3 - As realizações
da síntese hiperdialética
Poder-se-ia imaginar que fosse possível
seguir a "construção" no mesmo sentido que veio tendo até
aqui, vale dizer, supondo que se pudesse, de certa maneira, retornar ao
processo dialético tradicional na forma de um terceiro ciclo cujos
momentos seriam então I/D, D/2 e I/D/2. Há,
entretanto, sólidos argumentos para mostrar que não é
este o caso, que esta síntese nos é proibida. Dentre estes,
avancemos, por enquanto, apenas um: a síntese de I/D com D/2,
caso D/2 seja, como realmente é, irredutível a
D, não nos leva a I/D/2, mas a (I/D)/(D/2)
= I/D/3, uma lógica que manifestamente transcende a capacidade
operatória humana, que, como se pode vivencialmente constatar, cinge-se
tão apenas a I/D/2 [
7]. Não negamos que pessoas ou grupos humanos
convençam-se de que isto é possível e assumam-se mesmo
sujeitos desta síntese, deixando-se assim arrastar num processo
lógico-delirante. Acreditamos até que este seja o pressuposto
fundamental para explicar determinadas sintomáticas comportamentais,
assim como a premissa de certos projetos ideológicos. Para não
desviarmo-nos do curso de nosso raciocínio, deixamos este assunto
por hora, voltando a ele mais adiante.
A proibição da síntese
direta de I/D/2 a partir de I/D e D/2 é um
fato de excepcional importância pois ela evidencia, de modo flagrante,
quão mais complexa é a lógica qüinqüitária
vis-à-vis a lógica trinitária; isto se traduz, metaforicamente,
pela necessidade de que nossa representação figurativa tenha
que deixar o plano (onde pode desenvolver-se ilimitadamente a série
de triângulos articulados) para desenvolver-se no espaço
(onde pode, sim, caber a forma piramidal). Desta sorte, somos naturalmente
levados à figura d.
Fica aí patente que a síntese
lógico-qüinqüitária I/D/2 apresenta
dois modos complementares independentes de realização. Um,
pela síntese da lógica da identidade I com a lógica
clássica D/2, ou seja, (I)/(D/2) = (I/D/2)m
, que vamos denominar pseudo-síntese dialética masculina;
outro, pela síntese da lógica dialética I/D com a
lógica da simples diferença D, ou seja, (I/D)/(D) = (I/D/2)f
, que ganha aqui a denominação de pseudo-síntese
dialética feminina.
A introdução do prefixo
pseudo justifica-se em razão de que, embora se esteja de
fato diante de um processo verdadeiramente sintético (e não
apenas formal ou de articulações externas), ele não
leva a uma completa e definitiva totalização. Até
pelo contrário, as duas sínteses aludidas têm caráter
apenas parcial, seu resultado permanecendo, ao mesmo tempo, fechado
e aberto, radicalmente incompleto, enfim, desejante. Assim
são, bem sabemos, lógica e vivencialmente, o masculino e
o feminino.
Figura d - Pseudo sínteses masculina
e feminina

A pseudo-síntese masculina -
partindo de I, negada por D/2, e ambas re-negadas, resultando
num dos modos de realização de I/D/2 - representa
a vertente superficial dos processos qüinqüitários.
É a realização lógica superficial, como progresso,
como permanente transcendência (I) dos sistemas científico-burocráticos
(D/2). Contrastando com ela, temos a pseudo-síntese feminina
- partindo de I/D, negada por D, e ambas conjuntamente re-negadas, vindo
constituir a vertente profunda da realização dos processos
qüinqüitários, agora, como verdadeiramente histórico
- dialética (I/D) das culturas ou das mentalidades
(D). Isto vale para todos os processos irredutivelmente humanos e como
exemplo príncipe, daríamos aquele da discursividade. No jargão
lacaniano, a vertente superficial masculina seria representada pelo que
se impõe: o sujeito da enunciação (I) e o dito
(D/2); em contraposição, teríamos uma
vertente feminina profunda, representada pelo que se dis-põe: o
inter-dito (D) e o que, pela abrupta interrupção do
dito, fica para sempre adiado, o não-dito (I/D). O discurso,
em sua globalidade, estaria então representado pela síntese
I/D/2. Daí, porque pôde Lacan [8]
audaciosamente afirmar o óbvio: que masculino e feminino são
os dois modos possíveis de inserção no discurso.
A existência de duas realizações
sintéticas complementares mas não plenamente totalizadas
de I/D/2 obriga-nos a concluir que a lógica I/D/2
é, efetivamente, a lógica síntese de I, D, I/D, D/2
- as chamadas lógicas de base (base da pirâmide representativa
de I/D/2) -, conquanto sua completa realização
tenha que ser imperativamente mediada pelas duas pseudo-sínteses
mencionadas.
Há aqui um importante alerta
a fazer. Não se deve concluir apressadamente que a realização
daquilo que é visado pela dialética qüinqüitária
implique apenas na co-presença de um par de entes; isto seria
reduzir o par humano masculino/feminino ao par macho/fêmea animal.
A realização própria à lógica I/D/2
se dá no mínimo em três, porque três
é o número de seus valores próprios, conforme
detalhadamente exposto em Lacan et les logiques [9].
Ainda que quiséssemos insistir numa interpretação
estreitamente sexual da questão, seria necessário pressupor
um terceiro (visto que é da essência desta lógica,
que só o quarto seja logicamente redundante, por isso, radicalmente
excluído) [10].
Pode ser ele o rival, o preterido, o proibido, o esperado, o substituído,
ou, até mesmo, um ou outro especularmente duplicado, pouco importa.
A esta altura já não
seria mais precipitado concluirmos acerca da bem maior complexidade da
dialética qüinqüitária em relação
à dialética trinitária, estribados no que nos foi
dado ver até aqui, onde enfatizaríamos:
a) a impossibilidade de
prosseguirmos maquinalmente no sentido construtivo que vai da síntese
dialética à síntese contra-dialética;
b) a obrigatoriedade de
deixarmos a bi-dimensionalidade (plano) pela tri-dimensionalidade (espaço)
a fim de que possamos dar conta da adequada representação
figurativa de I/D/2;
c) a necessária
intervenção mediadora das pseudo-sínteses masculina
e feminina na realização plena de I/D/2. Partindo-se
da hipótese bastante verossímil de que I/D/2 é
o máximo em termos de pensar e ser mundanos, tem-se a exata medida
da significação cósmica do amor humano, o que,
diga-se de passagem, já foi intuído por todas as culturas,
à exceção talvez da nossa (daí, porque Freud
e Lacan parecerem sempre tão escandalosos).
É preciso atentar, também,
que não se trata apenas de uma maior complexidade espacial,
em termos de número de elementos e relações estruturais,
mas de algo de igual ou maior importância, que poderíamos
denominar complexidade temporal ou processual; enquanto o
processo dialético trinitário é continuamente ascendente,
o processo dialético qüinqüitário só o é
globalmente, admitindo retrocessos, bivaques e mesmo desconstruções
contingentes e parciais. Entrementes, nada disso podendo quebrar o seu
vigor ascensional, a sua recôndita destinação, não
fosse ela a lógica que governa o processo de realização
do ser humano em busca da plenitude!
Haveria ainda um outro modo de encarar
a relação entre as dialéticas trinitária e
qüinqüitária, que buscamos ilustrar na figura e.
Nesta, que representa a dialética qüinqüitária
em sua globalidade, pode-se discernir uma sub-estrutura que identificamos,
de imediato, como aquela da lógica dialética trinitária:
I, D, I/D. A dialética qüinqüitária pode agora
ser concebida como uma síntese dialético-trinitária
da lógica transcendental ou da identidade (I), ocupando a própria
posição identitária I, com a lógica
dialética (I/D), ocupando o lugar do identitariamente outro, isto
é, a posição diferencial D; a negação/recolhimento
de ambas marcaria a posição sintética I/D,
a ser ocupada, então, por (I/D/2). Seria isto conceber
as lógicas I, I/D e I/D/2 como membros de uma família
- a família das lógicas da identidade, ou o que é
o mesmo, das dialéticas generalizadas - onde I passaria a ser considerada
como o degrau zero da dialeticidade (posto que I/D/0
= I/I = I). A propósito, é interessante recordar que as lógicas
I, I/D e I/D/2 constituem a seqüência das estruturas
onto-lógicas, respectivamente, fenomênica, objetiva
e subjetiva [11],
na qual se observa o ser-objetivo negativamente posicionado em relação
ao ser-fenomênico e, junto com este último, subsumidos pelo
ser-subjetivo. Tudo isto, a nosso juízo, só vem reforçar
a nossa interpretação de que I/D/2 também
resulta de uma síntese dialética em que a estrutura dialética
tradicional I/D funciona como momento negativo ou diferencial. Aliás,
não é precisamente isto que reclamam os próprios filósofos
dialéticos, em particular, os marxistas, quando reivindicam para
sua lógica o caráter objetivista (não subjetivista)
e materialista (não idealita)?!
Em suma, a lógica qüinqüitária
I/D/2 se nos afiguraria como uma síntese dialética
da lógica da identidade I e da própria lógica dialética
I/D, daí a escolha do termo hiperdialética para também
denominá-la - hiperdialética como dialética da dialética,
ou dialética das dialéticas generalizadas.
Figura e - Dialética versus
hiper-dialética

Encontramos um exemplo bastante expressivo
desta interpretação da lógica qüinqüitária
como hiperdialética na história da cultura. É unânime
que se considere a cultura cristã - trinitária, portanto,
I/D - como uma síntese dialética da cultura monoteísta
judaica (I) e da cultura pagã greco-romana (D); os fatos históricos
que se vão progressivamente desvelando, só o fazem, mais
e mais, referendar.
Pois bem, há uma concepção
de história solidária com a cultura judaica que chamaríamos
história unária, história como destinação,
em relação à qual a atitude demandada, tanto coletiva
como individual, só pode ser a fé. Em contraposição,
temos o cristianismo (não obviamente o da Cúria, mas o originário
ou patrístico) comprometido com uma concepção que
denominaríamos história trinitária, história
como processo e "peripécias" em relação à qual
a atitude autêntica é o engajamento extático.
É esta também a concepção marxista herdeira
do hegelianismo, bastando que se substitua o engajamento ideal ou espiritual
por um engajamento material ou político. Daí ser possível
entrever uma nova concepção de história, a hiperdialética,
como síntese dialética das duas concepções
anteriores: uma história que nega a pura e pétrea fé,
mas a conserva, nega o puro e cego engajamento, mas também o preserva;
ambos sendo, entretanto, requeridos como atitudes autênticas relativamente
a algo que é, ao mesmo tempo, história de destinação
e história processual, enfim, história qüinqüitária.
A propósito, é precisamente
esta a concepção de história de que carecemos para
podermos enxergar uma saída para a cultura moderna (D/2)
que, sentindo-se já no seu ocaso, auto-proclama-se, impudente, pós-modernidade
e estação final da história. Há uma saída
e ela não está no plano, nem à esquerda nem
à direita, mas "acima", no espaço, no advento de uma
cultura nova de nível lógico I/D/2.

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