CRÍTICA DA MODERNIDADE

Luiz Sergio Coelho de Sampaio
 
ee-001004.00[1](07/08/1999)



Notas

[1]  SAMPAIO, L. S. C. de. Noções de antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, 1996. Alternativamente, pelo mesmo autor, o vídeo Antropologia cultural, I, II, III e IV, Rio de Janeiro, EMBRATEL/ UAB, 1993. 

[2]  As expressões I, D, I/D etc. são apenas uma taquigrafia, uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por " / ". Teríamos, então, I/D (lógica dialética), D/D=D/² (lógica clássica), I/D/D=I/D/² (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. Na esfera mundana, a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, Luiz Sergio C. de,  Noções de antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, 1996 (xerografado) ou BARBOSA, M. C. As Lógicas. Rio de Janeiro, Makron Books, 1998.
É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. Elas aqui estão porque  acreditamos que alguém, desde que não as tema, possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático.

[3]  SAMPAIO, Noções de Antropo-logia  e Vídeos já citados

[4] Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica, num sentido bem preciso de que são culturas que operam  logicamente, porém, não se dão conta que o fazem, isto é, não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza, cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. Ademais, se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. Aliás, uma polêmica cheia de veneno e má fé, tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica, mas como dotado de uma outra lógica, aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como, precisamente,  logique du sentiment

[5] Car la différrence des deux hommes en presence est que l'un, l'homme trinitaire, acceptait la mort, faisait de la représentation de la mort dans la vie le fondement de son ordre symbolique et du lien social, alors que l'autre, l'homme binaire, veut en fin de compte l'érradication de la mort. (negritos nossos) DUFOUR, D-R. Les mystères de la trinité. Paris, Gallimard, 1990.
Leia-se trinitaire como cultura lógico-dialética trinitária e binaire como cultura lógico formal ou moderna. O que este autor não chega a perceber é que a erradicação da morte (biológica) é uma artimanha da Modernidade, por via de sua técnica, para simular a presença do homem lógico-qüinqüitário já em seu seio, de prometer a vida eterna onde impera.

[6] MORSE, R. M. O Espelho de Próspero, Cultura e Idéias nas Américas. S. Paulo, Companhia das Letras, 1988. 

[7] SAMPAIO, Noções de Antropo-logia  e Vídeos já citados. 

[8] É  importante  atentar  que  aqui  o termo perversão, do ponto de vista lógico, está sendo usado no sentido inverso daquele que ele tem na psiquiatria e na psicanálise. Nestas últimas, perverso é o sujeito (I) que  aceita a lei (D/²) desde que esta seja a sua própria. Entretanto, nada há de errado nesta inversão; ela é, pelo contrário, bastante coerente na medida em que tal inversão é a exata contrapartida da mudança de ponto de vista, do social (sócio-cultural) para o individual (psíquico). 

[9] BENJAMIN, W. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas, v. 1. S. Paulo, Brasiliense, 1985.   p. 196.

[10] Enquanto concentramos nossa atenção acadêmica nas novelas, desenrola-se na TV, diariamente, o combate da Ciência contra a Religião. É eletrizante e interessa (inconscientemente) a todos, à exclusão dos suicidas, naturalmente. Em jogo, a vida eterna. Enquanto a Religião, cautelosa, pois até hoje só pode proclamar um único sucesso, promete-a para depois de, a Ciência, com sua tática de ir pouco a pouco amealhando adiamentos, tomada pela soberba, promete-a assintoticamente ao invés de

[11] Não  é  por  acaso  que  Heidegger, em suas manifestações públicas no início e no fim  de carreira, refere-se a Abrahan de Sancta Clara, herói da resistência à penetração islâmica na Alemanha. FARIAS, Victor.  Heidegger et le nazisme. Paris, Verdier, 1987

[12] "And in 1800 in Frankfurt am Main, with its Jewish  population of six hundred families, most of them living in the squalid Judengass, 43 per cent of the entire jewish capital was owned by sixty families, who in turn controlled the twelve largest investiment firms in the city. Indeed, Frankfurt may well be termed the cradle of  Jewish finance in Europe." SACHAR, Howard M. , The Course of Modern Jewish History. N. York, Delta Book, 1977. O trecho acima foi tirado do capítulo VI, justamente intitulado Jewish Economic Life and the Frankfurt Tradition. p.123. 

[13] Hegel a Francfort de Bernard Bourgeois, Paris, J. Vrin, 1970. Trata-se de um estudo acerca dos textos sobre o cristianismo e o judaísmo elaborados por Hegel em sua estadia em Frankfurt. Apenas levados por este estudo, fomos aos textos de Hegel e daí direto a procurar algum estudo sobre o que estavam fazendo os judeus lá, para provocar tamanha ira ao nosso filósofo. Ajudados por nosso amigo Nelson Kuperman, encontramos diversas obras, porém a mais importante delas para o que nos interessava foi a de Sachar, já citada na nota anterior. 

[14] Referência a Georges Sorel. A propósito,  ver  Sternhell, Sznajder, e Ashéri, Naissance de l'idéologie fasciste, Paris, Gallimard, 1989.

[15] Dentro  de  uns  200 anos  - ou  menos,  se tivermos  sorte  -,  existirão museus de horrores onde serão exibidas as peças promocionais que hoje infestam os nossos "meios de comunicação". Ninguém estará mais interessado nos instrumentos de tortura corporal da cultura cristã medieval (I/D), mas nos instrumentos psíquicos de apropriação do imaginário alheio usados pelos  psicovampiros da cultura da Modernidade que havia já sido superada. 

[16] Ficamos simplesmente perplexos quando se levanta a questão de uma filosofia brasileira e logo acorrem os defensores da "filosofia perene" dizendo que isto não faz sentido, pois tal aproximação conspurcaria a nobre filosofia. Como sustentar tal posição diante do cortejo de filósofos alemães - Fichte, Schelling, Hegel, Nietzsche, Heidegger e Habermas, só para ficar com os mais importantes -, cada um deles com seu, mais ou menos explícito, Discurso à Nação Alemã debaixo do braço?! Isso lá acontece porque sabem que, dentre as mais relevantes tarefas da filosofia, hoje que não somos mais gregos, é a crítica da cultura em que o próprio filósofo está imerso (Cassirer). E é precisamente isto que faz "amarelar" os nossos.

[17] Essa Europa. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma, se encontra hoje entre dois grandes tenazes, com a Rússia de um lado e a América de outro. Rússia e América, consideradas metafisicamente, são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado técnicamente e explorado economicamente; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez; quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio poder ser "vivido" simultaneamente; quando tempo significar apenas rapidez,  instantaneidade e simultaneidade e o tempo, como História, houver desaparecido da existência de todos os povos; quando o pugilista valer, como o grande homem de um povo; quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo, - então, justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração, como um fantasma, a pergunta: para quê? para onde? e o que agora?
Estamos entre tenazes. A Alemanha, estando no meio , suporta a maior pressão das tenazes. É o povo que tem mais vizinhos e, desse modo, o mais ameaçado, mas, em tudo isso é o povo metafísico.
Isso implica e exige , que esse povo ex-ponha Historicamente a si mesmo e a História do Ocidente, a partir do cerne de seu acontecimento futuro, ao domínio originário das potências do Ser.

HEIDEGGER, M.
Introdução à metafísica. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1966. pp. 79-80.

[18] FARIAS, Victor.  Heidegger et le nazisme. Paris, Verdier, 1987

[19] Podemos exemplificar: para que um homem consiga voar, não lhe basta um profundo conhecimento de aerodinâmica (D/D= D/²); lhe é necessária também a firme determinação de fazê-lo (I). O avião, depois de pronto e voando, é de novo simples saber, saber materializado (D/²).

[20] O ser humano é de nível  lógico  I/D/² , lógica que subsume, além de si própria, as que lhe antecedem: I, D, I/D, D/², estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Isto leva a que no ser humano a  "sexuação"  biológica  venha  a ser  re-definida, deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta), como nos outros animais, para tornar-se  tetrapolar  (representável por um quadrado).  O par diagonal {I, D/²}designa o masculino e o par diagonal   {I/D, D } o feminino; e como  (I)/(D/² ) = I/D/² , tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/², conclui-se, imediatamente, que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/²).

[21] Esta e as próximas citações provêm todas de HEIDEGGER, M.  Lógica - Lecciones de M. Heidegger (semestre verano 1934) en el legado de Helene Weiss. Barcelona, Anthropos, 1991. p. 77

[22] ibid. p. 43 

[23] ibid. p. 43 

[24] ibid. p. 75 

[25] ibid. p. 73 

[26] Tudo  isto  deve  se  constituir  numa  inestimável lição para todos nós brasileiros, que vivenciamos uma posição excêntrica em relação à cultura paradigmática anglo-saxônica, embora de um outro tipo que a dos alemães de então. Isto nos dá certas vantagens, mas também nos torna vítimas potenciais desta mesma excentricidade. É uma vantagem, uma enorme vantagem como pressente qualquer estrangeiro de sensibilidade que aqui aporta, mas que não é, definitivamente, uma "vantagem econômico-competitiva" como, ao terem notícia, irão certamente acreditar nossos "sociais-democrtas".

[27] ROUDINESCO, Elisabeth, Jacques Lacan - Esquisse d'une vie, histoire d'un système de pensée, Paris, Fayard, 1993. A autora fornece informações suficientes para que acreditemos numa forte rejeição de Heidegger às idéias, como até mesmo à pessoa de Lacan.

[28] KORTIAN, Garbis. Metacritique - The Philosophical Argument of Jürgen Habermas. Cambridge, Cambridge UP , 1980. p. 25

[29] Ibid. p. 43

[30] SAMPAIO, L. S. C. de, A Lógica da Diferença, Rio de Janeiro, 1999.

[31] O verdadeiro e óbvio princípio da identidade é A(A(x)=A(x)), que traduz justamente a propriedade de reflexibilidade e, em conseqüência, a possibilidade do exercício da auto-crítica. Na lógica clássica este princípio é escamoteado e substituído por sua múmia, a identidade "estática"  A(x) = A(x) ou abreviadamente A=A.



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