DIALÉTICA TRINITÁRIA VERSUS HIPERDIALÉTICA QÜINQÜITÁRIA

Luiz Sergio Coelho de Sampaio
Dezembro, 1995.
ee-001005.00[1](27/08/1999)



4 - O perigos das extrapolações descontroladas

É agora o momento prometido de retomarmos à questão da proibição da extensão do processo simplesmente dialético para além do ciclo contra-dialético, ou seja, da consideração de um hipotético terceiro ciclo contr-contra-dialético, formado por I/D, D/2, I/D/2. Já adiantamos que tal síntese não nos levaria à lógica I/D/2, mas a uma lógica trans-humana I/D/3, visto que (I/D)/(D/2) = I/D/3. Ver figura f

Figura f - Dialética delirante

Em que pese a interdição, há certamente os que tentam violá-la, ainda que inconscientemente. Quem seriam eles?

Não é difícil identificar quais seriam estes transgressores lógico-delirantes. Sabemos que a modernidade - preferimos este título àquele de sociedade capitalista - caracteriza-se, na superfície, pela assunção e absolutização de lógica da dupla diferença (D/2) - lógica da racionalidade formal, do cientificismo e das organizações burocráticas - tendo como complemento o sujeito intervalar, sujeito identitário (I) - cógito, sujeito liberal, sujeito da "livre iniciativa" [12].

Na fórmula absolutamente compacta de Richard Morse: ciência (D/2) e consciência (I) [13]. Ora uma das "possibilidades" de reação a esta modernidade paradigmática, não está jamais em negar a ciência, o que, a esta altura, seria fugir ao princípio da realidade, mas em deixar exorbitar o princípio do prazer, propondo a substituição do sujeito da ciência; ademais, invertendo o seu papel subordinado. Uma das "possibilidade" de fazê-lo seria trocar o sujeito liberal, individualista (I) pelo sujeito coletivo ou espírito comunitário, ou seja, por um sujeito (I/D). E ainda mais, fazendo com que ele deixasse de ser tributário ou intervalar à D/2, para situar-se, ilusoriamente, de modo dominante. De certo maneira não significa isto o mesmo que esquecer a especificidade de D/2, sua não redutibilidade a D, e, por conseqüência, sua superioridade lógico-hierárquica em relação a esta última?!

Os primeiros que se sentiram dispostos à transgressão foram os jesuítas, tolerados pela Hierarquia, naturalmente, enquanto apenas soldados da linha de frente contra-reformista. Depois vieram os marxistas armados com seu socialismo (I/D) científico (D/2), que, pelo visto, não os leva ao homem perfeito, mas a anjos e demônios, vale dizer, ao reino de I/D/3. Se atentarmos para o fato de que os modos de "sexuação" humanos se definem precisamente pelas diagonais da pirâmide I/D/2 - (I, D/2) para o masculino e (D, I/D) para o feminino - fica evidente que a síntese I/D/3 a partir do par (I/D, D/2), além de "sexuação" pretensamente de hierarquia superior, não pode se afirmar senão como recalcadora do modo prosaicamente humano, tal como esta insiste em se afirmar frente à sexualidade simplesmente animal. Hoje, depois de Freud e Lacan, isto não poderia estar mais claro. Nossa Senhora, aonde estamos?!

Ainda assim, prossigamos um pouco mais. O par (I/D, D/2), um dos modos sexuais de I/D/3 não é o único: ele se interpõe entre outros modos possíveis. Seriam eles, naturalmente, (I, D/3) e (I/D/2, D) que juntos com aquele formam a totalidade dos "sexos dos anjos", como facilmente se constata na figura g.

Também não é difícil retirar-lhes o resto do véu. Quem é único (I), onisciente e infalível por seu poder de tudo abarcar, visto que D/3 é a lógica imediatamente superior àquela de todos os homens (I/D/2)? 


Figura g - A sexualidade a nível I/D/3

É o grande guia, o grande mestre sentado em seu trono. O sexo (I/D, D/2) corresponde à sua entourage de escribas, burocratas, professores, parlamentares, seguranças e censores, todos, guardiões da ideologia sexo-delirante por eles mesmos inventada. Bem, (I/D/2, - ) são todos os outros, pobres mortais, o povo, a quem fica proibido o acesso ao seu próprio termo complementar, ou seja, à diferença (D). E a proibição se faz em nome da mais santa piedade, pois, D aí representaria o mal (ou o demônio, ou ainda, o inconsciente). Diminuído, castrado até em sua potencialidade delirante, resta-lhe, apenas, o humano, o demasiadamente humano (I/D/2).

Se levarmos em conta que a enorme distância entre os animais superiores (dotados de sistema nervoso central), de nível I/D, e os homens, de nível I/D/2, é a mesma que estaria aí vigendo entre estes mesmos homens e a vanguarda sexo-delirante assumida de nível I/D/3, podemos avaliar quantos riscos já corremos, e talvez ainda tenhamos obrigados a correr, caso venhamos a cair na mão destes salvadores. Isto, contudo, não impede que lhes devotemos uma certa simpatia, porque, confessadamente, jamais estivemos imunes a tais acessos delirantes, mormente quando nos defrontamos com a ameaça fascista, que é seu correlato simétrico [14]. Talvez, seja mesmo isto parte da própria condição humana na Modernidade.

Fica aqui uma seríssima advertência: a superação da Modernidade (ou do capitalismo como se queira) não passa, em absoluto, pela sua alternativa esquerdizante ou jesuítica, isto é, pela impossível síntese da lógica dialética (I/D) com a lógica científica (D/2), mas, sim, por algo menos pretensioso: a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2), necessariamente mediatizada pelas pseudo-sínteses masculina e feminina. Em outras palavras, não passa pela sexualidade delirante, e sim pelo que precisamos urgente reconquistar - o simples, tão próximo e acessível, amor humano.



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