DIALÉTICA TRINITÁRIA VERSUS HIPERDIALÉTICA QÜINQÜITÁRIA

Luiz Sergio Coelho de Sampaio
Dezembro, 1995.
ee-001005.00[1](27/08/1999)



5 - Conclusões

Acreditamos que estejamos agora em condições de concluir acerca da comparação entre a dialética trinitária e a hiperdialética qüinqüitária. Não resta dúvida que a primeira, como anteriormente visto, tem garantida sua condição de "cidadania lógica" como modo específico de visar o símbolo ou idéia platônica, bem como a História no seu sentido hegeliano/marxista. Ela pode, pois, captar a essência de algum momento, parte ou aspecto da realidade humana, porém, certamente não poderá jamais fazê-lo em sua globalidade. Em muitos casos, insistir nos poderes da dialética de maneira acrítica e absolutizante, é impor à realidade uma forma que não lhe é própria, redutora de sua essencial complexidade. Em suma, o homem é um ser irredutivelmente qüinqüitário, e só a hiperdialética, também qüinqüitária, pode dar conta, na plenitude, dos seus múltiplos e complexos processos de auto-realização.

Em que pese nossa crítica acerba ao delírio esquerdista, seria preciso advertir que não podemos dali concluir que qualquer outra consideração lógico-transcendente relativamente a I/D/2 seja destituída de valor no que se refere a uma mais profunda compreensão do homem. Até pelo contrário; acreditamos que estas considerações são necessárias para prevenirmo-nos contra um humanismo estreito, que ponha o homem no lugar do Deus (trinitário) atingido, Ele também, pela onda de desemprego. Contudo, tais considerações precisarão, necessariamente, manter-se dentro de severos limites que poderíamos, numa primeira aproximação, ainda que paradoxal, chamar de horizonte-de-ser sem ser atual. Para maiores e detalhadas explicações remetemos o leitor ao nosso trabalho Noções de onto-teo-logia - Tomo I [15].

Vimos até aqui num radicalismo só: aquele da originalidade irredutível da hiperdialética qüinqüitária vis-à-vis a dialética trinitária tradicional. Na verdade, um posicionamento mais pedagógico do que propriamente doutrinário. É hora, pois, de atenuá-lo um pouco, para deixar que venham à tona algumas significativas similitudes ou homologias existentes entre elas. As homologias tornam-se mais visíveis ao tomarmos uma perspectiva mais "dinâmica", isto é, focalizando as passagens de I a I/D e desta a I/D/2. Diríamos que o surgimento da diferença D no ciclo dialético é de certo modo "natural", no sentido de que ela é imposta pelas próprias leis macroscópicas da "natureza" e, como tal, irreversível; do ponto de vista psíquico, entretanto, ela opera como uma proibição que nos pode levar a três diferentes resultados, os dois primeiros, desastrosos:

   a) forçamento de uma identidade já impossível; vale dizer, o desconhecimento ou recusa da diferença e a fixação do indivíduo numa perspectiva definitivamente narcísica do mundo, ou seja, à esquizofrenia (tentar sair, mas retroceder à I);

   b) deixar-se aprisionar pela novidade sedutora do outro, da imagem no espelho, "esquecendo-se" definitivamente de si, ou seja, à psicose maníaco-depressiva (passar à D, mas deixando-se ali aprisionar);

   c) sustentar a tensão entre identidade e diferença irredutíveis, condição do acontecer, afinal, da síntese dialética (alcançar I/D).

Na passagem de I/D a I/D/2 algo de semelhante acontece, apenas com D/2 operando como uma proibição essencialmente social, e não mais "natural" como fazia D. As mesmas três possibilidades anteriores podem aqui também ocorrer:

   a) partir, mas acabar retrocedendo à I/D, o que resultaria numa neurose histérica;

   b) chegar à D/2 , porém, sem conseguir daí libertar-se, o que resultaria numa neurose obsessiva;

   c) agüentar a tensão entre I/D e D/2 e acabar aceitando a busca de I/D/2 por via da síntese intermediária de I com D/2 (masculino) ou de I/D com D (feminina), o que significaria alcançar a maturidade psíquica.

Existiriam, entretanto, distinguindo esta passagem da anterior, ainda duas possibilidades drásticas, que significam a impossibilidade até mesmo do retorno à I/D, ou seja, a queda em níveis ainda mais arcaicos: 

   d) regressão à I, a um novo modo narcísico de ser, onde há e se é, ao mesmo tempo, a lei, o que caracterizaria a perversão;

   e) regressão à D, onde a realidade mora sempre ao lado, não importa de que lado circunstancialmente se esteja, o que vem caracterizar a paranóia.

Para concluir, permita-nos o leitor algumas considerações em tom quase confessional. Resistimos, no mais íntimo, a passar para o papel aquilo que ainda não nos pareça extremamente claro e evidente. Isto, cria-nos sempre um problema suplementar: o de querermos compulsivamente explicar porque aquilo que expomos não foi percebido antes por outrem. Sem esta explicação suplementar fica-nos, sempre, um sentimento de incompletude e de insegurança. Aqui, como sempre, caímos na mesma situação. Por que, até hoje, não se chegou ao desvelamento da lógica hiperdialética qüinqüitária? Ou, pelo menos, à prévia e intermediária constatação da manifesta fragilidade da dialética trinitária (I/D) frente à lógica clássica dominante (D/2)?

Parece-nos que poderíamos atribuí-lo fundamentalmente à dificuldade em se distinguir as lógicas da diferença (D) e da dupla diferença ou clássica (D/2). Esta indiscernibilidade onto-lógica traz como conseqüência imediata a indistinguibilidade do ciclo propriamente dialético (I, D, I/D) e do ciclo contra-dialético (D, I/D, D/2), importando, por fim, na não percepção da especificidade da hiperdialética qüinqüitária em relação à dialética trinitária.

Registramos abaixo algumas especulações acerca dos possíveis motivos, todos de ordem cultural, da assinalada dificuldade em distinguir D de D/2:

   a) o modo de emergência da própria cultura que sabemos, se dá pela sobreposição da diferença clânica (2ª diferença) à diferença sexual biológica (1ª diferença) [16]. Bisbilhotar por sob a dupla diferença levaria a defrontarmo-nos com nossa origem animal, e isto, sabemos, na cultura do Ocidente, foi por longo tempo considerado como perigosa heresia;

   b) o fato de vivermos cerca de quinhentos anos numa formação cultural radicalmente comprometida com o cientificismo e a racionalidade burocrática, ambas governadas pela lógica da dupla diferença (D/2), cuja afirmação foi concomitante a um dramático recalque das lógicas femininas D e I/D, respectivamente, do desejo e da história -; referimo-nos ao processo de caça às bruxas. Porque facilmente deixariam que, sem mais, voltasse um qualquer dos recalcados, tornando então evidente a natureza relativa da atual cultura. Melhor para o establishment, é óbvio, que persista a indiscernibilidade em causa;

   c) embora de natureza bastante precária, já que não possuímos o amplo conhecimento lingüístico para garantir a total generalidade das premissas que sustentariam o presente argumento, o fato é que pelo menos as línguas política, econômica e culturalmente hegemônicas ocidentais não apresentam um conjunto de verbos auxiliares estruturalmente homólogo ao conjunto das quatro lógicas de base, como é o caso, por exemplo, da língua portuguesa no qual o verbo ser é correlato de lógica transcendental (I); o verbo ter, da lógica da diferença (D); o verbo haver (com certas reservas), da dialética (I/D); e finalmente, o verbo estar, da lógica clássica (D/2). Na língua francesa, a homologia se dá entre o verbo être e avoir, respectivamente, com as lógicas I e D, e se estende com a locução y avoir correlata à lógica I/D. Algo de semelhante ocorre na língua inglesa. Os verbos to be e to have são homólogos às lógicas I e D e a extensão se dá pela locução there be homóloga à lógica I/D.

Tendo-se em conta a extrema dependência do pensamento (lógica) vis-à-vis a linguagem, podemos imaginar o quanto tal insuficiência - perdoem-nos os atingidos pela irreverência da hipótese - pode ter obstruído a percepção da diferença entre as lógicas diferenciais - D e D/2 - e conseqüentemente, da totalidade da estrutura das lógicas de base, condição essencial à distinção entre a lógica dialética trinitária e a hiperdialética qüinqüitária tal como aqui caracterizada.

Não seria justo deixar de assinalar aqui uma ilustre exceção, com mais de dois mil anos, é certo: o tratamento dado por Platão ao ser e seus modos no diálogo O sofista [17] em que são distinguidos o mesmo, o outro, o movimento, o repouso e o ser-ele-mesmo, tal como se comprova pelos extratos escolhidos para epígrafe do presente texto. Depois de tudo que aqui expusemos quem poderia ainda recusar-se a ver a homologia entre estes modos e as cinco lógicas - I, D, I/D, D/2 e I/D/2 - subsumidas na hiperdialética qüinqüitária? Porém, ainda assim, quem teria a necessária coragem para deslocar o Platão trinitário do Parmênides e do Timeu em favor do Platão qüinqüitário que se insinuava já em O sofista?

Platão, a quem apelamos logo à entrada, valha-nos também, agora, à saída:

L'ÉTRANGER.- Si l'on refuse de croire à ces oppositions, qu'on cherche alors et qu'on dise mieux que nous ne venons de dire. Mais croire qu'on a fait une invention difficile parce qu'on torture à plaisir les arguments dans tous les sens, c'est peiner sur des choses qui n'en valent guére la peine; nos arguments présents nous l'attestent. Il n'y a là, en effet, ni invention élégante ni trouvaille difficile, alors que voici ce qui serait difficile autant que beau. [18]



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