4 - O perigos das extrapolações
descontroladas
É agora o momento prometido
de retomarmos à questão da proibição da extensão
do processo simplesmente dialético para além do ciclo contra-dialético,
ou seja, da consideração de um hipotético terceiro
ciclo contr-contra-dialético, formado por I/D, D/2, I/D/2.
Já adiantamos que tal síntese não nos levaria à
lógica I/D/2, mas a uma lógica trans-humana I/D/3,
visto que (I/D)/(D/2) = I/D/3. Ver figura f.
Figura f - Dialética delirante

Em que pese a interdição,
há certamente os que tentam violá-la, ainda que inconscientemente.
Quem seriam eles?
Não é difícil
identificar quais seriam estes transgressores lógico-delirantes.
Sabemos que a modernidade - preferimos este título àquele
de sociedade capitalista - caracteriza-se, na superfície, pela assunção
e absolutização de lógica da dupla diferença
(D/2) - lógica da racionalidade formal, do cientificismo
e das organizações burocráticas - tendo como complemento
o sujeito intervalar, sujeito identitário (I) - cógito,
sujeito liberal, sujeito da "livre iniciativa" [12].
Na fórmula absolutamente compacta
de Richard Morse: ciência (D/2) e
consciência (I) [13].
Ora uma das "possibilidades" de reação a esta modernidade
paradigmática, não está jamais em negar a ciência,
o que, a esta altura, seria fugir ao princípio da realidade, mas
em deixar exorbitar o princípio do prazer, propondo a substituição
do sujeito da ciência; ademais, invertendo o seu papel subordinado.
Uma das "possibilidade" de fazê-lo seria trocar o sujeito liberal,
individualista (I) pelo sujeito coletivo ou espírito comunitário,
ou seja, por um sujeito (I/D). E ainda mais, fazendo com que ele deixasse
de ser tributário ou intervalar à D/2, para situar-se,
ilusoriamente, de modo dominante. De certo maneira não significa
isto o mesmo que esquecer a especificidade de D/2, sua não
redutibilidade a D, e, por conseqüência, sua superioridade lógico-hierárquica
em relação a esta última?!
Os primeiros que se sentiram dispostos
à transgressão foram os jesuítas, tolerados pela Hierarquia,
naturalmente, enquanto apenas soldados da linha de frente contra-reformista.
Depois vieram os marxistas armados com seu socialismo (I/D) científico
(D/2), que, pelo visto, não os leva ao homem perfeito,
mas a anjos e demônios, vale dizer, ao reino de I/D/3.
Se atentarmos para o fato de que os modos de "sexuação" humanos
se definem precisamente pelas diagonais da pirâmide I/D/2
- (I, D/2) para o masculino e (D, I/D) para o feminino - fica
evidente que a síntese I/D/3 a partir do par (I/D, D/2),
além de "sexuação" pretensamente de hierarquia superior,
não pode se afirmar senão como recalcadora do modo prosaicamente
humano, tal como esta insiste em se afirmar frente à sexualidade
simplesmente animal. Hoje, depois de Freud e Lacan, isto não poderia
estar mais claro. Nossa Senhora, aonde estamos?!
Ainda assim, prossigamos um pouco mais.
O par (I/D, D/2), um dos modos sexuais de I/D/3 não
é o único: ele se interpõe entre outros modos possíveis.
Seriam eles, naturalmente, (I, D/3) e (I/D/2, D)
que juntos com aquele formam a totalidade dos "sexos dos anjos", como facilmente
se constata na figura g.
Também não é difícil
retirar-lhes o resto do véu. Quem é único (I), onisciente
e infalível por seu poder de tudo abarcar, visto que D/3
é a lógica imediatamente superior àquela de todos
os homens (I/D/2)?
Figura g - A sexualidade a nível
I/D/3

É o grande guia, o
grande mestre sentado em seu trono. O sexo (I/D, D/2) corresponde
à sua entourage de escribas, burocratas, professores, parlamentares,
seguranças e censores, todos, guardiões da ideologia sexo-delirante
por eles mesmos inventada. Bem, (I/D/2, - ) são todos
os outros, pobres mortais, o povo, a quem fica proibido o acesso ao seu
próprio termo complementar, ou seja, à diferença (D).
E a proibição se faz em nome da mais santa piedade, pois,
D aí representaria o mal (ou o demônio, ou ainda,
o inconsciente). Diminuído, castrado até em sua potencialidade
delirante, resta-lhe, apenas, o humano, o demasiadamente humano (I/D/2).
Se levarmos em conta que a enorme distância
entre os animais superiores (dotados de sistema nervoso central), de nível
I/D, e os homens, de nível I/D/2, é a mesma que
estaria aí vigendo entre estes mesmos homens e a vanguarda sexo-delirante
assumida de nível I/D/3, podemos avaliar quantos riscos
já corremos, e talvez ainda tenhamos obrigados a correr, caso venhamos
a cair na mão destes salvadores. Isto, contudo, não impede
que lhes devotemos uma certa simpatia, porque, confessadamente, jamais
estivemos imunes a tais acessos delirantes, mormente quando nos defrontamos
com a ameaça fascista, que é seu correlato simétrico
[14]. Talvez,
seja mesmo isto parte da própria condição humana na
Modernidade.
Fica aqui uma seríssima advertência:
a superação da Modernidade (ou do capitalismo como se queira)
não passa, em absoluto, pela sua alternativa esquerdizante ou jesuítica,
isto é, pela impossível síntese da lógica dialética
(I/D) com a lógica científica (D/2), mas, sim,
por algo menos pretensioso: a hiperdialética qüinqüitária
(I/D/2), necessariamente mediatizada pelas pseudo-sínteses
masculina e feminina. Em outras palavras, não passa pela sexualidade
delirante, e sim pelo que precisamos urgente reconquistar - o simples,
tão próximo e acessível, amor humano.

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