DIALÉTICA TRINITÁRIA VERSUS HIPERDIALÉTICA QÜINQÜITÁRIA

Luiz Sergio Coelho de Sampaio
Dezembro, 1995.
ee-001005.00[1](27/08/1999)



3 - As realizações da síntese hiperdialética

Poder-se-ia imaginar que fosse possível seguir a "construção" no mesmo sentido que veio tendo até aqui, vale dizer, supondo que se pudesse, de certa maneira, retornar ao processo dialético tradicional na forma de um terceiro ciclo cujos momentos seriam então I/D, D/2 e I/D/2. Há, entretanto, sólidos argumentos para mostrar que não é este o caso, que esta síntese nos é proibida. Dentre estes, avancemos, por enquanto, apenas um: a síntese de I/D com D/2, caso D/2 seja, como realmente é, irredutível a D, não nos leva a I/D/2, mas a (I/D)/(D/2) = I/D/3, uma lógica que manifestamente transcende a capacidade operatória humana, que, como se pode vivencialmente constatar, cinge-se tão apenas a I/D/2 [ 7]. Não negamos que pessoas ou grupos humanos convençam-se de que isto é possível e assumam-se mesmo sujeitos desta síntese, deixando-se assim arrastar num processo lógico-delirante. Acreditamos até que este seja o pressuposto fundamental para explicar determinadas sintomáticas comportamentais, assim como a premissa de certos projetos ideológicos. Para não desviarmo-nos do curso de nosso raciocínio, deixamos este assunto por hora, voltando a ele mais adiante.

A proibição da síntese direta de I/D/2 a partir de I/D e D/2 é um fato de excepcional importância pois ela evidencia, de modo flagrante, quão mais complexa é a lógica qüinqüitária vis-à-vis a lógica trinitária; isto se traduz, metaforicamente, pela necessidade de que nossa representação figurativa tenha que deixar o plano (onde pode desenvolver-se ilimitadamente a série de triângulos articulados) para desenvolver-se no espaço (onde pode, sim, caber a forma piramidal). Desta sorte, somos naturalmente levados à figura d.

Fica aí patente que a síntese lógico-qüinqüitária I/D/2 apresenta dois modos complementares independentes de realização. Um, pela síntese da lógica da identidade I com a lógica clássica D/2, ou seja, (I)/(D/2) = (I/D/2)m , que vamos denominar pseudo-síntese dialética masculina; outro, pela síntese da lógica dialética I/D com a lógica da simples diferença D, ou seja, (I/D)/(D) = (I/D/2)f , que ganha aqui a denominação de pseudo-síntese dialética feminina.

A introdução do prefixo pseudo justifica-se em razão de que, embora se esteja de fato diante de um processo verdadeiramente sintético (e não apenas formal ou de articulações externas), ele não leva a uma completa e definitiva totalização. Até pelo contrário, as duas sínteses aludidas têm caráter apenas parcial, seu resultado permanecendo, ao mesmo tempo, fechado e aberto, radicalmente incompleto, enfim, desejante. Assim são, bem sabemos, lógica e vivencialmente, o masculino e o feminino.

Figura d - Pseudo sínteses masculina e feminina

A pseudo-síntese masculina - partindo de I, negada por D/2, e ambas re-negadas, resultando num dos modos de realização de I/D/2 - representa a vertente superficial dos processos qüinqüitários. É a realização lógica superficial, como progresso, como permanente transcendência (I) dos sistemas científico-burocráticos (D/2). Contrastando com ela, temos a pseudo-síntese feminina - partindo de I/D, negada por D, e ambas conjuntamente re-negadas, vindo constituir a vertente profunda da realização dos processos qüinqüitários, agora, como verdadeiramente histórico - dialética (I/D) das culturas ou das mentalidades (D). Isto vale para todos os processos irredutivelmente humanos e como exemplo príncipe, daríamos aquele da discursividade. No jargão lacaniano, a vertente superficial masculina seria representada pelo que se impõe: o sujeito da enunciação (I) e o dito (D/2); em contraposição, teríamos uma vertente feminina profunda, representada pelo que se dis-põe: o inter-dito (D) e o que, pela abrupta interrupção do dito, fica para sempre adiado, o não-dito (I/D). O discurso, em sua globalidade, estaria então representado pela síntese I/D/2. Daí, porque pôde Lacan [8] audaciosamente afirmar o óbvio: que masculino e feminino são os dois modos possíveis de inserção no discurso. 

A existência de duas realizações sintéticas complementares mas não plenamente totalizadas de I/D/2 obriga-nos a concluir que a lógica I/D/2 é, efetivamente, a lógica síntese de I, D, I/D, D/2 - as chamadas lógicas de base (base da pirâmide representativa de I/D/2) -, conquanto sua completa realização tenha que ser imperativamente mediada pelas duas pseudo-sínteses mencionadas.

Há aqui um importante alerta a fazer. Não se deve concluir apressadamente que a realização daquilo que é visado pela dialética qüinqüitária implique apenas na co-presença de um par de entes; isto seria reduzir o par humano masculino/feminino ao par macho/fêmea animal. A realização própria à lógica I/D/2 se dá no mínimo em três, porque três é o número de seus valores próprios, conforme detalhadamente exposto em Lacan et les logiques [9]. Ainda que quiséssemos insistir numa interpretação estreitamente sexual da questão, seria necessário pressupor um terceiro (visto que é da essência desta lógica, que só o quarto seja logicamente redundante, por isso, radicalmente excluído) [10]. Pode ser ele o rival, o preterido, o proibido, o esperado, o substituído, ou, até mesmo, um ou outro especularmente duplicado, pouco importa.

A esta altura já não seria mais precipitado concluirmos acerca da bem maior complexidade da dialética qüinqüitária em relação à dialética trinitária, estribados no que nos foi dado ver até aqui, onde enfatizaríamos:

   a) a impossibilidade de prosseguirmos maquinalmente no sentido construtivo que vai da síntese dialética à síntese contra-dialética;

   b) a obrigatoriedade de deixarmos a bi-dimensionalidade (plano) pela tri-dimensionalidade (espaço) a fim de que possamos dar conta da adequada representação figurativa de I/D/2;

   c) a necessária intervenção mediadora das pseudo-sínteses masculina e feminina na realização plena de I/D/2. Partindo-se da hipótese bastante verossímil de que I/D/2 é o máximo em termos de pensar e ser mundanos, tem-se a exata medida da significação cósmica do amor humano, o que, diga-se de passagem, já foi intuído por todas as culturas, à exceção talvez da nossa (daí, porque Freud e Lacan parecerem sempre tão escandalosos).

É preciso atentar, também, que não se trata apenas de uma maior complexidade espacial, em termos de número de elementos e relações estruturais, mas de algo de igual ou maior importância, que poderíamos denominar complexidade temporal ou processual; enquanto o processo dialético trinitário é continuamente ascendente, o processo dialético qüinqüitário só o é globalmente, admitindo retrocessos, bivaques e mesmo desconstruções contingentes e parciais. Entrementes, nada disso podendo quebrar o seu vigor ascensional, a sua recôndita destinação, não fosse ela a lógica que governa o processo de realização do ser humano em busca da plenitude!

Haveria ainda um outro modo de encarar a relação entre as dialéticas trinitária e qüinqüitária, que buscamos ilustrar na figura e. Nesta, que representa a dialética qüinqüitária em sua globalidade, pode-se discernir uma sub-estrutura que identificamos, de imediato, como aquela da lógica dialética trinitária: I, D, I/D. A dialética qüinqüitária pode agora ser concebida como uma síntese dialético-trinitária da lógica transcendental ou da identidade (I), ocupando a própria posição identitária I, com a lógica dialética (I/D), ocupando o lugar do identitariamente outro, isto é, a posição diferencial D; a negação/recolhimento de ambas marcaria a posição sintética I/D, a ser ocupada, então, por (I/D/2). Seria isto conceber as lógicas I, I/D e I/D/2 como membros de uma família - a família das lógicas da identidade, ou o que é o mesmo, das dialéticas generalizadas - onde I passaria a ser considerada como o degrau zero da dialeticidade (posto que I/D/0 = I/I = I). A propósito, é interessante recordar que as lógicas I, I/D e I/D/2 constituem a seqüência das estruturas onto-lógicas, respectivamente, fenomênica, objetiva e subjetiva [11], na qual se observa o ser-objetivo negativamente posicionado em relação ao ser-fenomênico e, junto com este último, subsumidos pelo ser-subjetivo. Tudo isto, a nosso juízo, só vem reforçar a nossa interpretação de que I/D/2 também resulta de uma síntese dialética em que a estrutura dialética tradicional I/D funciona como momento negativo ou diferencial. Aliás, não é precisamente isto que reclamam os próprios filósofos dialéticos, em particular, os marxistas, quando reivindicam para sua lógica o caráter objetivista (não subjetivista) e materialista (não idealita)?!

Em suma, a lógica qüinqüitária I/D/2 se nos afiguraria como uma síntese dialética da lógica da identidade I e da própria lógica dialética I/D, daí a escolha do termo hiperdialética para também denominá-la - hiperdialética como dialética da dialética, ou dialética das dialéticas generalizadas.

Figura e - Dialética versus hiper-dialética

Encontramos um exemplo bastante expressivo desta interpretação da lógica qüinqüitária como hiperdialética na história da cultura. É unânime que se considere a cultura cristã - trinitária, portanto, I/D - como uma síntese dialética da cultura monoteísta judaica (I) e da cultura pagã greco-romana (D); os fatos históricos que se vão progressivamente desvelando, só o fazem, mais e mais, referendar.

Pois bem, há uma concepção de história solidária com a cultura judaica que chamaríamos história unária, história como destinação, em relação à qual a atitude demandada, tanto coletiva como individual, só pode ser a fé. Em contraposição, temos o cristianismo (não obviamente o da Cúria, mas o originário ou patrístico) comprometido com uma concepção que denominaríamos história trinitária, história como processo e "peripécias" em relação à qual a atitude autêntica é o engajamento extático. É esta também a concepção marxista herdeira do hegelianismo, bastando que se substitua o engajamento ideal ou espiritual por um engajamento material ou político. Daí ser possível entrever uma nova concepção de história, a hiperdialética, como síntese dialética das duas concepções anteriores: uma história que nega a pura e pétrea fé, mas a conserva, nega o puro e cego engajamento, mas também o preserva; ambos sendo, entretanto, requeridos como atitudes autênticas relativamente a algo que é, ao mesmo tempo, história de destinação e história processual, enfim, história qüinqüitária.

A propósito, é precisamente esta a concepção de história de que carecemos para podermos enxergar uma saída para a cultura moderna (D/2) que, sentindo-se já no seu ocaso, auto-proclama-se, impudente, pós-modernidade e estação final da história. Há uma saída e ela não está no plano, nem à esquerda nem à direita, mas "acima", no espaço, no advento de uma cultura nova de nível lógico I/D/2.



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