La razón exige
y reclama que exista una ciencia universal de todas as ciencias, y com
pricipios universales en los que se hallen implícitos y contenidos
como lo particular en lo universal, los de las otras ciencias más
particulares...[1]
Raimundo Lulio,
Doctor Illuminatus in Ars magna et ultima.
De modo geral, entre os antropólogos
da atualidade, o tema lógica versus cultura
vem imediatamente referenciado a Lévy-Bruhl [2]
e à sua tese da prevalência, entre os povos primitivos, de
um pensamento ainda pré-lógico, eivado de sentimentos,
trespassado pela emoção, contrastando com o pensamento propriamente
lógico acabado, adstrito à pura forma, dos povos modernos.
A tese teria sido mesmo abandonada pelo próprio autor [3],
mas de qualquer modo contestada pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss
[4]. Segundo
esta última, nenhuma diferença haveria entre a lógica
dos povos primitivos e aquela dos povos modernos. A diferença aparente
dos desempenhos discursivos de uns e outros estaria na freqüência
com que os primitivos se valem do processo de bricolage [5]
simbólica, e não propriamente na lógica. Opinamos
que isto deva ser repensado em profundidade, primeiro, porque não
aceitarmos esta separação drástica ali implícita
entre o lógico e o simbólico (simplesmente porque existe
a questão do estatuto lógico do próprio simbólico);
segundo, porque parece-nos estar ali também implícita uma
concepção restrita, e no entanto paradoxalmente imprecisa,
do que seria a lógica, diga-se de passagem, em acordo com a moda
atual, mas em flagrante desacordo com a tradição filosófica.
No Brasil, não nos
deve causar espanto, vige esta mesma referenciação, apenas
com a agravante da rigidez própria dos copistas e dos pobres de
espírito [6].
Nosso objetivo aqui é
voltar à questão para discuti-la num âmbito maior e
certamente mais apropriado, aquele do pensamento filosófico estrito
senso, o que, naturalmente, nos irá remeter à velha Grécia
[7]. Paralelamente
estaremos superiormente armados com uma renovada concepção
da lógica [8]
que resgata não apenas a riqueza da tradição, como
também sua marginália histórica, tudo isto convergindo
para a demarcação precisa e o completo re-mapeamento do território
lógico.
A reabertura da questão
lógica versus cultura ou, agora dito com bem maior cuidado,
lógica ressuscitada versus cultura não é aqui,
pois, um mero oportuno acadêmico; ela se faz necessária em
razão de que, já o demonstramos alhures [9],
no cerne da filosofia da cultura (ou o que para nós é o mesmo,
da antropologia filosófica) estaria precisamente a questão
da mutação lógica que levou ao advento da cultura,
a mesma lógica que, destarte, depois a acompanha e lhe marca passo.
Comecemos tomando como referência
um esquema de compreensão evolutivo do ser humano, cujas origens
certamente se perdem nos tempos. Parte-se da natureza - representada pelo
animalidade em seu estado de máximo desenvolvimento - , a qual se
vem juntar uma diferença específica, levando então
à emergência do homem e consequentemente da cultura. Entre
os gregos este esquema bastante simples já vigorava de um modo preciso:
o ponto de partida era então a animalidade superior à qual
se agregava como diferença específica o logos ou a
razão discursiva e chegava-se assim ao homem, animal racional. (ver
figura 1).
Figura 1 – O homem grego
Segundo Aristóteles,
a animalidade superior incorporava não apenas as funções
vegetativas
– de nutrição e de reprodução – como também
as funções sensitivas – compreendendo os diversos
modos sensoriais, a que se acrescia a autonomia locomotora. Observe-se
que o poder de por si e propositadamente movimentar-se é, do ponto
de vista formal, um poder de auto-determinação, logo, de
evidente caráter lógico-transcendental ou identitário
(I) .
O ser humano, além
destas, detinha a mais e com exclusividade a função intelectiva,
a posse da razão discursiva (logos) [10].
O homem era pois o animal superior onde ademais habitava o logos.
Pode-se argumentar, como
provavelmente o faria Heidegger [11],
que o logos aristotélico não era mais o logos
heraclítico, o logos originário, ainda não
degenerado em logos metafísico, não importa se transcendental,
dialético ou formal, sendo este último, precisamente, o modo
como ele acabaria se mostrando, já sem seu maior vigor, no próprio
Aristóteles. Na circunstância, entretanto, isto pouco pesa,
pois opte-se por uma ou por outra interpretação, fica o fato
que, para os gregos, o que fazia ser a humanidade era algo de natureza
essencialmente lógica, mais precisamente, lógico-diferencial
ou analítica, conquanto, sejamos obrigados – depois de Heidegger
– a deixar em aberto a questão do logos cosiderado: se o
simples lógico-diferencial (Heráclito) [12]
ou se o duplamente diferencial ou formal (Aristóteles).
Do nosso ponto de vista,
a principal crítica à concepção grega do homem
deve incidir sobre o caráter tipicamente agregativo/substantivo
dado à razão (ou logos), no sentido de que ela ali
funciona como uma "essência" constitutiva e não como um atributo
superveniente. Dito em outras palavras: a razão grega valia por
si e não como produto resultante de um poder diferencial que se
vinha articular à outros poderes ou potencialidades operatórias
similares pré-existentes, para desta sorte ampliá-las ou
multiplicá-las. Veremos adiante que justamente aí situa-se
a mais relevante contribuição do moderno estruturalismo antropológico.
Aquele essencialismo parece-nos
suscitar duas sérias objeções. Primeiro, porque ao
admiti-lo estaremos implicitamente diluindo o caráter evolutivo
da passagem considerada – o novo, por si só, é e diz tudo.
Segundo, porque a "razão", como capacidade analítica
que realmente é, não pode caracterizar o ser humano em sua
totalidade ou "maximalidade", mormente quando já se tem por estabelecido
que os animais superiores dispõem de uma capacidade sintética
ou identitária, inquestionavelmente manifesta em sua auto-determinação
locomotriz, tal como anteriormente assinalado [13].
A nosso ver a diferença especificamente humana não pode valer
pelo que agrega, mas sim pelo que, articulando-se, potencializa e/ou amplia.
Em termos estritamente lógicos,
dir-se-ia que para os gregos, sendo o animal superior pelo menos lógico-identitário
(I) e a razão pelo menos lógico-diferencial (D), o ser humano
teria que ser pelo menos lógico-dialético (I/D). Foi precisamente
a esta conclusão que chegou Platão – é verdade que
por motivações e caminhos outros –, como se lê em seu
diálogo Parmênides [14].
A propósito, o parecer nietzscheano e reiterado por Heidegger que
Platão teria traído o espírito filosófico grego
é uma reprimenda completamente descabida, pois a dialética
(própria e apta a pensar a idéia
ou o conceito) era
algo inerente ao próprio destino do pensamento grego, algo que a
ele em algum momento se desvelaria decretando – tem-se até o direito
de lamentá-lo! – a sua própria superação. Com
Platão chegava-se, de fato, ao termo de uma etapa da história
do pensamento (e, no caso, também da história da cultura),
o que acontecia não por força de uma infidelidade ou de uma
traição, mas pela inexorável exigência (lógica)
da história em seu processo de auto-realização [15].
O cristianismo trinitário,
que se confunde com o pensar da identidade recuperada para além
da diferença, portanto lógico-dialético (I/D), recusou
a essência evolutiva do esquema e assumiu, como reza o Gênesis,
um criacionismo paralelo de todos os entes, embora conferindo uma especial
dignidade ao homem, seja pelo atributo da semelhança ao Criador,
seja pela posição última na ordem da Criação.
Entrementes, ainda que entendida metaforicamente, a criação
do homem a partir do barro (natureza ou apenas res extensa) preserva,
sob o aspecto formal, o esquema compreensivo que vimos tomando por referência,
no entanto, pervertendo-o do ponto de vista lógico. De um lado,
parte-se da matéria inerte, res extensa (D); de outro lado,
atribui-se um caráter puramente identitário (I) à
diferença que fez ser o homem, ou seja, àquilo que concretiza
a passagem da natureza à cultura. Seguindo seu antecedente judaico,
o cristianismo realiza a proeza de transformar a diferença que fazia
a diferença numa identidade. Assim, a passagem do animal ao homem
não se devia mais, como para os gregos, a algo de ordem lógico-diferencial,
mas sim de ordem lógico-identitária - sopro, pura consciência,
consciência moral, liberdade, alma, espírito (mesmo que decaído)
etc. Ao cabo, o homem passava a ser concebido como um misto heteróclito
de corpo (natureza, matéria perecível, lógico-diferencial,
D) e alma (imaterial e eterna, lógico-identitária, I) (ver
figura 2).
Isto era sem dúvida
o que poderia haver de mais coerente com o estatuto lógico-trinitário
(I/D) da cultura cristã – a dignidade do homem se devia à
interveniência da alma (I) pertencente à mesma família
lógica (lógico-identitária) a que pertencia o próprio
ser divino (I/D). Só assim se justificava a semelhança do
homem ao seu Criador. No entretanto, isto significava um evidente retrocesso
relativamente ao que haviam pensado os gregos. Como se vê, conservavam
o mesmo esquema conceitual dos gregos, porém com a completa inversão
das lógicas em jogo: aquela de partida era agora diferencial (D)
e a nova, interveniente, transcendental ou identitária (I).
Figura 2 – O homem cristão
O mais espantoso nisto tudo
é que o pensamento antropológico cristão não
se apercebia da absurdidade da inversão, que negando consciência
ou capacidade lógico-sintética aos animais superiores abria
uma brecha para que daí a pouco os interesses coloniais levantassem
também duvidas quantos à humanidade dos não europeus
cristãos, em particular, de muçulmanos e judeus, depois,
de índios e negros africanos. E isto, sabemos todos, infelizmente,
acabou mesmo acontecendo.
A Modernidade, a princípio,
pareceu preservar a concepção cristã: em Descartes,
o homem se estruturava ainda como misto de corpo e alma, concomitantemente
res
extensa e res cogitans.
Havia, entretanto, a circunstância
de se tratar agora de uma res extensa submetida aos poderes
de uma geometria métrica, portanto sob o império da lógica
da dupla diferença (D/D), enquanto que a res cogitans se
constituía como lógico-identitária, auto-transparência,
pura reflexividade (I). Em suma, o homem cartesiano não podia ser
mais concebido como um ser lógico-trinitário; sua "espessura"
lógica se ampliara fazendo explodir a estreiteza referencial da
dialética cristã (I/D). É exatamente por isso que
Descartes, apesar de ainda carregar tantos vezos medievais, acabou considerado,
com unânime justiça, o primeiro filósofo da Modernidade.
Instalada irreversivelmente
a Modernidade, a ciência lançava-se à tarefa de homogeneização
de todas as coisas, demolindo as tradicionais diferenças entre o
nada e a matéria, o inorgânico e o orgânico, o macro-molecular
e o vivo, enfim, entre o animal e o homem [16].
O Iluminismo continental [17]
dos séculos XVII e XVIII, provocado pelo ciclo dos grandes "descobrimentos"
e colonizações é levado ao reconhecimento do outro
(cultural) como um igual, mas não altera o estatuto lógico-transcendental
do ser próprio de todos os homens (a especificidade humana não
estava mais na alma-substantiva, mas na liberdade-operativa, porém,
ambas se mantinham idênticas em seu estatuto lógico, no caso,
lógico-transcendental).
Chegamos então à
teoria da evolução de Darwin (que hoje, por retroação,
se pode conceber como uma espécie de neo-liberalismo antropológico),
que, como é próprio de todo cientificismo, busca estabelecer
a continuidade (ou a indiferença) entre natureza e cultura: o primitivo
era um macaco evoluído e um latino, naturalmente, uma espécie
de anglo-saxão retardado e muitos degraus abaixo, nas proximidades
ainda do macaco, estávamos nos, brasileiros miscigenados (aliás
como, no fundo da alma, europeus, argentinos e a "elite" brasileira no
poder continuam a crer até hoje).
Surge então a antropologia
funcionalista, uma nova maneira de fazer prosperar o cientificismo antropológico
sem os inconvenientes do etnocentrismo desabusado e ostensivo do evolucionismo
cultural darwinista. Em nada surpreende que deixassem de lado exatamente
a problemática existencial e histórica da cultura.
Paralelamente, desenvolvia-se
o marxismo, a que devemos o primeiro passo efetivo para a re-fundação
da antropologia moderna, na medida em que ele rompe abertamente com o inconsistente
transcendentalismo cristão, interpondo entre o animal superior e
o homem, não mais a alma ou algo equivalente, como a liberdade,
(I), mas o trabalho (D).
A essência lógica
do trabalho é a diferença, pois trabalho é precisamente
o esforço que visa outra coisa que ele próprio [18].
Com isso começava de fato uma nova era na antropologia, posto que
assim rompia-se com a concepção cristã que via na
passagem do animal ao homem a intervenção de algo da ordem
da identidade. O marxismo entretanto não pode ir muito mais longe
em razão de que, herdeiro da dialética hegeliana (I/D), não
possuía a "espessura lógica" suficiente para acomodar (ou
poder compreender) a dupla diferença (D/D), a lógica da ciência
que à época já se apresentava como o traço
fundamental da Modernidade [19].
Voltando à tradição
propriamente antropológica acadêmica, já no início
do século XX, deparamo-nos, agora sim, com a figura de Lévy-Bruhl
[20]. Com
ele um grande passo é dado em direção de uma nova
antropologia. Além de pugnar por um posicionamento mais "empático"
do antropólogo em relação às cultura primitivas
transformada em "objeto" de estudo, ele renova radicalmente a indagação
antropológica: ao invés de perguntar como se fizeram os jesuítas,
se os primitivos tinham alma, pergunta se eles tinham lógica (clássica).
É evidente, no caso, que a pergunta por si valia imensamente mais
do que a resposta que se lhe viesse dar, razão pela qual ele pode
ser com justiça considerado um dos fundadores da antropologia moderna.
Perdoe-nos o leitor uma digressão
relativamente longa acerca das origens da noção de pré-lógico
em Lévy-Bruhl. Quando este faz uso desta expressão para caracterizar
o pensamento dos povos primitivos, não o faz no sentido de que estes
fossem destituídos de lógica (o que seria mesmo um absurdo,
pois destituído de lógica é sinônimo de destituído
de pensamento), mas como usuários de uma outra lógica,
lógica que diferiria (o que não quer dizer que se opusesse
ou negasse) da lógica formal hegemônica do Ocidente; tratava-se
de uma lógica onde sentimentos e emoções ainda tinham
um grande peso no processo de produção da "verdade inferida".
Esta concepção remontava, pelo menos, a Théodule Ribot
(psicólogo francês conhecedor e apreciador sob muitos aspectos
da psicanálise freudiana [21],
que afirmava a prevalência, entre os povos primitivos, de um pensar
por analogias e proximidades significativamente carregado de sentimentos
e emoções. Logique des sentiments é
mesmo o título de sua principal obra) [22].
Esta noção
de pensamento pré-lógico em Lévy-Bruhl aqui no Brasil
originou uma predisposição cheia de veneno e má fé,
pois é justamente ela que tem servido de pretexto para desmerecer
a obra de um dos mais importantes estudiosos da formação
da cultura brasileira – Arthur Ramos –, que, sabemos, declarado admirador
da obra de Lévy-Bruhl e bem informado sobre suas fontes, particularmente,
sobre a logique du sentiment de Ribot [23].
Em suma, é inquestionavelmente óbvio que o termo pré-lógico
em Arthur Ramos, tanto quanto em Lévy-Bruhl e Ribot, não
quer dizer destituído de lógica, mas sujeito à lógica
do sentimento. Pasmem: lendo o livro de Ribot, facilmente identificamos
sua lógica como aquela dos processos primários freudianos,
bastante próxima pois da ulterior lógica lacaniana do significante
[24].
O principal mérito
de Lévy-Bruhl, afirmávamos, foi trazer novamente a questão
da cultura para o âmbito da lógica tal como ela fora posta
originalmente pelos gregos.
Eis que na segunda metade
do século XX emerge a antropologia estrutural inspirada, de um lado,
em Rousseau e no materialismo dialético marxista (anti-transcendental),
de outro lado, na lingüística sincrônica de Saussure,
na fonologia diferencial de Jackobson e sobretudo na teoria do inconsciente
de Freud. Nestes três últimos casos há de comum o abandono
da indagação pela origem ou pelo ser (como vir-a-ser) para
se tomar como "objeto" próprio do saber a diferença já
instaurada. Em suma, assume-se que em qualquer circunstância, o verdadeiro
objeto científico é o ser-sincrônico e não o
especulativo vir-a-ser-diacrônico – uma reação, ainda
que bem tardia, ao "totalitarismo" hegeliano!
No âmbito da cultura,
busca-se então a diferença humana já universalmente
operante que vai ser identificada como a diferença clânica,
pré-condição da instituição do que seria
a lei convencional por excelência: a lei de proibição
do incesto, contra face da obrigatoriedade da exogamia. Com isto instituía-se
a circulação das mulheres entre os homens reunidos em clãs.
A troca das mulheres entre homens assim sub-agrupados se constituía
no paradigma de todas as demais trocas e por conseqüência da
solidariedade social. Com isso, retornava-se em definitivo a um dos aspectos
fundamentais da concepção grega: a passagem do animal ao
homem devia-se a um poder diferencial e não identitário,
como nos queria fazer acreditar o cristianismo.
Entrementes, emerge aqui
uma importante novidade: é que tal diferença não mais
valia por si, mas vinha para se articular à diferença sexual
animal bi-polar macho/fêmea. Como conseqüência imediata,
a sexualidade humana se via compelida à redefinição,
agora, no quadro mais amplo de uma estrutura lógica tetrapolar,
ou seja, deixava a simples pela dupla diferença. Ver figura 3.
Figura 3. A diferença
clânica no estruturalismo
Como é bem sabido,
a importante contribuição lacaniana à compreensão
da sexualidade humana tem como antecedente o estruturalismo antropológico
de Lévi-Strauss e isto só pode ser devidamente compreendido
e apreciado se, justamente, levarmos em conta que tal aproximação
tem como pano de fundo a lógica. Não é pois mero acaso
que a "sexuação" humana em Lacan viesse encontrar sua melhor
expressão nos famigerados matemas, na verdade, expressões
de fisionomia e, sobretudo, de essência realmente lógicas
[25].
Devemos aqui abrir um parêntese.
Alguém, familiarizado com a doutrina estruturalistas, poderia estranhar
nossa insistência na necessidade e sobretudo na suficiência
da dupla diferença para a caracterização daquilo que
é essencial e propriamente humano. Porém, no simples átomo
do parentesco não estariam implicadas não apenas duas,
mas de fato três relações fundamentais – aliança,
consangüinidade e filiação? Não é muito
difícil demonstrar que a dupla diferença é o bastante
para a definição das referidas relações, que
estas não são relações isoladas, mas muito
bem articuladas entre si [26].
A dupla diferença, por exemplo, pode ser representada por um quadrado,
uma diferença ilustrando o par em cima (a)/em baixo (b) e a outra,
o par esquerda (c)/direita (d). Agora fica evidente que podemos formar
um terceiro par com os termos diagonais do quadrado (e/f). Como as três
relações são equivalentes, podemos redesenhar o quadrado
tomando quaisquer duas relações para formar os lados do quadrado,
ficando a terceira automaticamente definida pelas duas diagonais. Ver figura
4.
Figura 4. Duas diferenças
e três relações
Voltando à nossa linha
de raciocínio, diríamos que, sem dúvida, o estruturalismo
representa um grande avanço em relação aos gregos,
pena, entretanto, que viesse acompanhado de dois outros grandes retrocessos.
O primeiro deles, refere-se
ao "logicismo" grego: no estruturalismo, tanto a diferença sexual
de partida quanto a segunda diferença clânica valem por si,
são "substanciais" e não apenas realizações
de uma matriz verdadeiramente formal, em que pese a denominação
geral de estruturalismo antropológico dado a esta corrente de pensamento.
Queremos dizer que, por mais significativo que seja o "modelo sexual",
ele é tão apenas uma realização possível
de um esquema lógico, que pode também realizar-se sob outros
aspectos, como deveras o faz [27].
Para ficarmos apenas num exemplo: a passagem da capacidade de operação
simbólica (I/D) dos animais superiores à capacidade simbólico-discursiva
(I/D/D) – proposicional no dizer de Cassirer [28]
– do homem exige igualmente a introdução de uma segunda diferença.
De fato, a gramática é uma estrutura legal convencional necessariamente
sujeita à lógica da dupla diferença D/D) [29].
A lei da proibição do incesto é, formalmente, uma
gramática; são ambas leis societárias convencionais.
O segundo retrocesso em relação
aos gregos refere-se ao "esquecimento" do caráter lógico-identitário
dos animais superiores, especificamente dos cordados [29],
que está presente mesmo no registro sexual. Podemos considerar macho/fêmea
como realizações de uma diferença D, pensá-la
apenas no âmbito da res extensa. Entretanto, isto não
passa de uma simplificação, pois o animal, mesmo instintivamente
determinado identifica-se ou assume sua determinação sexual:
ele não é apenas macho; ele é macho que se assume
macho, o mesmo se dando com a fêmea.
Passando-se do registro sexual
ao simbólico, percebe-se isso ainda com maior clareza, pois é
inegável o poder de simbolização arbitrária
dos animais superiores, ou seja, sua capacidade de operar dialeticamente
(I/D). Ao mesmo tempo, facilmente constatamos sua radical incapacidade
em relação à articulação gramatical
(D/D). Negar isto é não conseguir distinguir a enorme diferença
entre os pares porca/porco e porca/parafuso.
Voltando aos gregos, poderíamos
agora aceitar que o logos constituísse a diferença
especificamente humana, porém, na condição dele vir
para se compor com poderes e potencialidades operatórias animais
similares pré-existentes e de certo modo re-produzi-las em nível
operatório superior. Com efeito, o logos estaria assim ampliando
a capacidade lógico-analítica dos seres vivos, a rigor, "duplicando-a"
ou reiterando-a, e fazendo-o sem prejuízo do seu ser sintético.
Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana
(D) e/ou, já a posteriori articulada, como razão formal
aristotélica (D/D), o fato é que, habitado pelo logos,
o
homem se capacita a operar a nível duplamente lógico diferencial
(racionalmente). Em compensação, teríamos que recuperar
o que o estruturalismo desaprendeu dos gregos. Do ponto de vista instrumental
ou objetivamente operatório o homem é sem dúvida ser
racional, porém, existencial ou subjetivamente, no concomitante
exercício de sua capacidade lógico-identitária herdada
da animalidade superior, seu estatuto lógico global tem que ser,
na verdade, lógico-qüinqüitário ou hiperdialético
(I/D/D).
Para nós, portanto,
bastaria dizer que o animal superior opera a nível lógico
dialético trinitário (I/D) e o homem a nível lógico
hiperdialético qüinqüitário (I/D/D) (ver figura
5). A diferença clânica, que permite a definição
de regras de proibição de incesto paralelamente à
imposição da exogamia, seria um dentre muitos modos possíveis
de manifestação - privilegiado, é verdade - daquela
produção "genea-lógica".
Figura 5 – O homem lógico-qúinqüitário
Não é de admirar
que culturas identitárias (judaico-critãs) atribuam à
intervenção de uma identidade como sendo a razão de
passagem da animalidade ao homem, da natureza à cultura. Do mesmo
modo as culturas lógico diferenciais (pagãs, grega e moderna)
atribuirão aquela passagem a uma diferença. Incoerente seria
que o fizessem ao contrário ou mesmo indiferentemente!
Gostaríamos ainda
de chamar a atenção para o fato que o esclarecimento da relação
lógica versus cultura provoca uma reviravolta da velha querela
acerca das relações entre natureza e cultura.
A prestigiosa razão
suficiente leibniziana que busca responder à questão ontológica
(no caso: porque existe a cultura e não tão apenas nada de
cultura, ou seja, natureza?) [30],
ganha então uma resposta bem precisa: a passagem da natureza - representada
pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados),
capazes portanto de operar com símbolos convencionais (I/D) - à
cultura (I/D/D) se fez pela invenção/ incorporação
de uma segunda diferença (D) - , em termos antropológicos,
a diferença clânica. Ora, fica por aí evidente quão
equivocado é o costume corrente de contrapor natureza e cultura
de maneira meramente especular. Natureza e cultura se opõem,
sim, mas como termos de uma seqüência, logo, guardando um iniludível
relacionamento hierárquico.
A seqüência começa
com o ser, de estofo lógico transcendental (I), segue com
a natureza, de estofo lógico dialética (I/D) e chega
à cultura, de estofo lógico-qüinqüitário
(I/D/D=I/D/²). E, pelo menos do ponto de vista especulativo, ela permanece,
uma seqüência aberta, como mostra a figura 6.
É importante notar
que o estatuto dialético da natureza só é alcançado
ao nível dos animais cordados, capazes de operar com símbolos
convencionais. A natureza enquanto mundo físico, na verdade não
passaria do estatuto lógico diferencial (res extensa).
Figura 6 – Natureza versus
cultura
Concluiríamos afirmando
que não há como pensar a filosofia da cultura, ou seja, a
"diferença" ontológica homem/natureza ou natureza/cultura
sem o concurso da lógica, ou seja, sem que se pense porque se pode
deveras chegar a pensar nisso.
Notas
[1] Citado por I. M. BOCHENSKI,
Historia
de la Lógica Formal, Madrid, Gredos, 1976, p. 288. Tanto Bochenski
quanto GILSON, Etiene (A filosofia na Idade Média, S Paulo,
Martins Fontes, 1998) dão testemunho que a mathesis universalis
de Leibinz teria sua inspiração na Ars Magna et Ultima
de Lúlio.
[2] LÉVY-BRUHL, La Mentalité
Primitive, Paris, Retz, 1976
[3] _______. Les Carnet de Lucien
Lévy-Bruhl, Paris, PUF, 1949.
[4] LÉVI-STRAUSS, Claude Antropologia
Estrutural Um e Dois, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976
[5] Bricolage: em geral, técnica
oportunística de construção de novos objetos a partir
do reaproveitamento de velhos objetos, de suas partes, até de seus
caco ou pedaços. No caso, o termo está sendo transposto par
o terreno simbólico e o reaproveitamento é fundamentalmente
o de partes de estruturas conceituais já usadas em outros
contextos.
[6] Numa das sessões do XVII Congresso
Nacional da SUSSESO, em 1984, quando ingenuamente falamos em
pensamento
pré-lógico - não no sentido de destituído
de lógica, mas de ainda incapaz de uma representação
simbólica objetiva de seu uso - , um companheiro de mesa, famoso
antropólogo, do alto de sua autoridade midiático-doutoral,
na impossibilidade de queimar-nos vivo pela heresia, teve um verdadeiro
chilique diante do público. Inesquecível!
[7] A remissão aos gregos é,
na verdade, de natureza temática, pois como bem observou Mercio
Pereira Gomes, do ponto de vista existencial, deveríamos remetermo-nos
aos povos mais primitivos que, para simplesmente preservarem sua identidade,
se vêm obrigados à operação lógica de
nadificação do outro, ou seja, a se instituírem
como os únicos verdadeiros humanos. Quanto às nossas opiniões,
ver SAMPAIO, L. S. C. de, Noções de Antropo-logia.
Rio de Janeiro, UAB, dezembro de 1996. (xerografado) e Desejo, fingimento
e superação na história da cultura, Rio de Janeiro,
1998 (xerografado)
[8] SAMPAIO, L. S. C. de. Noções
Elementares de Lógica – Compacto, versão abreviada e
significativamente modificada do volume I de obra homônima, Rio de
Janeiro, I. Cultura-Nova, 1991 (xerografado) ou, numa versão
mais recente BARBOSA, M. C. As Lógicas - As lógicas
ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. S. Paulo, Makron
Books,1998.
[9] SAMPAIO, Noções
de antropo-logia, op. cit. .
[10] ARISTÓTELES, Política,
Brasília, UnB, 1988. I,2,1253 a
[11] HEIDEGGER, M., Heráclito
Rio
de Janeiro, Relume Dumará, 1998 . Também nossos comentários
em SAMPAIO, L. C. S. de, Crítica da Cultura. Rio de Janeiro,
1999.
[12] Poder-se-ia argüir que em
Heráclito o
logos não é propriamente um atributo
do homem como seria a razão em Aristóteles. Contudo, a confrontação
continuaria ainda assim pertinente na medida em que, para Heráclito,
estaria implícita como característica especificamente humana
a capacidade de "escuta" do logos.
[13] A afirmação que a
competência para pensar, ou seja, para operar segundo a lógica
está fundamentalmente associada à existência do sistema
nervoso central (SNC) parece-nos óbvia, embora não nos pareça
ainda fácil apontar em todos os casos as bases fisiológicas
em que se apoia tal certeza. Vamos tentar justificar a afirmação
precisamente no caso que nos parece de todos o mais problemático:
o pensar consciente governado pela lógica transcendental (I).
Começamos rastreando o processo de formação
do SNC. Já mesmo em alguns entes unicelulares se pode distinguir
regiões especificamente sensitivas e outras motoras (USHERWOOD,
P. N. R. Sistemas nervosos, S. Paulo, Nacional-EDUSP, 1977). O primeiro
passo na especialização funcional a nível celular
se dá nos organismos pluricelulares, quando aparecem algumas células
com funções exclusivamente sensoriais, e outras, exclusivamente
motoras. Temos um terceiro momento, presente já em alguns celenterados,
em que aparecem células com função especializadas
na pura transmissão de sinais (neurônios propriamente ditos)
ligando células sensoriais a células motoras.. Consolida-se
um novo degrau de complexidade/especialização com a emergência
de células inter-neuroniais que, entre algumas outras, assumirão
funções de comutação de sinais, possibilitando
a ativação de canais de transmissão de alta velocidade;
isto irá viabilizar o aumento do porte do animal sem perdas no grau
já alcançado de integridade/integração. Estes
canais permitem que sejam conservados os tempos de resposta mesmo a maiores
distâncias. Consuma-se um novo passo com o aparecimento dos gânglios
– formação cerrada de corpos neurais – que assumem, entre
outras, as funções de integração de informações
provenientes de diferentes órgãos sensoriais. O passo seguinte
é o aparecimento do tubo neural nos vertebrados e do cérebro:
série de três intumescências que se formam na extremidade
do referido tubo. Contando do extremo para traz temos o prosencéfalo
(que ainda se diferencia em telencéfalo e diencéfalo), o
mesencéfalo ou cérebro médio, e por fim, o rombencéfalo.
Do ponto de vista funcional, ainda vindo no mesmo sentido, temos regiões
especializadas no trato de canais olfativos, cinestésicos e luminosos.
A expansão envolvente da formação extrema (antes preponderantemente
olfativa) dá nascimento à córtex, que paralelamente
expande sua complexidade por meio de "dobramentos e redobramentos" que
vão acabar dando o aspecto típico do cérebro humano.
Importa destacar que o simples aparecimento de células
especializadas em transmissão é a pré-condição
da digitalização dos sinais nervosos. O surgimento de gânglios
com funções integradoras pressupõe, adicionalmente,
que ocorra uma homogeneização na codificação
dos sinais digitais, isto é, que informações provenientes
de órgãos de sensibilidade diferenciadas sejam representadas
por sinais elétricos digitais da mesmo tipo.
Com o cérebro surge a possibilidade de um verdadeiro
processamento de sinais o que pressupõe a superação
das limitações hierárquicas dos tipos (no preciso
sentido que lhe dá Bertrand Russell). Dizemos que há uma
superação desta limitação quando "informações
substantivas" recebem codificação de mesma natureza que "informações
relacionais" (informação sobre relações de
"informações substantivas") e "informações
processuais" (informações sobre transformações
de "informações substanciais"). Esta homogeneidade de codificação,
a nosso juízo, é uma condição fundamental para
a emergência da consciência, posto que só assim o animal
terá condições de uma representação
simultânea e compatível tanto dos estados do mundo exterior
quanto de seus próprios estados internos e de suas respectivas modificações.
Não temos espaço aqui para entrar em detalhes
acerca das células gliares, cerca de 10 vezes mais numerosas do
que os próprios neurônios, que por sua atividade "auxiliar
de limpeza" podem garantir a permanente condição de higiene
num exíguo espaço onde ocorre tão gigantesco nível
de atividades.
Um fenômeno de enorme relevância é
o modo como se dá a formação topológica do
SNC dos vertebrados. Este fenômeno que ocorreu no curso da filogênese,
que conduziu à emergência dos vertebrados é, de certo
modo, recapitulado na sua ontogênese (fim da quarta semana). Trata-se
do processo de formação do tubo neural, em cuja extremidade
anterior, já o vimos, desenvolver-se-á o cérebro.
Pode ser facilmente observado nos jovens embriões dos vertebrados
como o tubo neural se forma pelo processo de invaginação
do ectoderma dorsal. Este processo permite a formação de
um tubo superficial, que a seguir se interioriza e em torno do qual virá
se formar a coluna vertebral protetora. A figura a seguir nos mostra uma
seqüência esquemática das fases de formação
do tubo neural explicitando suas ligações com os órgãos
sensoriais, através dos nervos aferente, e com os órgãos
motores, através dos nervos eferentes.

Seria importante enfatizar alguns dos aspectos topológicos
deste processo de invaginação do ectoderma. Se o consideramos
como sendo uma superfície orientada – suposição inteiramente
razoável se tivermos em conta que se trata de um tecido de células
sensíveis – constataremos que o SNC, de certo modo, constituiu-se
também como uma superfície igualmente orientada, porém,
em direção contrária àquela do ectoderma que
lhe deu origem [OAKLEY, David A. Brain, behaviour and evolution.
London, Methuen, 1979 e SMITH, C. U. M. El Cerebro, Madrid, Alianza,
1972]. Esta especial orientação vai, pois, constituir uma
interioridade no corpo (espacial) do animal. Numa linguagem um tanto informal,
diríamos que o animal passa a dispor, em si, de um avesso; que nele
se cria um espaço interno em que se pode representar tanto o meio
como seus próprios impulsos e disposições do próprio
organismo, e além, simular diferentes cursos de ação
sem ter que pagar o imprevisível preço de uma efetiva experimentação.
Constitui-se assim um espaço imaginário onde é possível
até refugiar-se momentaneamente fugindo às excessivas pressões
do mundo. No homem, este espaço imaginário chega a constituir
um mundo onde se pode dar explicações para o bem e o mal,
onde pode localizar suas origens míticas, gozar o ilimitado poético
e até, dramática e definitivamente, propor-se como seu próprio
enigma ou pura e simplesmente dissolver-se na loucura.
Em suma, diríamos que a base filosófico
para a operação lógico-diferencial (D) poderia estar,
de um lado, na codificação digital dos impulsos das células
sensíveis e, suplementarmente, na homogeneização desta
codificações com relação à diversidade
de sensibilidades em jogo (diversos sentidos). Por outro lado, a operação
de identidade (I) se alicerçaria na homogeneidade da codificação
no que diz respeito aos tipos lógicos e, sobretudo, no próprio
processo de formação do SNC por via da invaginação
do ectoderma.
Antes de encerrarmos esta nota, aproveitamos a ocasião
para chamar a atenção sobre a insuficiência dos modelos
condutivistas freqüentemente propostos para vertebrados, incluindo
às vezes o próprio homem, em termos de in-put
e out-put e de uma única função de transformação
os articulando. As considerações topológicas referentes
à formação do SNC nestes animais evidencia que, levadas
em consideração as orientações das superfícies
em jogo, eles seriam dotados de um espaço interno, o que nos obriga
a descartar o simples modelo bipolar em favor de um modelo tetrerapolar,
onde haveria espaço para discriminar quatro e não apenas
duas intervenções:
in-out-put, in-in-put, out-in-put,
out-out-put. Nestas circunstâncias, poderíamos estabelecer
as seguintes correspondências:
Sesação <=>
in-in-put
Percepção <=>
in-out-put+ in-in-put
Sensação cinestésica <=> out-in-put
Ação <=>
out-in-put + out-out-put.
Para maiores detalhes ver figura abaixo.

[14] PLATON, Théététe,
Parmênides.
Paris, Flammarion, 1967
[15] SAMPAIO, L. S. C. de
Desejo,
Fingimento e Subversão na História da Cultura. Rio de
Janeiro, 1999.
[16] SAMPAIO, L. S. C. de Reflexões,
logicamente otimistas, acerca do advento da cultura nova pós-científica
in Pensamento Original Made in Brazil, Rio de Janeiro, Oficina do Autor/etc...,
1999
[17] Sabemos que a citação
aqui do Iluminismo é uma simplificação, talvez excessiva.
De modo geral o Iluminismo está comprometido com a liberdade (I)
e com a razão formal (D/D), esquema lógico que desde Descartes
caracteriza a Modernidade: logo, não é aí que vamos
encontrar sua razão de ser nem aquela de suas variantes. Um exame
mais atento mostrará que o mais importante no Iluminismo é
o que ele se propõe fazer, na circunstância, com a des-razão
(coração, intuição, natureza,. instinto, emoção
etc.) (D), que acabava de ser recalcada justamente pela razão científica
(D/D).
[18] Não estamos aqui
referendando a concepção marxista sobre o trabalho. Muito
pelo contrário, a essência do trabalho é se constituir
num esforço que visa outra coisa que si mesmo, sendo por isso, necessária
e essencialmente trabalho
alienado. Não foi, pois, o capitalismo
que criou o trabalho alienado nem o comunismo poderia aboli-lo. SAMPAIO,
L. S. C. de . Lógica e Economia, Rio de Janeiro, Inst. Cultura-Nova,
1988 (xerografado)
[19] SAMPAIO, Reflexões, logicamente
otimistas, acerca do advento da cultura nova pós-científica,
op. cit.
[20] LÉVY-BRUHL,
La
Mentalité Primitive, op. cit.
[21] RIBOT, Th. La logique affective
et la psychanalyse,
R. Philosophique, 1914, LXXVIII
[22] _______. La Logique des Sentiments,
Paris, F. Alcan, 1920
[23] Arthur Ramos conhecia a fundo não
só a obra de Lévy-Bruhl como também suas fontes. Como
curiosidade, relatamos que ao consultar o exemplar de
Logique du Sentiment
de Ribot existente na Biblioteca Nacional, constatamos que ele pertenceu
justamente a Arthur Ramos e guarda suas inúmeras anotações
manuscritas à margem e em pequenos pedaços de papel nele
inseridos.
[24] Théodule Ribot é
citado duas vezes no volume 1 e muitas no volume 2 da História
da Psicanálise na França de E. ROUDINESCO, Rio, Zahar,
1989 – em geral, na companhia de Janet, Binet, Taine –, como introdutor
do modelo jacksoniano na França, como inspirador de algumas idéias
de Charcot e outras coisas mais. Entretanto sua ligação com
a pasicanálise ficaria bem melhor definida se transladássemo-nos
para o plano lógico, forçando um confronto entre sua Logique
du Sentiment e a lógica do significante lacaniana. Fica a sugestão.
[25] SAMPAIO, L. S. C. de Lacan e
as Lógicas in Lógica Ressuscirada, Rio de Janeiro, EdUERJ,
[26] O fundamento disto se encontra
na teoria dos grupos, particularmente nas propriedades do denominado grupo
de Klein.
Afora a identidade isolada, o grupo mais simples é
o grupo binário, formado por dois elementos, por exemplo, a e b,
cuja tabela de multiplicação é:
O grupo de Klein é o quadrado do grupo binário
acima, isto é, o produto do grupo (a,b) pelo grupo homólogo
(c,d), cuja tabela de multiplicação é:
| x |
| |
ac |
ad |
bc |
bd |
|
| ac |
| |
ac |
ad |
bc |
bd |
| ad |
| |
ad |
ac |
bd |
bc |
| bc |
| |
bc |
bd |
ac |
ad |
| bd |
| |
bd |
bc |
ad |
ac |
As duas diferenças seriam representadas pelos subgrupos
(a,b) e (c,d) e as três relações articuladas, pelos
pares ad, bc e bd, os elementos não identitários ( não
ac) do grupo de Klein.
Este grupo aparece por toda parte, porque ele é
simplesmente uma espécie de simulação formal (é
óbvio que drasticamente empobrecida) da verdadeira dupla diferença
que fez ser o homem.
[27] Existem outros bem interessantes,
como a roupa (ou a pintura dos corpos) representando uma terceira pele.
A condição animal capaz de operar I/D requer um SNC e este,
como vimos na extensa nota 13, é uma dupla pele. A condição
humana requereria, portanto, um diferença suplementar, logo, uma
terceira pele. Ser humano é, justamente, ser capaz de se por
na pele do outro, perfazendo pois um "articulado" de três peles.
Ë precisamente isto que está logicamente por traz da piedade
em J-J Rousseau. Desde que saibamos procurar, na própria obra dos
estruturalistas não faltariam muitos outros exemplos.
[28] CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre
o Homem. Introdução a uma filosofia da cultura humana.
S. Paulo, Martins Fontes, 1997
[29] SAMPAIO, L. S. C. de Introdução
à Antropologia Cultural., I, II, III e IV em 2 vídeos,
com cerca de 3,5 h de duração, EMBRATEL/UAB, 1993 ou alternativamente
Noções
elementares de lógica - Compacto, Rio, ICN, 1988.
[30] SAMPAIO, L. S. C. de Por que,
também, uma filosofia da cultura, Rio de Janeiro, 1999.
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