro marcado que tem consigo mesmo.
3.1 - Heidegger - a ciência e a técnica
Estamos agora um pouco menos mal preparados para enfrentar questões
de maior complexidade. Que pensaríamos, então, de alguém
que fizesse uma aberta "opção" por um sujeito da ciência
- por exemplo, pelo "povo" - e, ao mesmo tempo fosse um crítico
feroz da ciência e da técnica? Seria ele um mero reacionário
de direita ou um profeta da cultura nova? Ou ambos, ou nenhum nem outro?!
O leitor já deve ter percebido que não estamos diante de
uma situação hipotética qualquer, mas precisamente
do caso Heidegger, especificamente, do affaire Heidegger e o nazismo
(incluída aí a ultra-sensível questão do anti-semitismo).
Embora este já se tenha tornado um tema recorrente, o fato é
que até hoje não foi tratado com a devida profundidade e
amplitude. Parece-nos que o que mais tem atrapalhado a compreensão
daqueles acontecimentos históricos envolvendo o filósofo
alemão tem sido a atitude apaixonada de todas as partes. Sendo ele
o maior dos filósofos de nosso tempo, toma-se como pressuposto que
ele tivesse, à época do seu reitorado, a plena compreensão
e o acesso às informações suficientes sobre a situação
alemã e internacional, para então bem decidir. Isto, a nosso
juízo, está muito longe de ser verdadeiro, razão pela
qual consideramos imprescindível que se explicite e se aceite o
contraditório e o paradoxal das palavras e das atitudes, porque
é exatamente daí que se pode derivar os mais importantes
ensinamentos. Nada pior, na circunstância, pois, que a colocação
maniqueísta: Heidegger, anjo ou capeta.
Preliminarmente, valeria fazer um breve resumo da história do anti-semitismo
alemão. Começaríamos lembrando que coube em parte
aos alemães do sudeste a resistência à penetração
islâmica na Europa via oriente [11].
Este processo num primeiro momento é anti-islâmico, mas tem
como seqüela desdobrar-se para alcançar seus primos remanescentes,
os judeus, tal qual ocorreu em Espanha e Portugal. É preciso compreender
que sem uma vigorosa reação à expansão semítica,
a Europa simplesmente não existiria e talvez ainda não tivéssemos
nem mesmo entrado na Modernidade. Aí está, sem dúvida,
uma das raízes mais antigas e fundas do anti-semitismo europeu,
em particular, o alemão.
Há um outro importante momento histórico, por volta de 1800,
quando ocorre uma significativa migração de famílias
judias para Frankfurt, entre as quais estavam algumas de já tradicionais
banqueiros. É a partir de então que esta cidade passa a se
constituir num dos principais centros financeiros da Europa [12].
Isto representou um grande impulso no processo de "modernização
econômica" da Alemanha com intensos reflexos na sua vida cultural,
o que fortemente impactou a intelectualidade alemã [13].
O surto de helenismo exacerbado e excludente talvez tenha sido sua irada
reação inconsciente e, justo por isso, a mais dramática
em suas conseqüências.
Outro episódio de peso foi a chegada à Alemanha, no início
deste século, do movimento soreliano [14].
Este movimento representa o abandono da expectativa da consolidação
de um proletariado revolucionário internacional (I/D) - para ele
já se tornara evidente o processo de aburguesamento das massas européias
logo aos alvores da era do marketing e do consumismo. Em conseqüência,
suas esperanças revolucionárias se voltam para a pequeno-burguesia
nacional (D), que era quem mais sofria, econômica e emocionalmente,
com a expansão do capitalismo financeiro internacionalizado. É
exatamente aí que a designação nacional socialismo
ou nazismo tem sua razão histórica.
Por fim, chamamos a atenção para o fato que ainda na passagem
para o século XX, o capitalismo sofre uma grande mutação:
a função de principal motor do sistema passa da acumulação
/ produção para o marketing / consumo. Isto implicava
que a expansão capitalista, doravante, só se faria pela prévia
agressão à cultura (dos outros). Antes, a implantação
de atividades agrícolas ou extrativo minerais na periferia do capitalismo
acabava provocando a desorganização das relações
sociais em geral e do mundo da cultura. A agressão à
cultura era então uma conseqüência do lucro desordenadamente
buscado. Com o capitalismo de marketing o processo se inverte: doravante
é a desarticulação da cultura (ou sub-cultura) periférica
e das relações sociais tradicionais que se torna pré-condição
da penetração econômica global; a agressão cultural
passou a ser condição do lucro. Nesta nova etapa da
expansão capitalista importa, antes de mais nada, se apoderar no
atacado do imaginário do outro [15].
Por tudo isso, na Alemanha, o nazismo ganhou a proporção
que tomou, fenômeno que não pode ser de modo algum explicado
pelo ativismo de um punhado de desatinados. O nazismo acabou sendo, sim,
uma reação antecipada ao capitalismo consumista ou
de marketing (além de representar, naturalmente, a estetização
da política!), como o socialismo soviético foi uma reação
retardada ao capitalismo produtivista ou de acumulação
(além de representar a politização da arte!).
É neste contexto histórico que Heidegger, o filósofo
[16],
faz sua opção a que não se pode negar o caráter
ideológico: o faz pelo sujeito romântico, telúrico,
pelo povo, pelo torrão natal, pelos gregos, pela Floresta Negra,
pela poesia, pelas águas do Reno e do Neckar, pelo trágico,
em suma, pelo sujeito lógico diferencial ou prometéico, D.
Ver figura 4.
Figura 4 - Heidegger e a questão ideológica
Heidegger [17]
afirma, lá pelos meados da década de 30, que a Europa (tendo
a Alemanha como centro), está metafisicamente (logicamente,
diríamos nós) entre duas tenazes: de um lado a Rússia
(tendo como sujeito da ciência o ser coletivo I/D, acrescentaríamos
nós) e de outro a América (tendo como sujeito da ciência
o indivíduo liberal I). De quem estaria falando Heidegger, senão
do sujeito da ciência? Onde então poderia estar, segundo ele,
este sujeito desejado no caso da Europa, em particular da Alemanha, que
não na posição lógico-diferencial D? Ver figura
2.
Depois disso, não pode caber a mínima dúvida quanto
ao seu profundo e prolongado comprometimento com o nazismo. Não
se precisa do livro do Victor Farias [18]
para se chegar a esta conclusão; como se pôde ver, basta saber
ler a própria lógica da situação
e das escolhas possíveis.
Sua posição não pode, entretanto, ser reduzida a uma
mera tomada de posição ideológica precisamente em
razão da crítica insistente e feroz que faz à ciência
e à técnica. Isto significa que ele vai muito além
dos limites estreitos da questão ideológica e se coloca
como um verdadeiro filósofo de sua época, um radical crítico
de sua cultura. Sob este ponto de vista, Heidegger é de uma enorme
clarividência.
A figura 4 deixa bastante claro que não se pode
logicamente contrapor povo e técnica. A técnica é
algo de natureza metafísica (no caso, além das ideologias);
ela é uma articulação entre a vontade individual (determinação
de projeto) (I) e o saber científico (D/²), sob o poder castrador
do ultimo [19].
É certo que ela não chega a ser lógico-qüinqúitária
(I/D/²), mas é bem o seu simulacro.
Heidegger então anuncia com bastante clareza em que direção
irá se mover, deslocando-se da diagonal machista (D/², I) para
a diagonal feminina (D, I/D) [20]:
El concepto no
es aquí ya más lo pensado, lo imaginado (lógica),
no lo racional en oposición a lo irracional (porque esta definición
se basa en la frase: el hombre es un animal {I} racional {D/²}.
De la necesidad de superar este antiguo "concepto" se sigue una mayor amplitud
del novo concepto. Estos son los conceptos fundamentales de nuestro futuro.
(colchetes nossos) [21]
De fato, a técnica é o próprio modo de ser do homem
quando concebido como apenas animal racional, e isto vinha já de
Aristóteles. Ademais, a algo de determinado nível lógico
só se pode contrapor algo de um nível lógico igual
ou superior. Assim, contra a sociedade tecnificada (D/² => I)
dever-se-ia confrontar não apenas o povo (enquanto apenas vontade,
D), mas o povo e sua vontade de tornar-se um povo histórico
(D => I/D).
Tornar-se um povo histórico não é uma necessidade,
não é algo inerente à condição de ser
povo, mas uma decisão (não necessariamente consciente), um
desdobrar-se em seu próprio ser aberto (além de D),
na direção do futuro:
- El pueblo es
hecho por la historia, él pasa a la historia (futuro) en tanto que
se sale da historia (pasado). [22]
Cuando um pueblo pasa
a la historia ello quiere decir: él entra al futuro. [23]
Entrementes, a história, para o nosso filósofo, nada tem
de uma simples sucessão de acontecimentos fortuitos destituídos
de significação; o acontecer só verdadeiramente
acontece como modo próprio de ser da tradição:
Historia y acontecer
no son ya más un continuo de sucesos: Acontecer es tradiction..[24]
(negritos nossos)
Lo que es desde lo ya
sido es la tradición. Ella es el carácter más
propio del acontecer y lleva la determinatión propia por sobre nosotros
hacia el futuro. [25]
(negritos nossos)
A opção pelo sujeito povo (D), em Heidegger, estaria pois
essencialmente associada à problemática de sua entrada ou
saída na história (I/D). Pelo já visto, entrementes,
a história aqui se reduz ao acontecer da própria tradição,
vale dizer, é uma história sujeitada à lógica
da repetição. Embora a lógica da história
seja a dialética, síntese da identidade e da diferença
(I/D), ela aqui se mantém ainda refém de sua proveniência,
sujeitada à lógica da diferença (D). A sujeição
da história à tradição, a nosso juízo,
constitui uma evidente anomalia lógica.
Conclui-se, pois, que aquilo que vinha para se contrapor à técnica,
deveras o fazia, porém, sem conseguir deixar de ser, tal como a
técnica, apenas um simulacro, mais um modo pseudo-lógico-qüinqüitário
(pseudo I/D/²). (Ver figura 2)
Em que pese a sagacidade e o poder de enxergar para além das ideologias
e mais ainda para aquém de seu próprio tempo seguindo ao
reverso as marcas significantes deixadas meio às sendas do esquecimento
do ser, Heidegger, não consegue ir muito mais longe do que lhe facultava
sua própria cultura. Tira bom proveito de um certo descentramento
alemão em relação à Modernidade, mas acaba
sendo também vítima desta mesma excentricidade [26].
Por tudo isso cometeu muitos e sérios enganos que se pode assim
resumir:
a) Embora tenha escapado dos estreitos limites do reacionário plano
ideológico, não consegue se assenhorar do aberto em que se
viu, que não era espaço, mas o tempo histórico das
culturas, talvez, por pressupô-lo apenas lógico-dialético
trinitário (hegeliano) e não o que verdadeiramente é,
hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. Isto
vai implicar em que sua crítica da técnica (governada pela
lógica formal D/², tendo a lógica da identidade I a
seu serviço, portanto, um pseudo ser lógico-qüinqúitário)
acabe desembocando numa anti-técnica (governada pela lógica
da diferença D tendo a lógica dialética I/D a seu
serviço, também um pseudo ser lógico-qüinqüitário).
Em suma, o que a rigor propõe é a substituição
da técnica machista (D/² ==> I) por uma anti-técnica
feminista (D ==> I/D). Heidegger, imaginamos, teria tido o maior horror
a Lacan e seus "matemas da sexuação" ! [27]
b) Não distingue ciência e técnica no que lhes é
o mais essencial, sua orientação diametralmente divergente
na ordem do tempo: a primeira desejosa do que foi, a segunda fingindo
ser já o que está ainda por vir; por isso sub-avalia
a força criativa da ciência e não consegue perceber
quanta oportunidade há para denunciar a fragilidade da técnica
quando em estado de ilusionista exorbitância. Sem isto, como seria
possível escapar à impotência, ou pior, de uma praxis
política desastrada?
c) Não percebe que o problema da técnica não está
no que ela é, mas no que figura ser, vale dizer, não em seu
rosto, mas nas suas máscaras sedutoras. Havia um precedente que
lhe era bem familiar - a exorbitância poética dos gregos
-, porém, dela não se apercebeu, talvez desencaminhado pelos
hinos e encantos de Hölderlin; daí, não se dever estranhar,
que no fim de seu périplo filosófico, vá sugerir a
volta à mesma exorbitância poética grega!
3.2 - A Escola de Frankfurt - os meios de reprodução
e comunicação de massa
Vale a pena aqui fazer uma breve referência à Escola de Frankfurt
(sempre Frankfurt!). É bem conhecida a sua dívida para com
Marx (I/D) e Freud (D), parece-nos, entretanto, que ela é ainda
maior para com Heidegger. Como pretendemos mostrar, o que a Escola acaba
mesmo realizando é uma "inversão interna" no esquema
lógico heideggeriano.
É um juízo quase unânime que a Escola de Frankfurt,
em que pese o nome, não chega a se configurar como uma verdadeira
escola de pensamento:
It may even be
questioned whether they have anything in common beyond the programme for
a restatement of Marxisme in the form of a 'critical theory of society'.
[28]
Seria mesmo assim? Realmente reconhecemos uma certa dificuldade em apresentar
uma lista de concepções comuns à Escola, entrementes,
valendo-nos de uma estratégia geral de envolvimento, podemos chegar
a uma visão relativamente coerente e precisa sobre o que de fato
pretendem os defensores da Teoria Crítica. Não importa a
ordem de apresentação nem o peso relativo de cada um dos
"lances ou movimentos" por eles realizados; importa sim o seu conjunto
que acaba se mostrando de surpreendente harmonia, completude e eficácia
teórica. Vejamos:
a) Todos os membros reconhecidos da Escola passam pelo marxismo, consequentemente,
pela dialética, porém, insistindo na sua desabsolutização.
Isto significa que a noção de totalidade, verdade do ser
dialético, perde seu peso metafísico e por conseqüência
deixa de se constituir suporte para os extremismos totalitários.
Isto é feito de diferentes maneiras, seja dando mais peso à
Fenomenologia
do Espírito e menos à Lógica hegelianas
(Habermas), seja sobrevalorando o momento negativo da dialética
em detrimento do seu momento de síntese, como é o caso, por
exemplo, da "dialética negativa" de Adorno. Deste modo, barra-se
qualquer pretensão de onipotência do conceito, como também,
de equivalência de ser e pensar, pelo menos a nível lógico-dialético.
Tanto para Horkheimer como para Adorno, na conjunção dialética
e materialismo, é o último que torna a primeira um processo
infinitamente aberto; não importam o âmbito e as circunstâncias,
sempre existiria um outro. A desabsolutização
da dialética é justamente o que vai permitir a sua articulação
com outra lógica, no caso, com a lógica do outro ou da diferença.
Ver figura 5.
b) Seguindo Karl Korsch (Marxismo e Filosofia 1923), denuncia-se
abertamente a aproximação do marxismo com o positivismo cientificista,
que, aliás, teria suas raízes nas ambigüidades do próprio
Marx com respeito ao valor da ciência e da técnica.
c) Aceitação da psicanálise como um real contrapeso
a eventuais desvios conceptualistas totalitários da dialética,
porém, também taxando como suspeita a aproximação
do próprio Freud com o positivismo; rejeita-se abertamente à
psicanálise o estatuto de cientificidade com que tanto sonhara Freud.
d) Rejeitando a prima philosophia e as filosofias subjetivistas
e, com estas, a lógica transcendental ou da identidade que lhes
dá suporte. Kant e Fichte são aceitos, não pelo transcendentalismo,
mas, obviamente, pelo valor que dão aos imperativos da razão
prática. Adorno é o mais crítico da razão identitária
que a seu ver necessariamente suprime as diferenças. Este posicionamento,
na verdade, é comum à toda a Escola como assinala Kortian:
The Critical
Theory of Frankfurt School simply reproduces this metacritical paradigm
in its merciless attacks on any rehabilitation of a prima philosophia.
[29].
Figura 5 - A formação
lógica da Teoria Crítica
e) Não é de se estranhar que a estima pela psicanálise
venha de par com a valorização da arte; Horkheimer lamenta
que a Modernidade tenha cortado do âmbito da verdade não apenas
a política e a religião, mas principalmente a arte. Hoje
a cultura teria se transformado em mera indústria de diversão
para mistificação das massa. Para Adorno, nada melhor do
que a arte para romper, por dentro, as falsas totalidades.
f) Embora não se furtem à pesquisa empírica, rejeitam
liminarmente o método e a postura objetivista da ciência por
incapaz de dar conta da especificidade e da complexidade do ser histórico.
g) A tudo isso colmatando, fazem uma crítica radical da técnica
moderna e das ideologias que as justificam seja explicitamente, seja por
ardilosa omissão; denunciam que a história reduzida a simples
natureza leva a que a práxis se reduza inexoravelmente a tecnologia.
Marcuse, vindo da esfera de influência heideggeriana, não
podia deixar de atacar a tecnocracia e o totalitarismo inerente à
razão técnica e científica. Adorno rebela-se contra
a tecnificação que se faz hoje em escala planetária.
Habermas segue na mesma direção, só que partindo de
uma crítica profunda da noção weberiana de racionalidade,
e demonstra como, na Modernidade, a própria técnica transformou-se
em ideologia, portanto, em sua autojustificação.
Operando no "espaço lógico" o conjunto destas disposições
se mostra extremamente constringente, deixando uma única
alternativa: o comprometimento da Escola de Frankfurt com a mesma diagonal
feminina por que optara Heidegger, porém, invertendo a direção
da relação de soberania, agora, da dialética I/D sobre
a lógica da diferença D. Talvez, quem sabe, por serem de
Frankfurt e não da pequenina Messkirch, na região de
Baden. Ver figura 4.
A Teoria Crítica é assim um pensamento que consegue romper
com o conservadorismo ideológico, mas, em que pese a pretensão,
não alcança a altura suficiente para se constituir numa instância
crítica radical da cultura. Esse juízo é emitido pelo próprio Adorno - um dos mais proeminentes membros da Escola -, que acredita que a Modernidade, com a sua "indústria cultural", fechou todas as portas que pudessem nos levar a um ponto de vista a ela transcendente. Em Heidegger, trata-se ainda de um pensar tolhido, tal como a técnica que ele critica. São, os dois, modos de pensar a meio caminho do pensar pleno lógico-qüinqüitário - como degraus ou como enormes pedras, conforme o uso que deles se faça.
4 - Crítica radical
da cultura
Definitivamente, a Modernidade não se reduz a um simples modo de
produção. Foi por assim acreditar que acabamos todos caindo
onde caímos, na era do pensamento único. Não há
mesmo saída à esquerda nem à direita. Não há
dúvida que faliram as ideologias, e sabemos hoje bem o porquê:
não pretenderam outra coisa senão alcançar o capitalismo
perfeito através da simples troca do sujeito sujeitado da ciência,
ficando esta sempre impensada.
Ora, a Modernidade é antes de tudo uma cultura em cujo âmago
vive a ciência com o seu inesgotável poder de cálculo
de todas as coisas deste e doutros mundos, levado às últimas
conseqüências. Se insistirmos em abdicar de pensá-la,
deixando-a à vontade para pensar-nos, como contemporaneamente acontece
por toda parte - em todas as universidades, em todas as logias -,
é porque não nos interessa mesmo a salvação,
qualquer que esta possa ser.
Vimos também que poucos conseguiram até hoje ultrapassar
os estreitos limites da crítica ideológica, excetuando-se,
primeiro, Heidegger e, depois, pela via inversa, a Escola de Frankfurt.
Entretanto, não foram eles longe o suficiente para se constituírem
como verdadeiras instâncias críticas da cultura e, por conseqüência,
também da ciência. A nosso juízo, não se pode
pretender chegar à crítica da Modernidade sem um pensamento
resoluto disposto a medir-se com a ciência, não obviamente
naquilo que respeita a seus métodos e resultados, mas quanto à
sua significação e, sobretudo, as suas ardilosas
promessas.
Heidegger chamou nossa atenção para o fato que os descaminhos
da filosofia já vinham de bem longe, ainda de sua época
grega: com Parmênides o logos se degradava em lógica
transcendental (I), com Platão, em lógica dialética
(I/D), com Aristóteles em lógica formal (D/D=D/²). Tudo
isto veio se repetir, tintim por tintim, lógica por lógica,
na Modernidade com as filosofias de Kant, Hegel e Leibniz, respectivamente.
Que era então o logos heraclítico que a própria
filosofia paradoxalmente desconhecia? No referencial ali tacitamente assumido,
nada mais, nada menos do que o pensar da diferença (D) [30].
Hoje, na era da ciência e da técnica, sob o império
da lógica da dupla diferença (D/D) - que precisamente por
ser tal é lógica da diferença recalcada -, pleitear
o retorno ao logos heraclítico, ou mesmo à só
palavra poética, é se colocar à espera de um deus
que se crê infantilmente vá um dia se arrepender e voltar.
É fazer tábua rasa, igualmente, de mais do que 2000 anos
de história, não apenas da filosofia, mas da humanidade concreta
no inexorável e penoso curso de seu auto-desvelamento. No imaginário
e na prática, a pior das emendas!
O esforço heideggeriano de denúncia da essência metafísica
da técnica (da ciência, preferiríamos nós),
que acaba sendo também a denúncia dos limites da crítica
ideológica da Modernidade, embora insuficiente, não será
entretanto perdido se vier contribuir para que a filosofia reconquiste
seu vigor originário grego. Isto implicaria avançar ao invés
de retroceder; implicaria hoje na assunção, entre outras
coisas, de um poderio hiperdialético qüinqüitário
que a capacite para a urgente e imprescindível tarefa de crítica
radical da cultura, em especial, da cultura Moderna.
E a ciência? Da ciência, não há o que se esperar.
Jamais tivemos ou poderemos ter uma crítica científica da
Modernidade. Mesmo a antropologia já se declarou, pela voz de seus
maiores e com ares de sonsa gravidade, preventivamente, como sendo o saber
das culturas em desaparecimento, vazando assim os próprios olhos
para não ver que não era o destino, mas sua própria
cultura que perpetrava tal extermínio em escala planetária.
Como poderia estar a ciência disposta à crítica profunda
da Modernidade se é ela própria o seu fundamento? Em tal
circunstância, a crítica da Modernidade se constituiria em
auto-crítica da ciência (diga-se de passagem, incompatível
com sua própria lógica, onde vige o princípio da falsa
identidade [31]).
É óbvio que esta não é sua tarefa; trata-se
sobretudo de uma tarefa para o Pensamento (tomado em sua acepção
máxima mundana, ou seja, lógico-qüinqüitária).
Não há mais qualquer outra alternativa para um efetivo exercício
crítico radical da Modernidade senão se postar à quinta
margem do rio - não falamos do rio temperado e montanhoso de Heráclito,
dialético trinitário, mas coerentemente de um rio amazônico
bem mais caudaloso, porque hiperdialético qüinqüitário
-, de onde se pode espiar o homem cansado e sofrido mas chegando e se achegando
enfim a sua morada, à sua própria plenitude onto-lógica.

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