5 - Conclusões
Acreditamos que estejamos agora em
condições de concluir acerca da comparação
entre a dialética trinitária e a hiperdialética qüinqüitária.
Não resta dúvida que a primeira, como anteriormente visto,
tem garantida sua condição de "cidadania lógica" como
modo específico de visar o símbolo ou idéia
platônica, bem como a História no seu sentido hegeliano/marxista.
Ela pode, pois, captar a essência de algum momento, parte ou aspecto
da realidade humana, porém, certamente não poderá
jamais fazê-lo em sua globalidade. Em muitos casos, insistir nos
poderes da dialética de maneira acrítica e absolutizante,
é impor à realidade uma forma que não lhe é
própria, redutora de sua essencial complexidade. Em suma, o homem
é um ser irredutivelmente qüinqüitário, e só
a hiperdialética, também qüinqüitária, pode
dar conta, na plenitude, dos seus múltiplos e complexos processos
de auto-realização.
Em que pese nossa crítica acerba
ao delírio esquerdista, seria preciso advertir que não podemos
dali concluir que qualquer outra consideração lógico-transcendente
relativamente a I/D/2 seja destituída de valor no que
se refere a uma mais profunda compreensão do homem. Até pelo
contrário; acreditamos que estas considerações são
necessárias para prevenirmo-nos contra um humanismo estreito, que
ponha o homem no lugar do Deus (trinitário) atingido, Ele também,
pela onda de desemprego. Contudo, tais considerações precisarão,
necessariamente, manter-se dentro de severos limites que poderíamos,
numa primeira aproximação, ainda que paradoxal, chamar de
horizonte-de-ser sem ser atual. Para maiores e detalhadas
explicações remetemos o leitor ao nosso trabalho Noções
de onto-teo-logia - Tomo I [15].
Vimos até aqui num radicalismo
só: aquele da originalidade irredutível da hiperdialética
qüinqüitária vis-à-vis a dialética trinitária
tradicional. Na verdade, um posicionamento mais pedagógico do que
propriamente doutrinário. É hora, pois, de atenuá-lo
um pouco, para deixar que venham à tona algumas significativas similitudes
ou homologias existentes entre elas. As homologias tornam-se mais visíveis
ao tomarmos uma perspectiva mais "dinâmica", isto é, focalizando
as passagens de I a I/D e desta a I/D/2. Diríamos que
o surgimento da diferença D no ciclo dialético é de
certo modo "natural", no sentido de que ela é imposta pelas próprias
leis macroscópicas da "natureza" e, como tal, irreversível;
do ponto de vista psíquico, entretanto, ela opera como uma proibição
que nos pode levar a três diferentes resultados,
os dois primeiros, desastrosos:
a) forçamento de
uma identidade já impossível; vale dizer, o desconhecimento
ou recusa da diferença e a fixação do indivíduo
numa perspectiva definitivamente narcísica do mundo, ou seja, à
esquizofrenia (tentar sair, mas retroceder à I);
b) deixar-se aprisionar
pela novidade sedutora do outro, da imagem no espelho, "esquecendo-se"
definitivamente de si, ou seja, à psicose maníaco-depressiva
(passar à D, mas deixando-se ali aprisionar);
c) sustentar a tensão
entre identidade e diferença irredutíveis, condição
do acontecer, afinal, da síntese dialética (alcançar
I/D).
Na passagem de I/D a I/D/2
algo de semelhante acontece, apenas com D/2 operando como uma
proibição essencialmente social, e não mais "natural"
como fazia D. As mesmas três possibilidades anteriores podem aqui
também ocorrer:
a) partir, mas acabar
retrocedendo à I/D, o que resultaria numa neurose histérica;
b) chegar à D/2
, porém, sem conseguir daí libertar-se, o que resultaria
numa neurose obsessiva;
c) agüentar a tensão
entre I/D e D/2 e acabar aceitando a busca de I/D/2
por via da síntese intermediária de I com D/2
(masculino) ou de I/D com D (feminina), o que significaria alcançar
a maturidade psíquica.
Existiriam, entretanto, distinguindo
esta passagem da anterior, ainda duas possibilidades drásticas,
que significam a impossibilidade até mesmo do retorno à I/D,
ou seja, a queda em níveis ainda mais arcaicos:
d) regressão à
I, a um novo modo narcísico de ser, onde há e se é,
ao mesmo tempo, a lei, o que caracterizaria a perversão;
e) regressão à
D, onde a realidade mora sempre ao lado, não importa de que lado
circunstancialmente se esteja, o que vem caracterizar a paranóia.
Para concluir, permita-nos o leitor
algumas considerações em tom quase confessional. Resistimos,
no mais íntimo, a passar para o papel aquilo que ainda não
nos pareça extremamente claro e evidente. Isto, cria-nos sempre
um problema suplementar: o de querermos compulsivamente explicar porque
aquilo que expomos não foi percebido antes por outrem. Sem esta
explicação suplementar fica-nos, sempre, um sentimento de
incompletude e de insegurança. Aqui, como sempre, caímos
na mesma situação. Por que, até hoje, não se
chegou ao desvelamento da lógica hiperdialética qüinqüitária?
Ou, pelo menos, à prévia e intermediária constatação
da manifesta fragilidade da dialética trinitária (I/D) frente
à lógica clássica dominante (D/2)?
Parece-nos que poderíamos atribuí-lo
fundamentalmente à dificuldade em se distinguir as lógicas
da diferença (D) e da dupla diferença ou clássica
(D/2). Esta indiscernibilidade onto-lógica traz como
conseqüência imediata a indistinguibilidade do ciclo propriamente
dialético (I, D, I/D) e do ciclo contra-dialético (D, I/D,
D/2), importando, por fim, na não percepção
da especificidade da hiperdialética qüinqüitária
em relação à dialética trinitária.
Registramos abaixo algumas especulações
acerca dos possíveis motivos, todos de ordem cultural, da assinalada
dificuldade em distinguir D de D/2:
a) o modo de emergência
da própria cultura que sabemos, se dá pela sobreposição
da diferença clânica (2ª diferença) à diferença
sexual biológica (1ª diferença) [16].
Bisbilhotar por sob a dupla diferença levaria a defrontarmo-nos
com nossa origem animal, e isto, sabemos, na cultura do Ocidente, foi por
longo tempo considerado como perigosa heresia;
b) o fato de vivermos
cerca de quinhentos anos numa formação cultural radicalmente
comprometida com o cientificismo e a racionalidade burocrática,
ambas governadas pela lógica da dupla diferença (D/2),
cuja afirmação foi concomitante a um dramático recalque
das lógicas femininas D e I/D, respectivamente, do desejo e da história
-; referimo-nos ao processo de caça às bruxas. Porque facilmente
deixariam que, sem mais, voltasse um qualquer dos recalcados, tornando
então evidente a natureza relativa da atual cultura. Melhor para
o establishment, é óbvio, que persista a indiscernibilidade
em causa;
c) embora de natureza
bastante precária, já que não possuímos o amplo
conhecimento lingüístico para garantir a total generalidade
das premissas que sustentariam o presente argumento, o fato é que
pelo menos as línguas política, econômica e culturalmente
hegemônicas ocidentais não apresentam um conjunto de verbos
auxiliares estruturalmente homólogo ao conjunto das quatro lógicas
de base, como é o caso, por exemplo, da língua portuguesa
no qual o verbo ser é correlato de lógica transcendental
(I); o verbo ter, da lógica da diferença (D); o verbo
haver (com certas reservas), da dialética (I/D); e finalmente,
o verbo estar, da lógica clássica (D/2).
Na língua francesa, a homologia se dá entre o verbo être
e avoir, respectivamente, com as lógicas I e D, e
se estende com a locução y avoir correlata
à lógica I/D. Algo de semelhante ocorre na língua
inglesa. Os verbos to be e to have são
homólogos às lógicas I e D e a extensão se
dá pela locução there be homóloga
à lógica I/D.
Tendo-se em conta a extrema dependência
do pensamento (lógica) vis-à-vis a linguagem, podemos imaginar
o quanto tal insuficiência - perdoem-nos os atingidos pela irreverência
da hipótese - pode ter obstruído a percepção
da diferença entre as lógicas diferenciais - D e D/2
- e conseqüentemente, da totalidade da estrutura das lógicas
de base, condição essencial à distinção
entre a lógica dialética trinitária e a hiperdialética
qüinqüitária tal como aqui caracterizada.
Não seria justo deixar de assinalar
aqui uma ilustre exceção, com mais de dois mil anos, é
certo: o tratamento dado por Platão ao ser e seus modos no
diálogo O sofista [17]
em que são distinguidos o mesmo, o outro, o movimento,
o repouso e o ser-ele-mesmo, tal como se comprova pelos extratos
escolhidos para epígrafe do presente texto. Depois de tudo que aqui
expusemos quem poderia ainda recusar-se a ver a homologia entre estes modos
e as cinco lógicas -
I, D, I/D, D/2 e I/D/2 -
subsumidas na hiperdialética qüinqüitária? Porém,
ainda assim, quem teria a necessária coragem para deslocar o Platão
trinitário do Parmênides e do Timeu em favor
do Platão qüinqüitário que se insinuava já
em O sofista?
Platão, a quem apelamos logo
à entrada, valha-nos também, agora, à saída:
L'ÉTRANGER.- Si l'on refuse
de croire à ces oppositions, qu'on cherche alors et qu'on dise mieux
que nous ne venons de dire. Mais croire qu'on a fait une invention difficile
parce qu'on torture à plaisir les arguments dans tous les sens,
c'est peiner sur des choses qui n'en valent guére la peine; nos
arguments présents nous l'attestent. Il n'y a là, en effet,
ni invention élégante ni trouvaille difficile, alors que
voici ce qui serait difficile autant que beau. [18]

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